OPINIÃO

Big Data e a 'marketização' dos pobres

14/08/2015 15:55 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Dimitri Otis via Getty Images
Computer in dark office, network lines radiating

Por Payal Arora*

Big Data é um termo impróprio. Enquanto o campo é relativamente jovem, o termo já foi largamente criticado, particularmente em como nós não podemos igualar a escala de dados dada a diversidade do mundo em que vivemos. De olho nisso e em nome desta diversidade, vou agora olhar para o Big Data a partir do ângulo do sul global, afinal, a maioria da população do mundo reside fora do Ocidente.

Quando nós prestamos atenção para os debates sobre vigilância, privacidade e neutralidade da rede e procuramos por modelos e práticas alternativas para sustentar a esfera digital, eles abordam principalmente preocupações ocidentais, contextos e comportamentos do usuário a partir desses domínios privilegiados. Isso, sem dúvida, oferece uma visão equivocada da internet.

Há uma década até talvez fosse legítimo argumentar que grande parte desta demografia marginalizada não estava conectada ao mundo digital e, portanto, não deveria ser incorporada ao debate contemporâneo, ficando, assim, relegada ao discurso do digital gap dos especialistas na área de estudos de desenvolvimento.

Porém, com o crescimento exponencial das tecnologias móveis (celulares especialmente), mesmo nos contextos mais desfavorecidos, acompanhado de políticas de liberalização e dos compromissos do setor público-privado de fornecer conectividade para nivelar áreas rurais do Sul global, isto já não é um argumento válido.

Por exemplo: atualmente não são apenas os habituais suspeitos - como China e Índia - que aumentam seu domínio digital, mas também regiões como a Arábia Saudita e recentemente Myanmar, onde a mudança foi de mero 1% de sua população on-line há alguns anos para um aumento previsto de quase 50% até o final deste ano. A previsão é de que até 2020 a maioria dos dados digitais geolocalizados virá de economias emergentes.

Claro que ninguém argumenta que esta será uma tarefa fácil. O fato é que a maioria dessa população continua a viver com menos de dois dólares por dia e possui distintas tradições culturais, muitas dos quais permanecem como uma incógnita para os acadêmicos mais experientes e público em geral.

C.K. Prahalad, um guru neoliberal e uma figura influente nesta área cunhou o termo "base da pirâmide" (BdP) para encapsular estas cerca de 4 bilhões de pessoas. Ele argumentou que era hora de reformular esta população como 'consumidores' em vez de 'beneficiários', afastando-se de perspectivas pós-coloniais muito estabelecidas por culpa branca e paternalismo. Vê-los como consumidores, seria uma solução ganha-ganha tanto para o mercado quanto para o Estado, onde o bem comum encontra-se lado a lado com fins lucrativos. Este ponto de vista ganhou um novo impulso com o surgimento de tecnologias Web 2.0 e com a mudança cultural na percepção de usuários como co-criadores e massas de inteligência e sabedoria coletiva. Parece que finalmente chegou o momento onde podemos vislumbrar os pobres como futuros consumidores e agentes de mudança digitais.

No entanto, vale a pena perguntar se, ao adotar a perspectiva da base da pirâmide (BdP) dos pobres como consumidoresempoderados, estaríamos na verdade marketizando os pobres. Hoje as economias da BdP estão em ascensão. Várias corporações vêem a virtude dessa perspectiva e estão experimentando vigorosamente com o "fazer o bem" e, simultaneamente, ganhando vantagem ao serem os primeiros entre esta base de futuros consumidores.

Em nome do capitalismo inclusivo, o anteriormente "inutilizável" pobre se tornou um mercado viável. Suas economias informais foram integradas por esta inclinada neoliberal. A literatura sobre marketing já comprovou que, uma vez que você muda o comportamento dos consumidores em um determinado domínio, você está bem posicionado para ganhar sua lealdade através de um leque de produtos. Isso não é diferente na adoção da internet.

A plataforma do Facebook, ao permitir o acesso livre para determinados sites a uma série de economias emergentes, se tornou "a internet" para esta substancial base de usuários. Neutralidade da rede aqui, evidentemente, ficou em segundo plano em nome do "fazer o bem" e deu ao Facebook a vantagem singular sobre a base de dados de comportamentos desta população BdP.

Por outro lado, o Big Data tem ajudado a criar plataformas de crowdsourcing interessantes, como a Ushahidi. Ela foi projetada para transformar, em tempo real, dados de diferentes canais em mapas de crise que possam ajudar nos esforços de socorro humanitário. A Ushahidi lançou um mapa de crise no prazo de quatro dias após o terremoto no Haiti em 2010, por exemplo.

Também podemos destacar o Nextdrop, um aplicativo de crowdsourcing que permite que pessoas de baixa renda sejam notificadas sobre onde obter água potável, um auxílio importante para momentos de escassez crônica de água que tem prevalecido em grande parte do Sul global.

Enquanto estes são esforços louváveis, precisamos reconhecer que estes são também modelos de negócios que se apoiam em falhas do Estado. A longevidade destes exemplos de empreendedorismo social reside na fé de que o Estado vai continuar a decepcionar seus cidadãos. Neste contexto, as zonas de marginalização tornam-se zonas de inovação.

Quando olhamos para a base da pirâmide de dados, não há dúvida de que este dilúvio de informações que tem origem no sul global terá um grande impacto sobre o futuro da internet. É por isso que precisamos questionar a forma com que tudo isto será tratado, de preferência se abstendo do risco de tratar este público como "exótico" e sim permitindo a utilização de dados pessoais para ferramentas de capacitação em economias emergentes, fortalecendo ao mesmo tempo suas instituições, criando modos alternativos de inclusão, e ir além da abordagem neoliberal padrão de marketização dos pobres.

*Payal Arora participou do programa ITS Global Felowship 2015.

Ela é a (co) autora / editora de vários livros, incluindo Dot Com Mantra: Social Computing in the Central Himalayas (Ashgate 2010), The Leisure Commons: A Spatial History of Web 2.0 (Routledge, 2014, premiado com o EUR Fellowship), Crossroads in New Media, Identity & Law (Palgrave 2015), e em breve Poor@Play: Digital life beyond the West (Harvard University Press). É especialista em culturas digitais / letramentos, ativismo em novas mídias e big data no Sul global. Ela é a fundadora e diretora executiva do Catalyst Lab, onde universidades, empresas, bem como o público dialogam através da mídia social. É membro de vários conselhos, incluindo Columbia's Earth Institute Connect to Learn, Technology, Knowledge & Society Association e The World Women Global Council em Nova Iorque. Ela foi Fellow da GE, NYU, e do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. Atualmente é Professora Associada do Departamento de Mídia e Comunicação na Universidade Erasmus de Rotterdam, Países Baixos.

Web: http://www.payalarora.com/

Web: http://www.catalyst-lab.org/


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