OPINIÃO

De Marília Mendonça a Dayse Paparoto: O feminismo espantalho

21/12/2016 10:21 -02 | Atualizado 21/12/2016 10:21 -02
Divulgação/Edgar Maciel/HuffPost Brasil

Depois de um 2015 considerado ano da primavera feminista no Brasil, seguimos num 2016 com muito backlash (reação contrária na tentativa de barrar o movimento social) e reforço dos estereótipos negativos do feminismo e suas pautas.

Ao mesmo tempo em que vemos mais notícias, filmes, reportagens, músicas e outras expressões culturais abordando o machismo na sociedade, presenciamos muita desinformação e distorção da essência da filosofia feminista e sua busca por igualdade de gênero.

Historicamente, a distorção e o exagero fizeram parte da campanha anti-feminista como ferramenta de desincentivo à adesão, para impedir que mais mulheres se identificassem com o movimento e barrar a ascensão das ideias progressistas que militantes feministas traziam. Nasce assim a narrativa da feminista mal-comida-mandona-encalhada-destruidora-de-familias.

Abaixo, algumas imagens anti feministas da época em que as sufragetes lutavam por direito a voto:

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Legenda 1: Origem e desenvolvimento de uma sufragete: aos 15 um bichinho fofo, aos 20 uma vagabunda/vadia, aos 40 não casou ainda! aos 50 uma sufragete

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Legenda 2: Todos trabalham, menos a mamãe... ela é uma sufragete. Eu quero votar, mas minha mulher não deixa

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Legenda 3: Isso é o que eu faria com as sufragetes (mandaria para a ilha do demônio, com carinho)

Quase cem anos depois e a propaganda anti-feminista mudou a roupagem, mas continua com a mesma essência:

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Adicionou-se à mal-comida-mandona-encalhada-destruidora-de-famílias, o estereótipo de vitimista e dramática sem motivo. Afinal, agora que podemos votar, estudar e trabalhar, do que mais poderíamos reclamar não é mesmo? As pessoas parecem não enxergar a profundidade e o impacto de uma cultura sexista no nosso dia-a-dia:

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Como na falácia do espantalho, na qual se faz um exercício contrafactual para assustar as pessoas sobre um cenário hipotético, o estereótipo das feministas serve para traçar esse cenário temeroso onde todas as mulheres, se cooptadas pelo feminismo, passariam a destruir suas famílias e subverter a ordem e as tradições de maneira negativa, impondo suas vontades e criando privilégios apenas para seu grupo.

A partir da reprodução desses estereótipos e consequentemente da falta de entendimento sobre o feminismo, não me surpreende então que a maioria das mulheres continue se mantendo distante do tão desvalorizante rótulo feminista, uma vez que se denominar como tal significa associar-se no imaginário coletivo com esses fortes estereótipos e pode trazer grandes prejuízos às suas imagens.

O que o feminismo faz é questionar a diferença de oportunidades como consequência da diferença de tratamento.

Assim, acompanhamos mulheres com uma visão progressista sobre a mulher na sociedade, isto é, com percepções reais sobre discriminações de gênero e que, mesmo assim, deliberadamente rejeitam a ideia de se considerarem feministas. Ela pode ser tanto sua colega de trabalho que diz "eu sou contra assédio no trabalho, mas feminismo aí já é demais", como pode ser uma cantora ou chef famosa que diz:

"Eu acho que o feminismo diminui a mulher muitas vezes. Para haver a igualdade, não temos que ficar pedindo nada, temos que trabalhar. Não somos mais fracas. Nunca me senti discriminada pelos homens. Pelo contrário, os que me ajudaram na minha carreira são homens."

A fala acima é de Marília Mendonça em entrevista ao G1.

