OPINIÃO

Voto de pertencimento

22/07/2014 17:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
LEONARDO BENASSATTO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

As sempre lembradas Jornadas de Junho (momento épico da nossa história recente em que "o Gigante acordou"), por mais que tenham sido um movimento bastante complexo, deixaram duas certezas ululantes: uma é que a sociedade civil não se vê representada pela classe política ("Sem partido! Sem partido!"), outra é que ela está insatisfeita com os serviços públicos a que temos acesso.

Partindo dessas obviedades, fiquei estarrecido com a divulgação da última pesquisa Datafolha (ainda acredito mais em pesquisas que no aerotrem): aqui em SP, 46% da população aprova o governo de Geraldo Alckmin e 54% dos eleitores declaram voto na sua reeleição.

Minha primeira hipótese foi a de os paulistas são, em sua maioria, esquizofrênicos. Tal ideia, porém, me fez lembrar o protagonista do conto O alienista, de Machado de Assis, que acabou se convencendo de que era o único maluco e, por fim, internou-se a si próprio. Então, tentando evitar o pior, resolvi empreender uma pesquisa sociológica, mesmo que sem qualquer valor científico: usei minha conta em uma rede social para pedir aos meus contatos (que, por excesso de romantismo, insisto em chamar de "amigos") que dividissem comigo motivos pelo qual alguém votaria no atual governador.

Considerando o número de curtidas e comentários, calculo que algumas centenas de pessoas tenham visto o apelo. Entre elas, entretanto, apenas uma elencou motivos que, a seu ver, justificariam seu voto.

Entre os inúmeros fatores que podem explicar a ausência de explicações, optei por uma teoria que me deixou confortável: o voto de pertencimento. Explico-me: como o discurso do "são todos iguais" gera para muitos uma total descrença na classe política, resta a esses eleitores votar na imagem com que melhor se identificam - ou com que mais gostariam de se identificar

A hipótese parece servir para analisar a própria polarização PT vs. PSDB: não se nega que cada um tenha seu "mensalão", que ambos joguem o jogo da velha política e que, a seu modo, cada um implemente seus programas sociais. Historicamente, porém, o PT construiu a imagem de partido proletário, enquanto o PSDB tem cada vez mais se mostrado como o partido das elites.

Não defendo aqui que essas imagens se sustentem na prática: é evidente que nos últimos anos o governo federal, capitaneado pelo PT, não tem dado às elites muito do que se queixar, assim como é evidente que os 54% de paulistas que elegeriam Geraldo Alckmin não podem ser parte de uma "elite paulista".

No entanto, ambos os partidos parecem saber investir nas simbologias que vêm criando suas imagens. Para termos um exemplo singelo, é praticamente impossível imaginar socialites como Lu e Sophia Alckmin desfilando entre a militância de um partido que se orgulha de ter um ex-metalúrgico como seu símbolo e líder maior. Entre os simpatizantes do PSDB, porém, as duas figuras são uma espécie de "tudo o que você quer ser".

Até nos escândalos de corrupção, que obviamente fogem a seu controle, reforça-se o antagonismo de ambos os grupos: enquanto o "trensalão" tucano envolve dinheiro em bancos da requintada Suíça, a imagem mais emblemática do "mensalão" petista ainda é a falta de classe dos dólares na cueca.

No caso específico da eleição paulista, a concentração de riqueza no Estado de São Paulo parece criar na sua classe média remediada uma ilusão de pertencimento a uma elite - da qual na verdade está muito, muito distante. Parece que essa classe média se recusa a assumir que sinta na pele os efeitos de um transporte público horrível, de uma educação pública emburrecedora ou de um sistema de saúde ineficiente. Talvez lhe doa muito assumir que os serviços públicos de que dispõe estão muito aquém do primeiro mundo que São Paulo ostenta ser - e que é, de fato, apenas para quem pode pagar.

Na tentativa desenfreada de se distanciar da sua real condição, as pobres classes média e média baixa de São Paulo se agarram a todo e qualquer símbolo que as possa desvincular de uma humilhante imagem proletária. Pode ser uma viagem (financiada a perder de vista) para Orlando, um potente e belo carro novo (cuja prestação consome boa parte da renda mensal familiar, dinheirinho suado que vai fazer falta na velhice) ou mesmo o voto no marido de uma socialite a quem podemos chamar de "Lu". É gente nossa.

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