OPINIÃO

Ei, você que acredita na 'pílula do câncer'. Precisamos conversar sobre

15/04/2016 10:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
GP Kidd via Getty Images
Close up of mixed race woman holding medication capsule

Olá, meu caro (a). Precisamos conversar.

Antes de mais nada, quero dizer que se você é paciente ou é muito próximo a alguém que esteja sofrendo com o câncer, saiba que não só respeito sua dor, como faço questão de, enquanto divulgador científico, mostrar os avanços e servir como porta-voz para que continuemos crescendo na luta contra essa doença que assola milhões de pessoas ao redor do mundo.

Você vai ler muitas críticas sobre o caso da fosfoetanolamina nesse texto. Definitivamente, essas críticas não são sobre você. Não são a respeito da sua dor. São sobre como essa sua dor está sendo direta ou indiretamente explorada para que você acredite na eficácia de um composto sem qualquer comprovação científica. São sobre o erro e, por que não dizer, irresponsabilidade do Judiciário e do Executivo na assinatura da liberação de algo que nem remédio é. Vamos enumerar alguns fatos que você precisa saber sobre o assunto, que já virou uma grande bola de neve.

1. A fosfoetanolamina não é remédio. É um composto fosfolipídico produzido pelo nosso próprio corpo. Em 1980, um químico da USP, Dr. Gilberto Chierice, apenas sintetizou esse composto em laboratório.

2. Chierice é químico e nunca capitaneou nenhuma pesquisa publicada envolvendo medicina ou biomedicina. A única pesquisa de sua autoria envolvendo a fosfoetalonamina compreende o uso desse composto na oxidação de microeletrodo de cobre, em 2011. Após ler artigos basais sobre a presença desse composto em células de defesa contra células tumorais, eles passou a creditar à droga algum poder "milagroso".

3. Depois de constituir parceria com outros pesquisadores, principalmente o Dr. Adilson Cleber Ferreira, seu laboratório começou a pesquisar o efeito do composto em células cancerígenas de camundongos (principalmente melanoma e câncer de Ehrlich, sendo essa última acometida somente em roedores). Após observar alguma regressão do crescimento dessas células (regressão essa que estava longe de ser sensacional sob um ponto de vista médico), ele passa a envasar a substância e distribui-la em um hospital público de Jaú, interior de São Paulo.

4. Esse é o ponto principal. O composto foi distribuído apenas com evidências muito rasas de melhoria. Para que um remédio chegue ao paciente, é preciso realizar três fases de testes em animais, outras três em humanos, passar por critérios rígidos de controle médico e sanitário por órgãos de vigilância, para só depois chegar aos laboratórios farmacêuticos, em um processo que dura aproximadamente dez anos. Esse espaço de tempo é suficiente para que outros pesquisadores possam replicar os métodos e inclusive confirmar ou refutar os resultados e a conclusão dos experimentos prévios. O uso dessa droga parou na fase pré-clínica em animais, tornando sua distribuição ilegal, irresponsável, antiética e perigosa.

5. A pior parte desse ponto é que esse processo também é importante para detectar riscos à saúde humana a curto, médio e longo e prazo. Isso foi totalmente ignorado na distribuição da fosfoetanolamina aos pacientes. Não há, por exemplo, estudos sobre efeitos colaterais e, por esse motivo, os pacientes são obrigados a assinar um termo de responsabilidade para adquirir a droga.

6. Após a aposentadoria do Chierice em 2014, o laboratório parou de produzir o composto. Porém, milhares de pessoas já tomavam a droga acreditando em uma cura milagrosa. O nome da USP, a maior universidade do país, dava credibilidade a algo que nunca havia sido corretamente testado como eficaz. O desespero de famílias motivou inúmeras ações legais após o ministro do Supremo, Edson Fachin, obrigar o laboratório a voltar a produzir a droga para uma paciente em estado terminal, em outubro de 2015.

7. A Reitoria da USP prontamente emite uma nota afirmando que não caberia a ela servir como indústria farmacêutica, tampouco para produzir algo que não passou pelos critérios legais e científicos necessários. Entretanto, muitos políticos se aproveitaram do desespero dessas pessoas para propor liminares de liberação de sua produção.

8. Diante da pressão, o Ministério da Ciência em Tecnologia anuncia, em novembro de 2015, a destinação de 10 milhões de reais para pesquisas sobre o composto.

9. De dezembro de 2015 até março de 2016, os primeiros testes da fosfoetanolamina já mostram o que a comunidade científica já esperava. Os resultados não apontaram ação efetiva contra câncer. O Laboratório de Oncologia Experimental da Universidade Federal do Ceará mostrou que o composto só produziu efeitos em uma concentração mil vezes maior do que o valor potencial para que alguma substância ataque efetivamente células tumorais. As análises do Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos de Santa Catarina corroboraram os mesmos resultados. Os defensores da suposta droga afirmam que é preciso pesquisas em seres humanos, sob a alegação de que ela só funcionaria quando metabolizada pelo organismo. Os testes serão feitos, mas as evidências de que darão certo estão muito mais longe do que muitas drogas que obtiveram excelentes observações in vitro e mesmo assim alcançaram péssimos resultados em seres humanos.

