OPINIÃO

Uma Europa sem o Reino Unido

18/02/2016 19:32 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Gutzemberg via Getty Images
Brexit Symbol of the Referendum UK vs EU

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, encerrou recentemente, a primeira rodada de negociações no que deve desembocar no seu apoio ao plebiscito que vai definir a permanência do Reino Unido na União Europeia. Chamado de Brexit - abreviatura para "British exit" ou "saída britânica" -, o processo pode desmantelar a integração continental que representa o bloco europeu.

Embora tenha entrado no radar midiático recentemente, o desgaste da relação entre a terra de Shakspeare e o restante da União Europeia vem de anos: começa com a recusa da Grã-Bretanha em aderir à moeda comum (o Euro) e vai até a crescente antipatia de seus cidadãos em ajudar financeiramente nações em crise, como a Grécia.

Um plebiscito para resolver a questão é prometido pelo conservador Cameron desde 2013, mas ganhou força com a necessidade do primeiro-ministro em abraçar ideais propostos pelo UKIP (UK Independence Party ou Partido de Independência do Reino Unido ) para ser reconduzido ao poder no ano passado.

Entenda o sistema eleitoral e as particularidades do pleito realizado no Reino Unido em 2015. Fonte: The Guardian

Xenófobo e anti-imigração, o UKIP preocupou o líder conservador durante toda a campanha. No horizonte, a necessidade de se aliar ao que pareciam ser dezenas de membros de extrema-direita de modo a conseguir a maioria da casa. Contrariando todas as pesquisas eleitorais, o partido conseguiu apenas uma cadeira no Parlamento, mas já era tarde demais: a contagem regressiva até o Brexit tinha sido iniciada e o plebiscito era, agora, inevitável.

Mas por que sair?

Antes que se destaquem os motivos que levaram até o plebiscito, é importante ressaltar: a elite política britânica nunca foi realmente capaz de vender a ideia de integração continental. Ainda reside no imaginário nacional uma posição de liderança e supremacia dentro do bloco que não reflete mais a realidade multipolarizada da Europa.

Para uma nação que, por séculos, se acostumou a grandeza internacional, ver seu papel reduzido a apenas mais um Estado europeu representou a abdicação de um papel que seus cidadãos consideravam ser mais amplo. Ter ao seu lado na União Europeia, países com os quais compartilhou desavenças históricas - como França e Alemanha - apitando com o mesmo grau de influência nos rumos do continente foi visto por parte do eleitorado como vergonha política.

2016-02-03-1454543082-1178493-332365155c3fe62e840f6a706700b0f1.jpg

O primeiro-ministro britânico David Cameron discute com a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês, François Hollande. Foto: Yves Herman/AP

Somada a aversão nutrida pelos que se convencionou chamar na Grã-Bretanha de "eurocéticos", há motivos econômicos para a ruptura. O maior deles é a imigração. O Reino Unido nunca aderiu o Espaço Schengen - que abre as fronteiras e permite a livre circulação nos 26 países europeus signatários - temendo aumento do número de imigrantes ilegais no seu território (e se você já viajou para Londres e antes fez escala em outro país europeu, certamente sabe que precisou passar pelo Controle Imigratório duas vezes).

Fechar suas fronteiras, porém, não dá aos britânicos o direito de proibir que cidadãos europeus trabalhem dentro do país. E é aqui que reside o problema, já que o Reino Unido é o destino mais procurado por cidadãos do Leste Europeu (principalmente vindos da Bulgária e Romênia), mais pobre em relação ao resto do continente.

Regras da União Europeia determinam o pagamento de um benefício trabalhista de crédito fiscal, que aumenta a renda dos trabalhadores com salários mais baixos. Isso, obviamente custa dinheiro - muito dinheiro - para os cofres públicos. David Cameron não pode simplesmente abolir o benefício porque cidadãos britânicos expatriados também têm direito à ajuda. Somam-se a isso, a necessidade de negociar assuntos estratégicos em conjunto (enquanto o Reino Unido prefere, até pela tal supremacia que defende, fazer isso sozinho) e uma série de regulações e acordos econômicos aos quais o país está sujeito.

Consequências são imprevisíveis e potencialmente desastrosas

Ainda que sua posição intransigente muitas vezes represente um empecilho às negociações de uma União Europeia quase sempre calcada no consenso, não há dúvidas de que o Reino Unido é parte importantíssica do bloco. Para além das implicações que o Brexit poderia causar na economia britânica - calcula-se que ela poderia declinar 5% -, a saída causaria uma avalanche de problemas sociais, governamentais e mesmo ambientais.

