OPINIÃO

Hillary Clinton não é tão aliada da causa gay como você imagina

11/04/2016 16:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ASSOCIATED PRESS
Democratic presidential hopeful Hillary Clinton talks to reporters at the Jackson Diner in the Queens borough of New York, Monday, April 11, 2016. (AP Photo/Seth Wenig)

Não muito diferente do Brasil, os Estados Unidos também vive seu momento de acirramento político.

De um lado, um candidato que defende publicamente a legalização da tortura aos acusados de terrorismo (e a matar suas famílias), que evitou condenar o apoio do líder da Ku Klux Klan (grupo supremacista branco que assassinou milhares de negros entre os anos 40 e 60) à sua candidatura, que quer dividir a América do Norte com um muro e que planeja punir mulheres que praticarem aborto.

Do outro, temos a ex-Secretária de Estado, Hillary Clinton que, goste-se ou não, tem a maior probabilidade de vencer as primárias Democratas e a própria Eleição Americana.

Com seu discurso progressista, Hillary tem levado vantagem sobre seu rival partidário pela nomeação Democrata, Bernie Sanders. É a favorita entre os latinos, negros e gays. A pré-candidata tem dedicado especial atenção a este último grupo.

Em junho do ano passado, na eminência da aprovação do casamento igualitário em todo o território nacional pela Suprema Corte Americana, sua equipe divulgou o vídeo "Equal" (a tradução está logo abaixo).

A história americana é uma história de trabalho duro, de um progresso ganho com dificuldade e isso continua hoje. Novos capítulos estão sendo escritos por homens e mulheres que acreditam que todos nós, não apenas alguns mas todos, devemos ter a oportunidade de vivenciar o nosso potencial concedido por Deus. Este progresso não foi facilmente obtido. As pessoas lutaram e se organizaram e fizeram campanha em praças públicas e em espaços privados para mudar não apenas as leis, mas corações e mentes. E graças ao trabalho de gerações, por milhões de indivíduos, barreiras que antes impediram as pessoas de desfrutarem a plenitude da liberdade, a plenitude da experiência da dignidiade e a plenitude das vantagens da humanidade, caíram. Alguns já sugeriram que direitos dos gays e direitos humanos são coisas separadas e distintas. Mas na verdade, eles são um e o mesmo. Ser LGBT não faz de você menos humano e é por isso que direito dos gays são direitos humanos e direitos humanos são direitos dos gays.

Nem uma semana depois, um post da página "Humans of New York" trazia um menino chorando, preocupado com o futuro por ser gay. Hillary logo comentou na foto dizendo: "Seu futuro vai ser incrível. Você vai se surpreender com o que você é capaz e com as incríveis coisas que você fará. (Você) encontrará pessoas que amam e acreditam em você - serão muitos deles". O comentário recebeu quase 80 mil likes em menos de três dias.

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Fonte: Reprodução Facebook/Humans of New York

É o suficiente para classificá-la como uma candidata militante pelos direitos dos LGBT, certo?

Muita gente acha que não.

Apesar de ser uma fiel defensora de minorias agora, Hillary, mesmo Democrata, já apresentou ideias bem mais conservadoras quando o assunto era a comunidade gay americana. Por causa disso, muita gente a acusa de querer capitalizar sobre uma causa que nunca foi dela nem do marido, o ex-presidente Bill Clinton.

A Hillary Conservadora e o Casamento Igualitário

Embora atualmente endorsada pela ONG "The Human Rights Campaign" (a maior organização civil pelo direitos dos LGBT em todo o mundo), Hillary já teve opiniões bastante conservadoras sobre a questão.

Um exemplo?

A então Senadora foi vaiada em 2002, ao ser questionada pelo apresentador Chris Matthews se ela endossava o reconhecimento do casamento gay no estado de Nova Iorque e responder com um simples "não".

Fonte: "Hardball With Chris Matthews"/MSNBC

Mas Hillary foi além do seu simples não. Em um discurso realizado em 2004, ela disse acreditar que "o casamento não é apenas uma obrigação, mas um laço sagrado entre um homem e uma mulher". "Eu me ofendo que alguém poderia sugerir que aqueles de nós que nos preocupamos com a alteração da Constituição são menos comprometidos com a santidade do casamento, ou para o princípio fundamental que existe entre um homem e uma mulher ", afirmou.

Fonte: C-SPAN 2

Completando a tríade de vídeos controversos, Hillary participou em 2007 do programa da apresentadora Ellen Degeneres e mesmo diante de uma das maiores personalidades do país e uma das mais reconhecidas ativistas pelo casamento igualitário, a Democrata se recusou a apoiar a causa.

