OPINIÃO

O jovem e o infrator num país dividido desde sempre

07/11/2014 15:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Don Bishop via Getty Images

(Abro o espaço deste blog para o meu amigo André Raboni):

por André Raboni

Analista de comunicação digital e historiador

Durante a eleição presidencial deste ano, muito se falou na "divisão do país". Este enunciado, repetido nos quatro cantos do país, serviu como marco acusatório contra o governo petista, que seria o responsável por "dividir o país" (entre pobres X ricos, brancos x negros, heterossexuais X homossexuais, e assim por diante). O enunciado ganhou força de argumento político pelos opositores do petismo, que passaram a defender a necessidade de "acabar com a divisão do país criada pelo PT". Mas esse enunciado pode ser melhor pensado se partirmos de duas perguntas simples: a) o Brasil não era um país dividido antes do governo Lula/Dilma? b) Qual o papel da Imprensa nesse processo de acirramento dos ânimos de classe no país?

A resposta da primeira pergunta é tão óbvia que não precisaria ser respondida. Mas é necessário reafirmar que sim, o Brasil é um país dividido desde que se entrou em marcha pesadíssima o projeto de nação baseado na imposição da língua portuguesa (o maior feito nacionalizante da nossa história foi fazer um território continental como o nosso, falar a mesma língua). As obras de Gilberto Freyre, século mais tarde, revelam precisamente essa divisão do país entre sobrados e mocambos, casas-grandes e senzalas. Mas essas obras de Freyre criaram uma leitura absolutamente fantasiosa do Brasil, a de que seríamos uma sociedade onde as classes dos senhores e dos escravos, dos homens e das mulheres, conviveriam em uma harmonia hollywoodiana entre si. Nada mais falso se observarmos (para ficar só em um exemplo) as perseguições às religiões de matriz africana durante todo o século 20 e até hoje.

A pretensa "harmonia entre classes" não passa de um delírio nada inocente de grupos que desejam a preservação do status social imensamente desigual que marca nosso processo histórico. Não é por acaso que esse discurso da "divisão do país" se tornou político-acusatório: as políticas de ascensão de classe consumidora são ameaças ao desejo de exclusividade que permeia nosso imaginário elitista. O discurso da harmonia entre as classes é o caldo de cana nas bocas de quem não bebe cachaça: um artifício que quer nos fazer acreditar que até quinze anos atrás tudo ia muito bem e o Brasil era um país de paz e harmonia.

A segunda questão é ainda mais perniciosa e reveladora. Vamos pensá-la a partir da manchete do portal G1 sobre a detenção dos justiceiros que amarraram um adolescente de 15 anos a um poste no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O episódio aconteceu no dia 31 de janeiro deste ano, e se tornou motivo de comoção nacional depois do discurso da apresentadora Rachel Sheherazade no Jornal do SBT, defendendo a ação dos justiceiros contra "o marginalzinho" e lançando a provocativa campanha "adote um bandido".

O título de matéria no portal G1 desta quinta-feira é revelador: "Jovens que amarraram infrator em poste são detidos por tráfico". Jovens. Infrator. No link da notícia outro vestígio ainda mais revelador, eles são "jovens de classe média" (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/10/jovens-de-classe-media-sao-presos-durante-acao-contra-o-trafico-no-rio.html).

2014-10-31-G1.png

Para o jornalismo do G1, os justiceiros (rapazes de classe média), detidos agora por tráfico e porte de armas, eles são "jovens". Continuam "jovens" na manchete e "rapazes de classe média" no lead da matéria. Seus crimes de justiçamento, tráfico e porte de armas de fogo não os tira a denominação de "jovens de classe média".

Mas enquanto isso no reino da notícia, o "marginalzinho" violentamente amarrado ao poste não perdeu sua classificação pejorativa do banditismo social. Ele continua "infrator". Talvez tenha cometido o gravíssimo crime de nascer preto e pobre num país tropical tão "harmonioso" quanto o Brasil.

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