OPINIÃO

Dezembro, confraternizações e consumo

23/12/2016 17:20 BRST | Atualizado 23/12/2016 17:20 BRST
BEN STANSALL via Getty Images
Shoppers walk down Oxford Street in the run up to Christmas in London on December 23, 2016. / AFP / BEN STANSALL (Photo credit should read BEN STANSALL/AFP/Getty Images)

Final de dezembro é aquela época do ano em que as lojas ficam cheias e as compras ganham papel protagonista. As festas de fim de ano se tornam justificativa para idas constantes aos shoppings e aos mercados. As empresas de consultoria tratam de divulgar pesquisas que apontam as expectativas de vendas, os meios de comunicação saem a campo para entrevistar lojistas e clientes - sempre munidos de longas listas e embrulhos. As reuniões religiosas e familiares se convertem em mesas de jantar mais cheias do que os estômagos presentes suportarão.

O termo "consumo" deriva do latim consumere, "comer, desgastar, desperdiçar" - de com (intensivo) mais sumere (tomar, pegar). Enquanto o termo nas diversas línguas denota sentido menos ou mais positivo ou negativo, em comum temos a evidente conclusão de que precisamos rever a maneira como os nossos hábitos afetam o planeta e os indivíduos que nele estão. Hoje, apenas 20% da população é responsável por 80% de consumo do planeta. Em perspectiva, se seguirmos no atual ritmo, precisaremos de uma Terra e meia para atender a nossa demanda global por recursos renováveis.

Consumir é um processo social e, sobretudo, um ato político. A maneira como consumimos hoje vai se refletir na atual e nas próximas gerações. Os recursos empregados no processo de produção que responde às demandas de consumo (ou que dirige as demandas de consumo!) têm implicações ambientais e econômicas, o que nos torna responsáveis por criar modelos que não atendam apenas alguns privilegiados. Não é sobre deixar de comprar. É sobre refletir antes de comprar - o que requer mudanças de mentalidade, disciplina e alto grau de empatia com os outros, inclusive com aqueles que não conhecemos e que de alguma forma estão sendo impactados pelo que compramos. É o chamado consumo consciente.

O consumidor e a cadeia produtiva

O Instituto Akatu, referência em consumo consciente no Brasil, fez uma pesquisa no início dos anos 2000 que demonstrou que o consumidor final não relaciona o que compra (ou o que consome de modo geral) ao processo de produção, o que faz com que não se sinta responsável pelos efeitos da cadeia produtiva. Apesar da pesquisa ter mais de 15 anos, o problema persiste. Não relacionamos os nossos hábitos à degradação do meio ambiente, a deploráveis condições de trabalho, ao aumento do uso de agrotóxicos e conservantes artificiais, à escravidão em pleno século XXI. Não nos perguntamos "Qual é o meu papel nisso?".

A Camilla Haddad, da ótima plataforma Cinese, publicou um artigo há dois anos em que faz um comentário bem atual. "Não nos conectamos com as pessoas que nos prestam serviços ou que fabricam nossos produtos. Por não entender o processo, naturalmente nos desconectamos das pessoas que fazem parte dele (...). Quando eu não me enxergo como parte de algo maior, quando me entendo como separado dos processos e independente das pessoas, é natural que eu não apresente nenhum tipo de ligação emocional ou empatia".

E aí, o comprar pelo comprar é apenas uma questão de ter ou não dinheiro, independente do que é moralmente correto.

Como estamos educando as crianças?

Desde cedo, é importante que as crianças entendam a diferença entre 'querer' e 'precisar', já que o público infantil é facilmente influenciado por estratégicas de marketing e o público jovem é vítima constante de pressões sociais para ter esse ou aquele produto, ou consumir esse ou aquele serviço. Inclusive, a influência da publicidade infantil é tão expressiva que o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em seu artigo 37, a definiu como abusiva. Um dos grandes riscos é expor a criança e seu frágil poder de discernimento a padrões alimentares e de consumo que são tóxicos para seu desenvolvimento.

O Instituto Alana, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, lançou uma cartilha chamada “Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade”, que explica como é possível formar crianças conscientes dos efeitos do que consomem, de forma lúdica e integral, levando em consideração os efeitos para a saúde do planeta e da própria criança. O interessante dessa cartilha é que boa parte das sugestões dadas aos pais e aos educadores também pode ser aplicado aos adultos. Por exemplo, podemos estimular as crianças a doarem um brinquedo cada vez que ganham um novo. Assim como podemos doar uma peça de roupa cada vez que compramos uma nova.

Em entrevista para o projeto Tecendo a Mudança, Helio Mattar, fundador do Instituto Akatu, disse que "se tivéssemos educado os jovens há 20 anos, hoje teríamos uma geração de adultos que consomem de modo sustentável".

E a ceia?

Um terço dos alimentos produzidos hoje no mundo anualmente é desperdiçado total ou parcialmente. Ou seja, 300 milhões de toneladas de alimentos, que poderiam alimentar 800 milhões de pessoas, vão para o lixo. Essa realidade torna as ceias familiares uma oportunidade de refletir sobre o que realmente estamos colocando nas nossas mesas e como a maneira como consumimos alimentos se reflete no impacto ambiental.

Será que precisamos realmente daquela quantidade toda de comida? Será que precisamos reproduzir a mesa do comercial de panetone se a maior parte dos familiares nem come panetone? Será que gastar o mesmo valor na feira de orgânicos do bairro não daria um melhor custo-benefício para a saúde, o meio ambiente e os pequenos produtores que tentam sobreviver sem intermediários?

Trocas em vez de compras

A projeto Tem Açúcar? recentemente publicou um gráfico apontando que grande percentual dos gastos domésticos poderiam ser evitados se "comprar" não fosse visto como primeira opção. A iniciativa, que incentiva a troca e o compartilhamento entre vizinhos, criou um aplicativo que permite que você disponibilize o que pode emprestar e peça algo de que esteja precisando, evitando, assim, que as pessoas comprem se puderem simplesmente pegar emprestado. O aplicativo Tradr também promove a troca através de um aplicativo semelhante ao Tinder. Você pode divulgar algo que queira doar (ou vender) e os interessados entram em contato. O projeto promove o conceito de "consumo colaborativo", que, nas palavras dos próprios responsáveis, "estimula o espírito de comunidade fortalece a economia local e preserva o meio ambiente".

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A economia é pautada em como o mercado usa a oferta e a demanda para gerar valor e influenciar o comportamento do consumidor. No entanto, essa lógica coloca o consumidor em um papel passivo, o que não é exatamente real. O consumo responsável põe o poder nas mãos do consumidor, e dá a ele a opção de ser ou não direcionado pelas lógicas de mercado que não representem as suas verdadeiras escolhas ou que coloquem em risco valores como solidariedade e espírito coletivo.

Dezembro é o mês das confraternizações, dos abraços e dos planos para o ano seguinte. Fica o convite para repensar se as suas festas e as suas escolhas para este mês refletem os princípios que você deseja para os próximos 365 dias.

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