Animação mostra o impacto do Brexit em números. Fonte: ViEUws

Empresas britânicas de tecnologia limpa só funcionam porque o Reino Unido está atrelado a leis ambientais que abrangem toda a União Europeia. Desenvolvimentista, uma Grã-Bretanha fora do bloco pode adotar regras mais flexíveis quanto à poluição. O setor agrícola - que recebe subsídios da União Europeia na ordem de bi (R$17,24 bi) - também seria fortemente impactado.

O Instituto YouGov entrevistou 1675 pessoas sobre o tema entre quarta (3) e quinta-feira (4) da semana passada. Os resultados demandam atenção: já são 45% os britânicos que pensam em votar pelo Brexit, enquanto 36% pretendem continuar com a integração. Para o doutor em Política Britânica e professor da London School of Economics (LSE), Tim Oliver, o resultado do plebiscito é imprevisível e pode despertar outras preocupações na população.

Plebiscitos muitas vezes descambam em tópicos diferentes dos originais. Há o risco deste se transformar em uma suposta aprovação ao governo de Cameron, ou, mais provavelmente, em um debate sobre a crise dos refugiados em toda a Europa.

O acadêmico avalia ainda que - embora os efeitos desastrosos do Brexit para a economia britânica sejam indiscutíveis -, uma saída de um Estado membro, algo inédito, poderia significar o início do fim da União Europeia em si.

Como ficaria a UE e as idéias de integração europeia se um país de 65 milhões de pessoas e uma das mais importantes potências ocidentais decidir, democraticamente, sair? O resto da UE se perguntaria o que deu errado. [...] Uma desintegração europeia causada pelo Brexit é o que preocupa um número crescente de pessoas. Em uma época em que a zona do Euro enfrenta problemas com a Grécia e os países rediscutem o Espaço Schengen para conter a onda de refugiados, a Alemanha pode se ver forçada a reavaliar as formas de gerir a sua posição neste continente. Seria o game over para a União Europeia como conhecemos.

Um outro velho problema de ordem nacionalista também voltará a rondar Downing Street: a independência escocesa. Em 2014, 55,3% dos escoceses escolheram permanecer sob jurisdição britânica, enterrando - ao menos pelos próximos anos - os ideais separatistas que rondam o país. Mais próxima e favorável ao projeto europeu, a Escócia poderia usar o Brexit como gatilho legal que sustentaria sua independência.

O mesmo medo alardeado há dois anos voltaria à agenda dos políticos locais, já que a onda teria capacidade de fortalecer outros territórios pró-independência como a Catalunha, o País Basco e o Flandres e fragmentar ainda mais, a cada vez mais desunida Europa.

E o resto do mundo no meio disso tudo?

O Brexit, se aprovado, vai redefinir todas as relações diplomáticas e comerciais do país. A saída "liberta" o Reino Unido das negociações econômicas em blocos promovidas pela União Europeia, deixando-os desimpedidos para manter relações comerciais com qualquer nação. Por este ponto de vista, países em desenvolvimento como a Índia e o Brasil podem acabar se beneficiando (veja o ponto 3 deste artigo do The Guardian). Mas ainda é cedo para especulações.

2016-02-04-1454549829-4176537-shadowpresident.jpg

Da sala oval, Obama fala com David Cameron. Foto: Pete Souza/Casa Branca/Divulgação

Do ponto de vista diplomático, interessa mais à ONU e aos Estados Unidos uma Europa forte e unida que uma rinha onde ganha quem fala mais alto. Não por acaso, Obama se apressou a telefonar para o colega britânico e defender um "Reino Unido forte em uma União Europeia forte", como divulgou o Departamento de Estado Norte-Americano na última quarta (3).

Ao menos por hora, Cameron diz que fará campanha contra o Brexit, com votação marcada para 2017. Para tal, negociou e anunciou um acordo com o Conselho Europeu que prevê, entre outros pontos, uma limitação dos benefícios sociais a trabalhadores europeus para trabalhadores europeus que estejam a menos de quatro anos no Reino Unido. O anúncio da medida causou revolta aos membros do Parlamento britânico, que consideraram o texto permissivo demais.

Cameron pediu unidade ao Parlamento, mas deve voltar a tratar do assunto no próximo dia 18, quando o Conselho Europeu se reúne em Bruxelas. É só o início de uma disputa que deve movimentar as rodas diplomáticas ao longo de todo o ano.

***

O professor Tim Oliver concedeu uma longa entrevista analisando o Brexit e as consequências para a União Europeia. Você pode conferí-la na íntegra aqui. Você também pode ler o artigo escrito por ele sobre o assunto para o Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (em inglês).

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: