OPINIÃO

Erros e acertos do Enem ao usar educação de surdos como tema da redação

Um candidato com surdez severa teve seu aparelho auditivo retirado pelos fiscais, sob suspeita de que seria um ponto eletrônico para colar durante a prova.

10/11/2017 14:04 -02 | Atualizado 10/11/2017 14:04 -02
Nacho Doce / Reuters
Estudantes surdos utilizam Libras para se comunicar antes de aula de música em São Paulo.

No último domingo (5), mais de quatro milhões de alunos compareceram ao primeiro dia de prova do Enem 2017 para responder questões de Ciências Humanas, Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e também elaborar a redação.

O tema da redação do Enem deste ano fala sobre educação de surdos no Brasil e a Incluser, startup sobre diversidade no mercado de trabalho que estou construindo com mais três jovens profissionais, levantou erros e acertos do Inep na escolha do tema.

Acertos

1. Colocar um tema relacionado às pessoas com deficiência

Neste ano, em meio a assuntos como polarização política, fake news, ascensão das forças conservadoras, ataques com armas de fogo, bullying e crises em relações internacionais, o Inep acertou ao escolher um tema relacionado à inclusão de pessoas com deficiência quando ninguém esperava. Consideramos essa decisão positiva por trazer visibilidade a um tema pouquíssimo abordado na nossa sociedade.

2. Elaborar video-prova traduzida em Língua Brasileira de Sinais (Libras)

Foi o primeiro ano que o Enem traduziu as orientações e a prova para Libras, o que demonstra uma crescente preocupação com a inclusão de pessoas surdas no exame.

Erros

1. Colocar a questão de maneira limitada sem quebrar estereótipos

Os quatro textos sugeridos como base para o processo de elaboração da redação versaram sobre: direitos, estatísticas de matrículas, campanha de inclusão e histórico de inclusão de surdos na educação brasileira. Porém nenhum deles contém informações sobre as nuances da deficiência auditiva, isto é, quais são as possibilidades dos surdos em face a diferentes tipos e graus de surdez.

Um deficiente auditivo pode, por exemplo, ter uma surdez neurossensorial leve e, com uso de aparelho auditivo, ser capaz de se comunicar fluentemente. Nesse caso, o indivíduo passará por situações diferentes da pessoa com surdez profunda, que pode não vir a desenvolver fala, se comunicando apenas por Libras.

Não abordar essas diferenças não ajuda a quebrar estereótipos das pessoas surdas e as coloca como um grupo homogêneo.

2. Não conseguir ser 100% inclusivo com os próprios surdos

Apesar da boa iniciativa em orientar e traduzir a prova para Libras, o Enem 2017 não conseguiu ser 100% inclusivo com as próprias pessoas surdas que se comunicam por essa linguagem. Há termos em português que não têm uma tradução precisa em Libras. Isso traz a necessidade de contextualizar muito bem e torna textos longos mais desafiadores para os surdos do que para os falantes do português.

3. Não ter dado treinamento em inclusão para a equipe

Os desafios de inclusão não se resumem à tradução de linguagem, é necessário também preparar o ambiente para a diversidade. Um candidato com surdez severa teve seu aparelho auditivo retirado pelos fiscais, sob suspeita de que seria um ponto eletrônico para colar durante a prova. Após o episódio o aparelho não funcionou mais, o que indica também que o procedimento pode ter quebrado o dispositivo, que custou à família do rapaz R$ 6,4 mil.

Esse tipo de situação indica ineficiência e falta de informação por parte da equipe recrutada para conduzir o exame e nos mostra que ainda há um longo caminho se o Inep realmente quer tornar a prova inclusiva.

Acreditamos que iniciativas de inclusão que sejam abrangentes para os diversos tipos de deficiência são aquelas que podem gerar mais resultados positivos para todos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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