OPINIÃO

O plano da China para combater o maior índice de poluição do mundo

19/02/2016 14:50 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
GREG BAKER via Getty Images
A woman wears a face mask on a heavily polluted day in Beijing on December 26, 2015. Thick smog continued a day after Beijing residents woke up to a white Christmas on December 25 with the sky obscured by thick toxic smog rather than snow. AFP PHOTO / GREG BAKER / AFP / GREG BAKER (Photo credit should read GREG BAKER/AFP/Getty Images)

"Ei pessoal, vocês já viram o que está acontecendo na China? É algo grande. Algo grande padrão China".

A fala abre um vídeo produzido pela Agência de Notícias Xinhua e tenta apresentar ao mundo ocidental, o 13º Plano Quinquenal Chinês. Criado em 1953, o documento fazia parte dos esforços de Mao Tsé-Tung para industrializar o país. Desde então, é reformulado pelo Partido Comunista Chinês com novas diretrizes para a governança nacional para os cinco anos subsequentes.

O atual, apresentado em novembro e agendado para vigorar entre março deste ano e ser concluído até 2020, traz objetivos importantes na consolidação da China enquanto potência global, mas especialistas são quase unânimes ao constatar que sua implementação representará um desafio para uma nação que ainda sofre para alinhar os interesses de Pequim com o regionalismo imperante nas suas 23 províncias. E no centro do debate está a sustentabilidade.

Ao falar com a imprensa, o diretor da Comissão de Desenvolvimento e Reforma da China, Xu Shaoshi, destacou o crescimento econômico e a sustentabilidade como o coração do Plano nos próximos cinco anos. Vista durante décadas como mercado exportador - seja pela sua moeda desvalorizada, seja pela mão de obra barata e abundante -, a China quer caminhar na criação de força de trabalho qualificada e no desenvolvimento da chamada "tecnologia verde", amiga do meio-ambiente. Parecem pontos contraditórios para um país apontado como principal responsável pelo fracasso da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2009 (COP15), mas suas motivações são mais profundas.

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Gráfico mostra tamanho dos países proporcional à emissão de CO2. Fonte.

Maior emissor mundial de dióxido de carbono na atmosfera, a China segue também na liderança de maior poluidora do ar, graças à sua matriz energética composta em 80% por queima de carvão mineral. Em 2014, Pequim foi considerada - de acordo com o ranking da Academia de Ciências Sociais de Xangai - como uma cidade "imprópria para a vida". A escolha foi motivada, principalmente, pela alta quantidade de poluentes que frequentemente alcançam índices sete ou oito vezes o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Tanta poluição acaba se tornando um impeditivo na atração de profissionais estrangeiros qualificados, essenciais ao desenvolvimento que o Partido espera para a nação. A Câmara Americana de Comércio realiza anualmente, um questionário para avaliar a percepção dos empresários sobre o gigante asiático. Entre as perguntas, uma indagação clara: você teve dificuldade em recrutar pessoas para trabalhar na China devido à qualidade do ar no país? Em 2015, 53% das 477 organizações membro disseram que sim. O percentual indica aumento de 5% em relação ao auferido em 2014 - quando a resposta de 48% dos membros foi positiva - e denota uma escalada na percepção do profissional estrangeiro: eram 34% em 2013 e 21% em 2012.

O problema também afeta o turismo, setor responsável por 9% de todo o PIB. Quarto país mais visitado do mundo - com cerca de 55 milhões de turistas anuais - a China vem assistindo ao número de visitantes cair ano após ano na sua capital, Pequim, o que representa milhões de dólares a menos circulando.

Consumo interno e política fragmentada ainda são impeditivos

O recente desaquecimento da economia chinesa é notícia em todos os portais, diariamente. Vista como crise, a queda faz parte de um plano cuidadoso do Partido para reestruturar o PIB nacional baseando-se em consumo interno e não mais em exportação.

Ao mesmo tempo em que estabelece crescimento de porte médio/alto (algo na casa dos 6,5%/ano), o Plano Quinquenal prevê aplicação mais ostensiva das leis de poluição, como o Sistema de Monitoramento On-line que exige das fábricas, relatórios de hora em hora com dados quantitativos de emissão de gases poluentes. Um grande problema: uma das indústrias mais prósperas do país é a automobilística, que não dá sinais de arrefecimento.

Reportagem da Forbes do dia 06/01 mostrou que 41% dos chineses entrevistados pretende gastar mil (aproximadamente R$130 mil) ou mais na compra de um carro novo. Os dados são da consultoria Kantar Media, que também coloca os resultados em perspectiva: a resposta é a mesma para 14% na Alemanha e 10% no Reino Unido. Além de agravar as já deterioradas condições de qualidade do ar, o aumento vertiginoso da frota chinesa causas cenas como as do vídeo abaixo:

A boa notícia: o país já tem a maior frota com carros movidos a energia elétrica do mundo. A má: 3/4 dela ainda vêm das usinas de carvão mencionadas no início deste texto.

Por que incentivar, então, o aumento no número de carros nas ruas em detrimento do uso ostensivo de bicicletas que sempre foram o símbolo do país? O reitor da Faculdade de Ciências Ambientais e Engenharia da Universidade de Pequim, Tong Zhu, é contrário à ideia. Um dos principais estudiosos do setor e consultor do Partido, Zhu reproduz o discurso da Administração para discutir o problema.

"Sei que a tendência no mundo é substituir o carro pela bicicleta, mas somos entusiastas do automóvel. Se você chegasse aqui nos anos 80, provavelmente veria avenidas lotadas de bicicletas, mas agora temos dinheiro o suficiente para produzir e comprar carros", diz o pesquisador. "A longo prazo, a China não trabalha com a hipótese de impedir as pessoas de terem seus carros, mas de desenvolver tecnologias que permitam veículos amigáveis ao meio-ambiente. Também estamos trabalhando em alternativas para os congestionamentos e, nesse campo, avançamos muito. Pequim celebrou no ano passado, 1000 quilômetros de metrô, o que é um feito considerável para os padrões mundiais", completa.

O professor também menciona as metas agressivas de redução da poluição, instituídas em todo o território nacional. É pena que decisões tomadas em Pequim encontrem obstáculos ao saírem da alta esfera do partido até as províncias.

As áreas centrais do país são consideravelmente mais responsáveis pela emissão de CO2, mas estão menos sujeitas a regulação que as grandes metrópoles costeiras. Não bastasse, as regiões ricas "exportam" poluição comprando produtos industrializados de outras províncias: o que acaba acarretando os mesmos problemas de uma fábrica em solo próprio. Na tentativa de reverter o quadro, o Partido já chegou a oferecer uma recompensa no valor de ¥5 bi (o equivalente a R$3,11 bi) para as províncias que cumprissem suas metas ambientais, mas a medida não surtiu grande efeito.

Enquanto se digladia à procura de uma solução e se prepara para um novo momento de sua expansão, sua população morre e a sujeira se alastra. Pelos próximos cinco anos, o mundo vai ficar à espera de uma solução.

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