OPINIÃO

Lembra da nova promessa que era Barack Obama? O que aconteceu com aquele cara?

14/10/2014 19:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
AP Photo/Charlie Neibergall
President Barack Obama walk son Pennsylvania Avenue near the White House in Washington, Tuesday, Jan. 20, 2009, during his inaugural parade.(AP Photo/Charlie Neibergall)

WASHINGTON - Em viagens recentes, me perguntaram a mesma coisa em Pequim, Auckland e Roma: "O que aconteceu com Barack Obama?".

Na verdade são várias perguntas: O que aconteceu com aquele político novo e idealista? O que aconteceu com seu poder e sua popularidade nos Estados Unidos? Por que ele não domina o cenário político como antes? Por que não é tão efetivo como achamos que seria?

Algumas respostas:

O Oriente Médio. A região que inicialmente o fez parecer sábio agora o faz parecer, na melhor das hipóteses, confuso. Sua promessa de acabar com os nove anos de guerra no Iraque o ajudaram a levar a presidência. Osama bin Laden se foi, mas agora que causa terror é o Estado Islâmico. E o presidente que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por seus objetivos idealistas despeja uma chuva de bombas em território sírio e resiste ao clamor por "botas no solo".

As palavras importam. Treinado como advogado, Obama deveria estar ciente dos usos da ambiguidade. Mas ele faz declarações abrangentes que prejudicam sua credibilidade. Ele garantiu a todos os americanos que eles poderiam "ficar com seus médicos". Não era exatamente verdade. Ele declarou que se o presidente sírio, Bashar al-Assad, fosse além da "linha vermelha" do uso de armas químicas, os Estados Unidos responderiam com força. Assad atravessou a linha, mas os Estados Unidos não fizeram nada. Obama disse que era "altamente improvável" que o ebola chegasse ao país; duas semanas depois, uma vítima da doença morreu em Dallas.

Expectativas desmedidas. Obama surgiu com a aura cool de Kennedy, um otimismo jovem, credenciais das melhores universidades americanas e como a personificação da ideia de que os Estados Unidos estavam superando seu "pecado original". Sua história de vida era um triunfo do multiculturalismo e do internacionalismo. Por sua própria natureza, ele acabaria com guerras, faria a paz com o Islã, ajudaria os mais necessitados e salvarias as economias americana e mundial. Essas expectativas (que ele fez o máximo para atiçar) eram inalcançáveis. Ele não as alcançou. Ninguém conseguiria.

A internet. A ascensão de Obama foi meteórica até mesmo para padrões americanos. As razões são digitais, em parte. Ele é a primeira "marca pessoal" viral a chegar à Casa Branca. Mas a política é mais volúvel na era do Facebook, do Twitter e do Instagram - e mais fragmentada. Obama teve sucesso seis anos atrás ao abrir novos caminhos ao redor da mídia "centralizada". Mas agora parece mais difícil para ele chamar atenção em meio à cacofonia digital. A internet está preocupada com outras marcas e outras tendências.

A economia. Aqui o histórico de Obama é mais sólido do que admitem seus críticos e até mesmo seus amigos. Seu apoio sereno para as operações de salvamento de bancos e empresas ajudaram a evitar uma catástrofe. Seu "estímulo" funcionou, de certa forma. Sua equipe manteve a economia americana mais bem posicionada que a maioria para competir (e cooperar) com a China. O programa de reforma da saúde, apesar dos problemas na implementação, ajudou milhões e criou uma regulamentação necessária para as seguradoras.

Ele foi reeleito em 2012 com esse histórico, mas ainda assim não conta com apoio duradouro. Por quê?

Por que os ricos estão mais ricos, e a classe média está estagnada. A produtividade está aumentando, mas os salários reais, não. A mensagem não-dita de Obama é: "Seria pior sem mim". Ele está certo, mas isso está longe de ser um slogan inspirador.

Washington. Obama prometeu acabar com os entraves do governo. Não cumpriu. Uma razão é estrutural: o presidente dos Estados Unidos, por mais carismático que seja, não é um chefão partidário, primeiro-ministro ou rei. Os fundadores do país dividiram o poder, e ele segue dividido.

Os republicanos dificultam ainda mais sua vida. Novos presidentes costumavam ter direito a uma "lua-de-mel". Não foi o caso de Obama. No dia em que ele assumiu o cargo, em 2009, os republicanos começaram a tramar o fim de sua carreira política e vieram a público com a promessa de impedir que ele conseguisse um segundo mandato.

Raça. Os americanos debatem se, e até que ponto, a raça é um dos motivos pelos quais Obama enfrenta dificuldades. Uma qualidade que o tornou fonte de inspiração para tantos - o primeiro afro-americano na Casa Branca - o torna uma figura perigosa para alguns. Aqueles que negam que a raça seja um fator não conhecem os Estados Unidos. Aqueles que dizem que a raça é responsável por todos os seus problemas tampouco conhecem o país.

Competência. Obama evitou uma catástrofe administrativa do nível do furacão Katrina, e seu governo tem estado relativamente livre de corrupção venal. Mas a administração do dia a dia é outra história. A implantação do seu plano de saúde foi uma confusão, a patrulha das fronteiras tem falhas e a resposta inicial ao ebola foi lenta e pouco agressiva. A ameaça do ebola pode vir a dominar seus dois últimos anos de mandato.

O próprio Obama. Ferozmente orgulhoso e autoconfiante em público, Obama também é cauteloso e ponderado. Ele prefere a complexidade à simplicidade. Elogiado a vida toda por seus dons e suas conquistas, ele está acostumado a ser respeitado, mesmo que não seja amado. Ele gosta de deixar os outros à vontade e evita confrontos. Ele escalou o pau-de-sebo da política com charme e senso de oportunidade mais do que com uma atitude agressiva.

Sua natureza reflexiva e esperançosa o elegeu. Também o fez desdenhar do Congresso e das desagradáveis realidades políticas em geral. Ele trouxe de Chicago seu círculo social e sua equipe da campanha de 2008 e até hoje se mantém fechado com eles. Fez poucos amigos em Washington - e pouco inimigos também - e não parece estar preocupado com isso.

Mas o mundo está sitiado. É fácil concluir que a confrontação se faz necessária. Sua liderança será testada como nunca nestes dois últimos anos de mandato. Os Estados Unidos não têm a liderança que tinham no passado, mas seu papel segue sendo central e indispensável. "O que aconteceu com Obama" no passado importa muito menos do que o que vai acontecer com ele agora.

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