OPINIÃO

Manifesto Cluetrain: após 16 anos, famosa declaração sobre internet é atualizada

21/01/2015 19:00 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02
Jenn and Tony Bot/Flickr
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por Paulo Rená, diretor do IBIDEM

Se você tem menos de 20 anos, provavelmente nunca ouviu falar do Manifesto Cluetrain. Traduzido como "O Trem das Evidências", trata-se de uma lista de 95 Teses (que gerou um livro) escrita por Rick Levine, Christopher Locke, Doc Searls e David Weinberge em 1999 e desde então cultuada em todo o mundo como uma espécie de declaração de princípios sobre a internet.

Embora o objetivo assumido fosse falar para os gestores de negócios sobre como a internet revolucionou especificamente a realidade do mercado e das empresas, o Manifesto Cluetrain trouxe entre suas teses frases de efeito mais amplas, tais como "A Internet está permitindo conversações entre seres humanos que simplesmente não eram possíveis na era da mídia de massa" e "Hyperlinks subvertem hierarquia". Esses aforismos justificaram muita admiração, mas também algumas críticas ao longo dos últimos 16 anos, principalmente por algumas previsões não concretizadas e afirmações excessivamente otimistas, tais como "Nós somos imunes a publicidade. Esqueça.".

Agora, no início de 2015, dois dos quatro autores resolveram que era o momento de apresentar uma versão atualizada. Doc Searls e David Weinberge organizaram 121 "Novas Dicas" sobre o que seria o funcionamento natural da Internet.

Mantendo o tom messiânico do texto original (claramente emprestado das 95 Teses de Martinho Lutero), dessa vez a linguagem meio religiosa vem também mesclada com referências a Simpsons e a essa cultura vibrante que se populariza de forma difusa no meio digital. Além disso, o alvo da mensagem está mais amplo. Sem esquecer do mercado, o manifesto 2.0 fala também de vigilância, privacidade, preconceito, egolatria, protocolos tecnológicos, apps, natureza da Internet e natureza humana.

Por exemplo, uma dúzia de conselhos são apresentados sob o título "Um bolso cheio de homilias" (homilia é aquela parte da missa em que o Padre da Igreja Católica dá um sermão para a paróquia):

104. Nós iríamos dizer para vocês como consertar a internet em quatro passos fáceis, mas o único que nós conseguimos lembrar é o último: lucre. Então, em vez disso, aqui vão alguns pensamentos aleatórios...

105. Nós deveríamos apoiar os artistas e criadores que nos trazem prazer ou amenizam nossos fardos.

106. Nós deveríamos ter a coragem de pedir pela ajuda que precisarmos.

107. Nós temos uma cultura que padroniza o compartilhamento e leis que padronizam o direito autoral. O direito autoral tem o seu lugar, mas quando em dúvida, torne acessível.

108. No contexto errado, todo mundo é um babaca. (Nós também. Mas você já sabia disso.) Então se você está convidando pessoas para nadar, defina as regras. Todos os trolls, pra fora da piscina!

109. Se as conversas estiverem indo mal, a culpa é sua.

110. Onde quer quer a conversa esteja acontecendo, ninguém lhe deve uma resposta, não importa quão razoável seja seu argumento ou quão vencedor seja seu sorriso.

111. Apoie os negócios que realmente "entendem" a Web. Você irá reconhecê-los não apenas porque eles soam como nós, mas porque eles estão do seu lado.

112. Claro, apps ofereçem uma experiência bacana. Mas a Web é sobre links que constantemente se estendem, conectando-nos sem fim. Para vidas e ideias, o completamento é a morte. Escolha a vida.

113. Raiva é uma habilitação para ser estúpido. As ruas da Internet já estão lotadas com motoristas habilitados.

114. Viva os valores que você quer que a Internet promova.

115. Se você esteve falando por um tempo, cale a boca. (Nós vamos em breve.)

Além do bom humor característico da comunicação online, "As Novas Dicas" trazem umas boas reflexões sobre o ecossistema atual da tecnologia, o que poderíamos cobrar do Estado e do Mercado, além de um bom apanhado das coisas incríveis que o mundo do WWW vêm nos proporcionando nas últimas décadas.

Uma vez que o novo manifesto foi publicado diretamente com a licença Creative Commons 0 (equivalente ao domínio público) e disponibilizado num repositório GItHub, várias pessoas foram além e fizeram suas próprias versões: tem uma dica por vez na sequência ou aleatoriamente, tem formato Medium e tem ainda o texto cru no Webmention (ferramenta para citações online) ou no Scribd (dá pra baixar .docx e .pdf).

Eu mesmo me dei ao trabalho de traduzir tudo pro português (aproveitando a deixa e remixando uma coisinha aqui, outra acolá). Também já existem traduções para catalão, alemão, duas para o italiano e mais uma português.

Bom, se você é uma "Pessoa da Internet", recomendo guardar um pouco do seu tempo e ler com calma todas as novas dicas desses caras, mesmo se você não conhecia o primeiro manifesto. Não são a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo o mais, mas expressam de um jeito bem interessante, leve e divertido o desejo por um mundo melhor, com uma Rede livre de tudo que ameaça as suas maravilhas. Citando a dica 120, "Vida longa à internet aberta".