OPINIÃO

A política de Theresa May, a nova 'Dama de Ferro' do Reino Unido

19/07/2016 17:00 -03 | Atualizado 19/07/2016 17:00 -03
Neil Hall / Reuters
Theresa May speaks to reporters after being confirmed as the leader of the Conservative Party and Britain's next Prime Minister outside the Houses of Parliament in Westminster, central London, July 11, 2016. REUTERS/Neil Hall

O Reino Unido tem desde a última quarta-feira (12), a primeira mulher como primeira-ministra em 25 anos, quando Margareth Thatcher deixou o poder. Trata-se de Theresa May, conservadora nascida no sul da Inglaterra, neta de trabalhadoras domésticas e secretária do Interior do primeiro-ministro demissionário, David Cameron.

Vinda de família humilde e graduada em um curso pouco comum para quem segue a vida política (se formou em Geografia na Universidade de Oxford), May começou a carreira no Banco da Inglaterra, onde trabalhou por seis anos. Foi vereadora, presidente da educação, parlamentar e a primeira mulher a ocupar o cargo de secretária-geral do Partido Conservador.

Casada há 36 anos com um ex-colega da faculdade, decidiu não ter filhos. Agora, se prepara para assumir o comando de uma das principais potências do mundo em meio à negociação mais difícil da história do Reino Unido em 40 anos: o Brexit.

Força eleitoral inesperada

Como você deve saber, o Reino Unido é governado em um sistema no qual o primeiro-ministro é eleito pelo partido (ou coalizão entre as legendas, caso não haja maioria) com mais cadeiras no Parlamento. Dá-se a ele o voto de confiança, que pode ser retirado a qualquer momento.

Foi o que aconteceu com David Cameron: ao perder a votação que selou a saída do país da União Europeia, o político perdeu apoio e viu sua trajetória política ir pelo ralo. O mandato, válido até 2020, continua com seus aliados, mas passa agora para as mãos de May.

Cameron renuncia ao cargo logo após reconhecer o resultado do Brexit. Fonte: BBC

A eleição da conservadora, porém, não era esperada quando o resultado do referendo que selou o destino do Reino Unido foi anunciado. À época, o favorito ao posto de primeiro-ministro era o ex-prefeito de Londres Boris Johnson, um dos principais líderes pelo Brexit.

Mas uma traição mudou o destino do então pré-candidato: indeciso pelo referendo, Johnson foi convencido pelo ministro da Justiça, Michael Gove a assumir o posto. Apontado como vencedor do referendo, Johnson já tinha convocado uma coletiva de imprensa para anunciar sua candidatura, quando seu gabinete recebeu uma ligação de Gove não para apoiá-lo, mas avisar que também seria candidato. Vários outros aliados debandaram para o lado de Gove e restou a Johnson renunciar da corrida.

Era tarde. No primeiro turno, May atropelou os concorrentes, angariando 165 dos 330 parlamentares Conservadores, mais de três vezes o número de votos de Gove (48). May também venceu o segundo turno das votações, deixando para trás sua concorrente feminina: Andrea Leadsom, que abandonou a disputa logo depois. Leadsom tinha sido muito criticada dias antes por dizer que seria melhor primeira-ministra por ter filhos que vão herdar "o que acontecer depois".

Com apoio expressivo, May venceu e venceu com força. A posse foi adiantada de setembro para julho e ela agora enfrentará o desafio que a negociação com a União Europeia deve impor a seu país.

Guinada à direita

Considerada uma política ponderada, May advogou pela permanência na União Europeia, embora tenha sido marca pela disputa com o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos no caso Abu Qatada. Qatada foi preso em Londres em 2002, acusado de propaganda radical. Depois de uma longa batalha no Tribunal, o clérigo foi deportado para a Jordânia, onde foi julgado e absolvido em 2014. Na época, a agora primeira-ministra reclamou da falta de soberania representada pela UE, que impedia o Reino Unido de aplicar suas próprias leis.

Esperava-se, portanto, uma política conciliadora porém firme no propósito de defender os interesses nacionais. Mas a britânica parece ter tomado outro caminho, ao exonerar nove secretários de governo de Cameron e nomear um dos gabinetes mais alinhados à direita da história recente do país.

O maior choque: o fanfarrão Boris Johnson, que ofendeu, literalmente, toda a Europa é agora o Ministro das Relações Exteriores. O líder de maior afronta ao bloco vai se sentar ao lado de seus pares em Bruxelas todos os meses pelos próximos dois anos e esfregar em suas caras, o fracasso do projeto de unidade europeu. Europa afora, Johnson foi recebido no cargo com adjetivos pouco gentis: "mentiroso", "enganador", "irresponsável" foram os termos ouvidos na Alemanha e na França.

Britânicos demonstram surpresa com a nomeação de Johnson.

As surpresas, porém, não ficaram restritas às Relações Exteriores. May escolheu David Davis como o "secretário do Brexit", encarregado de dar início às conversas com a UE, Philip Hammond para as Finanças, político conservador e pouco comprometido com as medidas econômicas da era Cameron, e a própria ex-rival Andrea Leadsom na Agricultura, uma das áreas mais afetadas pelo referendo já que semantinha com subsídios da UE.

2016-07-16-1468685947-1896953-Capturar.PNG Da esquerda para a direita, David Davis, Philip Hammond e Andrea Leadsom.

Também estão na lista Justine Greening, Ministra da Educação e a primeira lésbica a ocupar um ministério e Elizabeth Truss, criadora do Great British Food Unit.

O caminho até o Brexit

A essa altura, reverter o referendo pela saída da União Europeia parece impossível. Embora o resultado não fosse vinculante (ou seja, o governo não seria, em teoria, obrigado a seguir as urnas), May dá todos os indicativos de que não pretende rever o pleito.

Assim que assumiu o posto, ela telefonou para a chanceler alemã, Angela Merkel e para o presidente francês, François Hollande e pediu mais tempo para dar início às negociações e, torno do Brexit. O resto dos países pede uma saída rápida, mas, na liderança moral e econômica da UE, Merkel parece disposta a conceder alguns meses à colega desde que Londres decida que tipo de modelo de parceria com a UE o Reino Unido espera manter.

Com a equipe econômica anunciada, a Europa deve assistir um Reino Unido com plano econômico mais contracionista e pragmático. As consequências - em ambos os lados - serão sentidas ao longo de décadas.

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