OPINIÃO

Eike Batista, corrupção na esfera privada e a meritocracia que nos vendem

30/01/2017 11:42 -02 | Atualizado 31/01/2017 22:03 -02
Fred Prouser / Reuters
Brazilian Eike Batista, chairman and CEO of EBX Group, gestures as he is introduced as one of the world's wealthiest men, prior to the "Global Overview: Shifting Fortunes" lunch panel discussion at the Milken Institute Global Conference in Beverly Hills, California April 30, 2012. REUTERS/Fred Prouser (UNITED STATES)

No meu segundo ano da faculdade, em 2010, a empresa júnior organizou uma palestra com o Eike Batista que lotou o auditório principal. Eu, que não sabia direito quem ele era, resolvi pesquisar porque as pessoas pareciam tão animadas com a vinda desse 'empresário de sucesso'. Cheguei na Wikipedia e algumas informações me chamaram atenção logo de cara:

- Eike é filho de Eliezer Batista da Silva, ex-presidente da Companhia Vale do Rio Doce

- Passou a adolescência, em Genebra (Suíça), Dusseldórfia (Alemanha) e Bruxelas (Bélgica)

- Retornando ao Brasil, no início dos anos 1980, se dedicou ao comércio de ouro e diamantes, sendo intermediário entre produtores da Amazônia e compradores de grandes centros do Brasil e da Europa

- Com 21 anos, montou uma empresa de compra e venda de ouro, chamada Autram Aurem, que já tinha o sol inca como símbolo, acumulando R$ 6mi em poucos anos

Na época da palestra a empresa que fazia sucesso era a EBX, de petróleo, mas a fonte da fortuna para criar essa empresa vinha da Autram, uma empresa intimamente ligada ao setor no qual seu pai atuou: minérios.

Eu não tinha 10% dos estudos sobre sociedade que eu tenho hoje, mas eu sabia ligar os pontos. Eu sabia que para mim, filha de um homem trabalhador porém não empresário presidente de empresa, o caminho seria outro bem diferente de um jovem viajado cujo pai tinha inúmeros contatos. Acabei não indo à palestra.

Quando você lia em matérias como 'Hoje homem mais rico do Brasil, Eike Batista chegou a vender seguros de porta em porta" você não imaginava o detalhe: Eike fez isso na Europa com 18 anos, por um curto período, enquanto se organizava para vir ao Brasil, dado que aos 21 no Brasil ele já era milionário. Não, ele não fez como nós, vendendo coisas (no meu caso cookie, ou bolo) para fechar o mês sem ter um networking de pai-empresário para se lançar em 'empreitadas geniais' como a exploração de ouro (e talvez de pessoas também, se você pesquisar cadeia de ouro na amazônia terá uma ideia).

Mas quando você explicita esses pontos no auge da popularidade de alguém as pessoas vão te dizer: isso é inveja, se ele chegou onde chegou é porque é bom e você não conseguiu fazer igual!

Veja, claramente ele é bom VENDEDOR, o que é diferente de ser bom profissional, com ética e honestidade.

Quando todos os veículos de informação estão dizendo que o cara é genial, um empreendedor modelo, um cara batalhador, a maioria é levada a crer que ele é honesto e ético. E te dizem isso com uma linguagem que se aproxime de você, ou você acha que chamadas como 'hoje homem rico, ontem mero [insira aqui uma profissão humilde]' querem te ensinar algo diferente de 'você também pode'?

Só que os veículos não te dizem isso porque querem te incentivar e ser um motor da sua auto estima. Eles te dizem isso porque nós, como sociedade, queremos acreditar nisso. Porque seria muito triste e revoltante acordar todo dia sabendo que pessoas como Eike chegaram lá com chances inúmeras vezes maiores devido a sua origem, sua posição na sociedade, sua rede de contatos, seus favores, e como agora se sabe, às vezes com propinas e corrupção. Seria muito deprimente pensar que um empreendedor de tanto sucesso não tinha nada além de umas indicações e ótima capacidade de vender seu peixe.

Eu não estou dizendo aqui que é impossível existir um empresário que veio de baixo e galgou sua posição com muito trabalho e honestidade. Eu estou dizendo que os modelos que nos vendem fazem parecer que todos são assim, quando não são.

Marcelo Odebrecht, filho de empresário. Assumiu a empresa do avô, transformou-a num conglomerado importante através de contatos (tanto empresariais quanto políticos). Investigações já mostram o envolvimento dele com propinas.

Joao Dória, filho de publicitário e ex-deputado. Depois de um período de exílio relativamente difícil para uma família antes poderosa, recuperou o prestígio se embrenhando em agências, rádio e tvs sob indicação dos amigos do pai. Muito antes de ser prefeito de SP, foi convidado por Covas pra ser presidente da Embratur e foi acusado pelo TCU de contratar empresas sem licitação e desviar recursos. Esse episódio acabou num acordo em 93 e foi esquecido.

Todos eles vendidos como exemplos de sucesso e honestidade para a sociedade.

"Nossa, Itali, mas você não acredita que esforço pessoal traz resultado? Você vai ficar de vitimismo esperando o governo fazer por você?"

Existe um meio do caminho que a polaridade da internet ofuscou. Eu acredito em esforço pessoal, senão não teria corrido atrás de ensino, emprego, mudanças. Só que eu consigo ver os diferentes níveis de privilégio, que fazem com que diferentes níveis de esforços pessoais sejam reconhecidos e recompensados de maneiras diferentes também.

Eu não pauto minha opinião sobre as exceções como o marceneiro que virou empresário superando todas dificuldades, eu pauto na estatística de que a maioria deles não terá acesso, escolha, contatos, ensino para ser empresário. Então eu não posso deixar que todo marceneiro que não virou empresário seja taxado de invejoso ou preguiçoso quando ele notar as diferenças sociais entre ele e um Eike.

Se possível eu acredito que devem existir políticas que tentem diminuir as distâncias entre os marceneiros e um Eike, para que esforço pessoal não seja a única variável possível dos marceneiros enquanto Eikes desfrutam de um conjunto de esforço+ contatos+ educação+ escolha+ (talvez esquemas).

Movimentos como #GeraçaoDeValor são interessantes do ponto de vista psicológico no qual incentivam que não se tenha medo de tentar melhorar sua condição, seja qual for. Mas é também perigoso trabalhar com apenas uma faceta de mundo onde 'quem não conseguiu não é competente' ou 'quem reclama é porque espera sentado ajuda do governo'.

Tudo tem prós e contras e, apesar do dono da geração dizer que quer libertar as pessoas da mentalidade padronizada promovida pela sociedade, ele mesmo promove um padronização via discurso único, onde o esforço é a única variável que pode te levar ao sucesso.

Moral que tirei de tudo isso?

1. Fique esperto para os ídolos irreais de sucesso vendidos para você, nenhum empresário 'de sucesso' está lá somente com esforço próprio, como nenhum trabalhador comum está lá somente por falta de esforço próprio, pois ambos estão sujeitos à combinação de fatores além desse.

2. Reclamar de um modelo ou de um fenômeno social não se trata de vitimismo, mas sim de criticidade e sugestão de melhoria. Precisamos olhar com maturidade para críticas e abrir o diálogo para além das opiniões reducionistas.

3. E, principalmente, sucesso nos moldes que nos vendem nem sempre vai significar honestidade. A corrupção pública e privada se interconectam, só pode existir propina e desvio numa relação público-privada se existir um 'político corrupto' e um 'empresário de sucesso' para completá-la. Nesse sentido, 'fazer a limpa em Brasília' pouco adiantará enquanto continuarmos endossando caras como Eike Batista.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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