Na entrevista, Ellen questiona: "é importante para mim ser capaz de me comprometer com alguém que eu amo e ter os mesmos benefícios, os mesmos direitos, se algo acontece comigo, Portia (esposa de Ellen) vai tomar conta das coisas, pessoas gays se preocupam com isso. Você é a favor de uniões civis, mas não casamento gay. Por que?". Depois de argumentar em favor dos direitos civis dos gays e pelo fim da Lei "Don't Ask, Don't Tell" (que proibia militares de revelarem serem homossexuais sob pena de expulsão das Forças Armadas), Clinton diz que tem a mesma posição sobre o assunto por anos e que a questão "casamento" deveria ser decidida pelos Estados "como sempre foi".

Fonte: The Ellen Degeneres Show

O próprio Huffington Post americano trouxe, em setembro do ano passado, uma história curiosa para uma pré-candidata tão comprometida na defesa dos LGBT. De acordo com cópias de e-mais obtidos pela repórter Jennifer Bendery, a então Secretária de Estado Hillary ficou furiosa quando o Departamento de Estado Norte-Americano decidiu substituir os termos "pai" e "mãe" dos passaportes para termos mais neutros.

"Quem tomou a decisão de que o Estado não vai usar os termos 'pai e mãe' e as substituir por 'pai 1 e 2'?", ela questiona em e-mail enviado à sua equipe no dia 8 de Janeiro de 2011. "Eu posso tolerar que famílias não-tradicionais escolham outra denominação, contanto que mantenhamos a presunção de que deve ser mãe e pai". Coincidência ou não, a mudança jamais chegou a ser implantada.

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Cópia do e-mail enviado por Hillary Clinton enquanto Secretária de Estado.

Em entrevista ao The Atlantic, o editor da prestigiada revista política "The New Republic", Andrew Sulivan, acrescentou mais lenha à fogueira. Para o jornalista, assumidamente homossexual e portador do vírus HIV, o posicionamento de Hillary não se tratou da defesa de princípios partidários: Hillary poderia (e deveria) ter feito mais.

Ela era a segunda pessoa mais poderosa em uma administração que representou uma era crítica para os direitos dos homossexuais. E, naquela época, seu marido (o ex-presidente americano, Bill Clinton) assinou uma lei que baniu viajantes portadores de HIV (...) transformando-a na única condição médica que impediria um turista de chegar aos Estados Unidos. Clinton também deixou soldados gays em apuros, duplicando a taxa de exoneração das Forças Armadas, e assinou o DOMA, a mais reconhecida legislação anti-gay na história americana.

DOMA é a abreviatura para Defense of Marriage Act (ou Lei de Defesa do Matrimônio), que restringia a definição de casamento somente à união entre um homem e uma mulher até ser considerada inconstitucional no ano passado. O texto trazia dois efeitos práticos: cada Estado era livre para poder legislar sobre o casamento gay e o Governo Federal não poderia validá-lo, mesmo que a Constituição Estadual o fizesse.

Por que agora?

A esta altura, o leitor já se pergunta: se é tão contra os direitos LGBT (e inclusive defendeu os mesmos pontos de vista em 2008, quando concorreu pela vaga Democrata contra o então pré-candidato, Barack Obama), por que Hilary resolveu fazê-lo agora? A resposta pode ser mais complicada do que um simples "jogo político".

É evidente que Bernie Sanders, o vice-colocado pela nomeação Democrata à Presidência, tem um histórico mais robusto de suporte aos LGBT. Em 1972 e em 1976, quando concorreu ao Governo do Estado de Vermount, Sanders defendeu abertamente o fim de todas as leis discriminatórias baseadas em sexo ou orientação sexual. Como prefeito de Burlington, apoiou a maior Parada do Orgulho Gay da história da cidade. Já no Senado, votou contra o "Don't Ask, Don't Tell" em 1994 e contra o DOMA em 1996. Embora nunca tenha oficialmente defendido o casamento gay, também não se opôs a ele.

Se quiser conquistar a simpatia do establishment Democrata, Hillary precisará fazer uma campanha calcada no consenso e na união, não em divisão ideológica. À essa altura, o próprio Obama já advogou pessoalmente contra a "Don't Ask, Don't Tell" (revogada em 2010) e declarou ser a favor do casamento igualitário. Talvez por isso Hillary só tenha demonstrado apoio irrestrito à causa em 2013, quando já alardeava sua intenção de concorrer à Casa Branca.

Também entre os Republicanos, começa a crescer entre os mais jovens, aprovação à causa. De acordo com dados do Pew Research Center, 61% dos Republicanos com idades entre 18 a 29 anos são a favor do casamento igualitário. É a mesma faixa de idade que impulsiona a campanha de Bernie Sanders, com a qual Hillary tem grande dificuldade de dialogar. É razoável dizer que, se encontra resistência mesmo entre os Democratas mais novos, ela precisará de todos os esforços para conquistar os jovens que se identificam com os Republicanos.

