OPINIÃO

Cordialidade proibitiva

27/01/2014 21:45 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

A tal cordialidade brasileira diz que somos um povo que privilegia o coração. Ou seja, nos apresentamos afetivos, simpáticos e festivos para o mundo quando, no fundo, estamos assumindo nossa burrice.

Sei que é triste aceitar, mas quem não privilegia a razão é burro.

Além da típica burrice de emitir opiniões antes de pensar, estamos inovando agora na derivação que é a tentativa de proibição antecipada. Soma-se o bom-mocismo do politicamente correto a uma impetuosa sede de justiça em impedir as coisas de acontecer.

Completamente maniqueísta, esse tipo de burrice está virando hit (ou meme, pra ser mais atual). A esgarçada alma brasileira está se contaminando pela desenfreada intenção de proibir o outro sob qualquer pretexto.

Se uma pessoa pública tem sua história contada num livro, não se espera mais que ela aguarde a publicação para, se for o caso, contestar e destruir a credibilidade do autor. Simplesmente se usa da cordialidade proibitiva, impedindo a publicação de uma biografia, como se dissesse assim: "Meu coração está pressentindo que você não dirá verdades sobre mim, então vou ser obrigado a te impedir de falar".

Um jovem, menor de idade, comete um crime hediondo e rapidamente se despejam discursos inflamados querendo diminuir a maioridade penal. Para cordialidade proibitiva é mais fácil encerrar a infância da maioria mais cedo do que buscar soluções para a criminalidade de uma parcela dos jovens.

Os rolezinhos vieram e, pior que chuvas de verão, trouxeram enxurradas de análises prematuras sociologicamente toscas e, claro, abriram espaço para os proibidores de plantão atuarem sem pensar, sob o comando de seu doce coração. Seja com liminares, proibindo jovens de promover sua algazarra, seja com os espertalhões politiqueiros querendo direcionar a ação dos jovens para outro sentido que não o original. Querer impor a tal boa intenção de criar um "rolezinho do bem", tentando dar sentido diferente ao que antes era apenas uma farra, não deixa de ser uma proibição ao direito de zoar por zoar.

Aí vêm aos donos de shopping e uma horda de conservadores com a cordialidade proibitiva, desencavando leis e teorias que justifiquem sua brutalidade. Garantidos pela justiça, cercos policiais e de suas milícias privadas, sob o pretexto de prevenir incidentes, querem impedir a vida de acontecer.

Todos os envolvidos ou querem proibir ou se aproveitar dos fatos. Entendê-los jamais. E têm na boca o gosto pela censura prévia.

Nos casos mais banais a cordialidade proibitiva salta e ganha vida. Uma pessoa dá uma festa e lá vem algum vizinho querer proibir o outro comemorar o aniversário ouvindo música, rindo e se divertindo com os amigos. Não estou falando de alguém que dá festas todos os dias. Digo aniversário para deixar claro que esse exemplo trata de uma festa que acontece uma vez por ano.

Ainda assim o vizinho, se achando cheio de razão, vai ligar pra polícia e tentar proibir a festa de continuar rolando. Apenas uma noite diante do barulho e da alegria alheia o impedem de pensar e refletir que aquilo só acontece uma vez ao ano. Seu individualismo quer garantias de que não será perturbado por nenhum tipo de felicidade.

A cordialidade proibitiva é um subproduto do moralismo. Dá credenciais de preservadora da democracia, mas não consegue esconder seu ímpeto fascista. A cordialidade proibitiva tem os mesmos traços do preconceito e do fanatismo que levam skinheads a linchar um gay até a morte.

É cordialidade proibitiva impedir milhares de torcedores de irem ao estádio porque no jogo anterior imbecis de torcidas organizadas promoveram uma briga sanguinária. É cordialidade proibitiva retirar à força animais de pesquisas científicas sob o pretexto de que estão sendo maltratados.

É cordialidade proibitiva a maneira como um cardeal contestou uma piada. No ímpeto e com o coração, afirma que o Porta dos Fundos está incentivando o ódio religioso. Antes de usar o twitter, o cardeal não pondera que a Igreja Católica no Brasil apoiou e estimulou a escravidão durante séculos. Cenas de ficção de humor são para ele mais violentas do que foi a escravidão na realidade? O cardeal não tem autocrítica. E assim, se fazendo de bonzinho, incita seus fieis, se tornando o verdadeiro incentivador do ódio, no caso, aos comediantes.

Porém, apenas quer calar a voz de quem está zombando. Não admite que zombaria é importante para repensarmos a vida. E, agora, o cardeal ganha a companhia do pastor Marcos Feliciano e, apesar do vale-tudo na recuperação dos fieis perdidos para as Igrejas Evangélicas, aproveita um pretexto cheio de audiência para fazer a comunhão do conservadorismo para juntos apelarem para o velho espírito do Index Librorum Prohibitorum.

A cordialidade proibitiva faz os inocentes se sentirem meninos acuados na sala de aula como nas vezes em que alguém aprontava alguma e a professora dizia: "Se não aparecer o culpado, vai todo mundo ficar de castigo!" Quando era criança eu já não aceitava essa lógica de castigar uma imensa maioria de inocentes e, além de tudo, fazer de conta que não existia um culpado. Afinal, para o cara que aprontou era ótimo, ele não era revelado e ainda se integrava na grande comunidade dos castigados onde se era tratado, ainda que mal, com um igual.

Quase tudo que tem aparecido na vida brasileira ultimamente vem acompanhado dessa brilhante ideia de proibição, nascida de um impulso incontrolável de definir rapidamente o que é necessário para se resolver um problema.

Acontece que não resolve. Para nossa tradição comodista não interessa resolver problemas, afinal isso é uma coisa racional, fria. E no calor dos trópicos o coração fala antes e mais alto.