Já Dayse, em entrevista à Folha, disse:

"Espero que [sua trajetória no MasterChef] não seja símbolo do feminismo, porque não sou feminista. A pessoa só é ofendida se ela se sente ofendida. O importante é ser quem você é"

Na fala de Marília Mendonça, o feminismo parece algo feito por mulheres que não trabalham, sendo que o trabalho seria a melhor ferramenta para demonstrar a capacidade da mulher na sociedade. É como se a crítica fosse excludente ao esforço, isto é, se está reclamando por igualdade não está trabalhando duro, quando na verdade é possível fazer os dois. Além disso, o feminismo nunca disse que somos fracas, pelo contrário, prega justamente que olhemos para a força e capacidade das mulheres. Para completar, o feminismo não trata da crítica individual, mas sim coletiva sobre como a sociedade vê as mulheres, e a existência de alguns homens que te apoiam não elimina o machismo do imaginário coletivo (fora que apoiar uma cantora de talento não se trata de nenhum favor, mas de interesse mútuo).

a diferença de tratamento apenas por serem mulheres está sendo percebida tanto por Marília quanto por Dayse

O interessante é que na mesma entrevista em que critica o feminismo, Marília Mendonça diz que seria menos julgada por beber se fosse homem e completa "Mas um dia vão ter que entender. A minha forma de mudar as pessoas é insistir no que eu quero". A própria Marília está provando que é possível dar seu sangue na carreira e ainda sim reconhecer que sua vida é julgada de maneira diferente exclusivamente por ser mulher.

Já na fala de Dayse, sentir-se ofendida por práticas machistas parece uma escolha de cada mulher e o feminismo tenta generalizar colocando todas como vítimas dessas práticas. Nesse ponto a afirmação dela é usada para recusar essa posição de vitimização. Isto acontece porque as pessoas no geral vêem vitimização como um demérito de suas conquistas, quando na verdade ultrapassar barreiras diferentes deveria ser considerado um mérito.

O que o feminismo faz é questionar a diferença de oportunidades como consequência da diferença de tratamento. Quando um competidor manda Dayse varrer o chão ele está subalternizando-a meramente por estar questionando a falta de atividades que o grupo impôs a ela, e essa falta de atividade vinha do fato de eles não acreditarem no trabalho dela por ela ser o que? Mulher. Se isso acontece num programa de TV não é difícil inferir que ocorra em cozinhas profissionais e impacte a carreira de chefs mulheres.

É claro que é um direito de cada mulher escolher por não se declarar feminista e não é sobre esse direito que se trata esse texto

Ao mostrar Dayse como uma vítima de machismo estamos colocando luz sob um aspecto que não era discutido, e isso não serve para tornar Dayse uma frágil mártir, mas sim para que passemos a notar que essas discriminações são prejudiciais e precisam mudar. A rixa de internet, infelizmente, nubla o ponto principal que é: perceber e questionar discriminações. Ainda no programa, Dayse diz perceber que, para um homem, ir para final da competição com uma mulher é mais ultrajante do que ir com outros homens, e ela foi até o fim provar sua capacidade.

Ou seja, a diferença de tratamento apenas por serem mulheres está sendo percebida tanto por Marília quanto por Dayse, e por muitas outras mulheres famosas, em diversos aspectos. E elas resistem acreditando que através de seus esforços serão entendidas e levadas a sério. A diferença entre essas mulheres e as que se dizem feministas reside meramente na formalização da crítica ao machismo, porque efetivamente tanto estas quanto aquelas estão operando mudanças nos meios em que atuam, no sentido de provar que as mulheres podem ser o que quiserem e devem ser respeitadas por isso, característica essa essencialmente feminista.

É claro que é um direito de cada mulher escolher por não se declarar feminista e não é sobre esse direito que se trata esse texto, mas sim sobre os incentivos perversos que estão envolvidos nessa escolha de auto denominação e a falta de informação que muitas vezes a embasa. O ônus dessa situação, é claro, pertence a quem nada contra a corrente, por isso cabe a nós, feministas, dialogarmos com outras mulheres e darmos o subsídio necessário para que elas tomem uma decisão esclarecida em relação ao termo. Mãos à obra!

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