OPINIÃO

Vestibular: a meritocracia e o fracasso de todos nós

02/02/2015 14:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
UnB Agência/Flickr
Foto: Emília Silberstein

Nestes últimos dias, em que importantes universidades vêm divulgando suas listas de aprovados, parece bastante óbvio lembrar na boa e velha meritocracia. Ainda assim, esse tema se enfiou na minha cabeça de um jeito novo, menos pelos resultados dos vestibulares do que pelo caráter exemplar que eles parecem ter no tema: entender a dinâmica dos mais concorridos exames de seleção pode nos ajudar muito a compreender por que a meritocracia conta com a adoração de fiéis irredutíveis e, simultaneamente, com o repúdio dos mais incrédulos ateus. O vestibular parece sintetizar por que o mérito, explicação onipresente de sucessos e fracassos, é um ente tão fraudulento quanto verdadeiro.

Para explicar o caráter fraudulento do mérito, já se gastou muita tinta - e muitos bytes. Como falar em mérito em uma das nações mais desiguais do mundo, onde o ponto de partida de privilegiados e excluídos já impede qualquer competição de ser justa? Como falar em mérito em um país que não taxa suas heranças, como se o mérito fosse uma característica hereditária? Para lembrar um caso dramático, como falar em mérito em um país que ainda convive bem até mesmo com a cultura escravocrata (haja vista, entre tantos exemplos, as famílias paulistanas que passeiam com a babá trajada de branco aos domingos)? O mérito é uma fraude.

No entanto, para termos um contraponto, recorro a uma história noticiada recentemente, o caso de uma vestibulanda que, após duas tentativas frustradas, conseguiu a primeira colocação em uma importante faculdade de medicina. Como se vê, não se trata de alguém que "nasceu com um dom", que "teve sorte", mas sim de uma perfeita narrativa de superação: o revés das duas reprovações anteriores, as 14 horas diárias de estudo, a distância da família e dos amigos, a falta de lazer e descanso e, além disso, a concorrência de 125 candidatos por vaga. Mas ela resistiu e encontrou na aprovação o "final feliz", a plena redenção. O mérito existe.

Indo além de julgar quem está com a razão no valor dado ao mérito, fico aqui pensando se a passividade de boa parte dos universitários que chegam à graduação em instituições públicas não é reflexo da meritocracia que eles foram ensinados a cultuar. Os estudantes das melhores universidades são selecionados em um processo que premia o mérito individual. Aos que não são aprovados, estudar mais, namorar menos, "pegar mais pesado" é o único caminho plausível. Cada um busca qualificar-se a si próprio, visando a obter o mérito necessário. Assim, quando eles chegam à universidade, têm dificuldade de perceber que só o "mérito" adquirido é muito pouco.

Pegando o exemplo da USP, onde a cartilha neoliberal vem sendo cumprida à risca e acentua-se o desmonte da universidade, é sintomática a indiferença da maioria dos estudantes, que se recusa a participar das manifestações em defesa da universidade. Em um contexto no qual apenas a luta coletiva poderia surtir algum efeito na defesa de seus próprios cursos, conquistados com tanto sacrifício, como explicar que a maioria dos alunos prefira o pijama ao piquete?

Antes de julgá-los "individualmente" (por mais acostumados a isso que eles possam estar), lembremos que esses jovens adultos, recebidos pela "vida real" com um choque de meritocracia, nunca puderam ver a mobilização coletiva como meio de enfrentar as adversidades. Do vestibular, ficou-lhes como principal lição a de que o esforço individual é a chave para o sucesso. E só. Esse pensamento, para piorar, não é fruto do acaso ou de algum comodismo: antes, foi construído diligentemente, ainda que nas entrelinhas, nos bancos das "melhores escolas do país", e tende a acompanhá-los por toda a vida, até que a morte os separe.

Diante disso, espíritos mais românticos certamente dirão convictos que os vestibulares têm selecionado mal seus candidatos. Confesso que não sei se é isso. Talvez, numa sociedade voltada cada vez mais ao egoísmo e ao individualismo, o vestibular esteja sim promovendo adequadamente a valorização do mérito - ainda que isso signifique o fracasso de todos nós...

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