10. Mesmo diante dessas conclusões e excluindo a necessidade de passar por controles sanitários, a Câmara dos Deputados aprovou no dia 8 de março o projeto de lei para fabricação e distribuição da fosfoetanolamina, que foi aprovada pelo Senado e agora sancionada como Lei pela presidente Dilma Roussef.

Agora que nós já fizemos essa análise temporal, precisamos tratar dos pontos que você definitivamente precisa compreender dentro de um processo científico. Peço a você muita calma e serenidade.

Primeiramente, os pesquisadores que são contra a distribuição da fosfoetanolamina são de diversos setores da Ciência, de todas as partes do país e locados em instituições de altíssima credibilidade internacional. E não, eles não são vendidos para a indústria farmacêutica. Sim, é verdade que esse setor econômico se mostra como um dos mais imorais do cenário mundial, mas colocar o caso da fosfoetanolamina nesse bolo é de um conspiracionismo totalmente infundado.

Pense comigo: um remédio que garantisse o tratamento eficaz contra qualquer tipo de câncer teria como impacto potencial 14 milhões de pessoas, com lucros inimagináveis. Não à toa, remédios desenvolvidos a partir de métodos corretos recebem altíssimas fontes de financiamento, como o caso do tomoxifeno.

Mas ainda que você desconfie, pense mais uma vez, você realmente acha que todos os oncologistas e demais pesquisadores sérios sobre câncer desse país conseguiriam ser comprados? Faço o pedido para que você reflita. Não se deixe enganar. Não há qualquer evidência de que esses pesquisadores sejam vendidos.

Outro ponto bastante levantado por parte da sociedade é o de que esses pacientes, principalmente em estado terminal, merecem uma chance de tentar, já que o suposto remédio não faz mal. Concordo, de fato o composto passou nos testes de toxicidade, mas é importante ressaltar de novo a questão da ausência da lista de efeitos colaterais. De todo modo, eles tem esse direito a lutar pela vida, principalmente diante dessas circunstâncias, mas o que estamos discutindo aqui não é esse direito e sim os motivos que levaram essas pessoas a acreditarem nisso.

Esses motivos são infundados. Além disso, pense que 10 milhões de reais que saíram do seu bolso e dos contribuintes estão sendo fornecidos para algo desse tipo, enquanto milhares de bolsas de estudo estão sendo cortadas de pesquisadores sérios desse país. Estamos sem recursos para encontrarmos remédios que tenham realmente potenciais de cura para diversas doenças, inclusive o câncer.

Você deve estar pensando nesse exato momento nas dezenas de relatos de pacientes que foram curados ou tiveram sintomas aliviados pela pílula. Bom, vamos lá. O câncer dessas pessoas pode ter regredido por tratamentos convencionais, causas naturais ou mesmo pelo efeito de placebo. A sensação de melhoria pode ser devido à oscilação da manifestação dos sintomas, que também depende de causas naturais e da ação do tratamento convencional.

Além disso, você precisa ter conhecimento de que inúmeras pessoas pioraram ou morreram, mesmo tomando a fosfoetanolamina. Relatos populares só servem para levantar hipóteses científicas e nunca para confirmá-las. Você vai encontrar muitos que afirmam categoricamente que banha de cobra cura asma e que manga com leite mata. Por mais que elas atestem casos pessoais, nada disso faz sentido sob a luz da Ciência.

Meu caro (a), não permita que grupos sem compromisso com o método científico utilize sua dor para promover desinformação, falsas esperanças e ainda por cima dando margem para outros se aproveitarem politicamente disso.

A liberação desse composto foi um atestado de ignorância científica dos nossos governantes e que certamente já é motivo de vergonha internacional. A abertura desse precedente pode causar um desastre.

A partir de agora, qualquer um pode disseminar uma informação falsa para pessoas desesperadas sobre a cura de alguma doença e lucrar fortemente com isso sob proteção legal. Não aceite que você, seus amigos e familiares sejam as cobaias desse "experimento".

E se você quiser saber mais e atestar as fontes de tudo isso que falei, vou te passar aqui uma playlist com vídeos do Science Vlogs Brasil, repleto de mais informações com os links dos artigos e notícias sobre o assunto. Esses caras são cientistas divulgadores e, assim como eu, não são vendidos para a indústria farmacêutica. Nem se preocupe, porque nem remédio de graça a gente recebe.

Acredite na Ciência, ajude a fomentá-la e juntos, aí sim, podemos vencer o câncer.

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