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Fonte: Pew Research Center/Statista

Porém, outro aspecto crucial é a questão das doações de campanha. Professora da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e doutora em Ciências Políticas, Laura Merrifield Albright é uma das mais destacadas pesquisadoras no que tange à participação de tópicos como raça e gênero na arrecadação de campanhas americanas. Para ela, os LGBTs não são o foco da plataforma de Hillary, mas têm um grande função no financiamento de sua caminhada até à Presidência.

Do ponto de vista do financiamento de campanha, é imperativo para um candidato do Partido Democrata (seja Clinton ou Sanders) apelar à comunidade LGBT. Eles não só doam ao Partido Democrata como também votam por ele, formando um eleitorado importante que garante o reconhecimento das campanhas. Não acredito que ele (o apoio tardio) foi motivado por dinheiro, mas o financiamento é sempre fundamental nestas corridas por isso certamente seria útil.

Estou certa de que os candidatos estão cientes do dinheiro LGBT. A comunidade também possui um papel-chave em encontrar doadores para as campanhas dos candidatos que os defendem. Gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, etc. são parte substancial da base eleitoral do Partido Democrata e com a percepção do rendimento disponível adicional que eles representam, trata-se de um eleitorado importante que não pode ser ignorado.

A professora também acredita que temas relacionados à gênero são tratados com cuidado pelos estrategistas de campanha da Democrata para repelir posicionamentos sexistas e evitar a associação de Hillary a uma personalidade fraca "por ser mulher".

As questões de gênero desempenham um papel interessante na política americana, mas particularmente quando se considera a Presidência, os atributos do cargo (forte e poderoso, por exemplo) não são imediatamente associados às mulheres. É por isso que a campanha tem tentado mostrar Hillary Clinton como a melhor escolha para o cargo, independentemente do seu sexo.

Contenção de danos e perspectiva para o futuro

É difícil prever os resultados de uma Eleição fragmentada em um país tão polarizado como os Estados Unidos. Mais difícil ainda fazê-lo em uma época em que uma figura midiática com posições controversas como Donald Trump, arrebata as primárias republicanas e se firma matematicamente como o candidato do Partido. Uma das vantagens que busca transparecer ante Trump é a consistência do seu discurso político e, para isso, Hillary tem se esforçado em "corrigir" posicionamentos pregressos.

Em entrevista à apresentadora Terry Gross na National Public Radio - rádio pública americana que distribui seu conteúdo para mais de 800 emissoras em todo o território nacional -, a democrata assumiu uma postura extremamente defensiva ao ser questionada sobre seu histórico na questão LGBT. Justificou defendendo que "políticos também são seres humanos e que podem mudar de opinião", que na época em que o DOMA foi assinado havia ainda muito preconceito e que "pelo menos a lei serviu para permitir aos estados legislarem sobre o casamento".

Mais e mais pressionada por Gross, Hillary foi mais efusiva nos argumentos: "eu tenho que dizer, te acho muito persistente, mas acredito que você está manipulando minhas palavras e brincando com um assunto tão importante. Eu não acho que você está tentando esclarecer, acho que está tentando dizer que eu costumava ser contra, agora sou a favor e o sou por razões políticas, o que é simplesmente falso. Eu tenho um histórico forte, um comprometimento sólido com esta questão e estou orgulhosa do que eu fiz e do progresso que estamos fazendo".

Seja pessoalmente contra ou não à paridade de direitos e de casamento aos LGBT, seja motivada ou não por razões políticas, o fato é que o apoio de Hillary é agora, irreversível. Tanto é assim que a candidata colocou nas suas propostas, 10 promessas direcionadas aos LGBT caso seja eleita.

1) Acabar com a injustiça contra os LGBT americanos "para sempre";

2) Advogar pela criação de uma Lei Nacional de Igualdade;

3) Usar fundos federais para ajudar pessoas vivendo com doenças crônicas como o HIV;

4) Rever o entendimento do Pentágono que proíbe que transgêneros sirvam às Forças Armadas;

5) Cortar o financimento federal de agências de adoção que discriminem pais gays;

6) Se posicionar contra políticas escolares "anti-gays";

7) Proteger a vida, a liberdade e a busca da felicidade para transexuais, especialmente as mulheres trans negras;

8) Defender os direitos LGBT no exterior, inclusive resgatando ativistas LGBT presos;

9) Acabar com a discriminação anti-LGBT totalmente "na política doméstica e no exterior";

10) Promover o status da dispensa dos militares expulsos do Exército sob a lei "Don't Ask, Don't Tell".

Ela conseguirá implentar esta agenda caso eleita? Andrew Sulivan acredita que sim. "Enquanto o casamento gay prejudicou os Democratas, eles eram contra ele. Agora que pode prejudicar os Republicanos, eles apoiam. Então Hillary apoia agora", afirma, completando acreditar que "ela é um ser humano e provavelmente reviu seu posicionamento".

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A entrevista completa com a professora Laura Albright está disponível neste link. Você também pode acompanhar as análises da especialista em seu blog.

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