OPINIÃO

Um açude no Ceará está se transformando em um cemitério de animais

Quatrocentos e trinta e nove cágados mortos. Essa é uma cena bastante triste, de fato.

07/02/2017 16:10 -02 | Atualizado 07/02/2017 16:21 -02

Quatrocentos e trinta e nove cágados mortos. Essa é uma cena bastante triste, de fato. É normal e inclusive importante que muitas pessoas se sintam compadecidas pelos bichos. Mas o impacto ecológico real representa algo muito mais além do que a simples tristeza do fato. Veja ó vídeo:

O Açude do Cedro, o primeiro do Brasil, construído por escravos no império de D. Pedro II e que banha os pés da famosa Pedra da Galinha Choca, em Quixadá - CE, está 100% seco. Nenhuma gota d'água. Meus alunos da Universidade Estadual do Ceará me atentaram para a imensa quantidade de cágados mortos no local e, quando lá chegamos, decidimos que deveríamos urgentemente começar uma pesquisa para avaliar o problema.

Rodamos o açude nteiro e contabilizamos esse número, que além de já ser impressionante, está subestimado. Muitas carcaças foram levadas por curiosos e artesãos e outras devem estar enterradas na lama ressecada. Nenhum animal foi encontrado vivo. A parte que avança sobre a tristeza pontual dessa mortandade é que esses animais cumprem papel fundamental na cadeia alimentar, inclusive pela alimentação parcialmente detritívora, otimizando a ciclagem de nutrientes. A questão é que quase todos os quelônios pertenciam a somente uma espécie (Phrynops geoffroanus), muito generalista e resistente a diversos impactos humanos, quando o esperado era encontrar provavelmente​ uma melhor proporção populacional entre ela e outras duas espécies menos resistentes (Mesoclemmys tuberculata e Kinosternon scorpioides). Isso quer dizer que, antes da seca, a situação do açude possivelmente já estava crítica, talvez por poluição, alta salinidade da água ou outros fatores.

Se o impacto sobre os cágados foi alto, imaginem sobre os milhares de peixes e milhões de invertebrados que ali viviam. Isso pode causar um panorama ainda mais grave. Com as primeiras chuvas, a água vai se acumular e cadê os controladores? Cadê os predadores das larvas do Aedes aegypti? Os índices de dengue, zika e chikungunya podem ser alarmantes se nada for feito para controlar a reprodução. A região do sertão central do Ceará já detém uma das maiores concentrações de casos dessas doenças no Brasil de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

Verdade que açudes são construídos para abastecer populações humanas. Todavia, eles cumprem uma função completamente desconhecida pelo poder público, que é a de servir como fonte de biodiversidade. A maioria dos corpos d'água da Caatinga são temporários e perdem toda a água na estação seca. É natural, portanto, encontrar animais aquáticos mortos nesse período. Porém, esse fator natural é agravado pelo desmatamento, uso desordenado do solo e extinção de nascentes. Nesse panorama, ter um açude é importante para manter populações animais que podem migrar para rios e riachos no período de seca, além de servirem como área de hidratação para dezenas de espécies terrestres.

Como se nota, o problema da seca do Nordeste é complexo demais para ser tratado com tanto descaso e falsas promessas há décadas. O que está acontecendo no Cedro é observado em dezenas de outros açudes. A biodiversidade da Caatinga e a população pobre do sertão merecem, por uma questão de direito basal, políticas que realmente resolvam. E não há como dissociar esse discurso com a questão das mudanças climáticas, pauta mundial que vem sendo drasticamente distorcida e negada. Na Era Trump, certamente teremos um cenário desesperador na luta contra o aquecimento global.

Quanto ao Cedro, terminada a fase inicial da pesquisa, os quelônios agora estão sendo medidos para um estudo de densidade e estrutura populacional. A depender dos resultados e da taxa de enchimento do local, será traçado um plano de recuperação através da reintrodução de matrizes monitoradas. Mas, enquanto isso, a sede e a fome parecem voltar a assombrar o povo do sertão. É preciso, mais do que nunca, uma parceria mútua entre Ciência e Política. A Academia deve atender mais demandas sociais e fomentar estudos mais complexos sobre o problema e, principalmente, as gestões públicas devem pautar suas ações com base no estanque científico.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com

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