OPINIÃO

'Petista': as origens de um palavrão

06/02/2015 15:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

Um grande amigo, nos tempos de escola, me contou uma historinha exemplar, que aconteceu no seu ambiente doméstico. Um tio seu, malufista, após um debate eleitoral entre Marta Suplicy e Paulo Maluf, estava indignado com a grosseria da petista: "Ela chamou ele de nefasto!". Meu amigo, malandro já naquela época, perguntou calmamente: "Tio, o que é nefasto?". "Você não sabe?", retrucou o tio. "Não". "Nefasto é a pior coisa do mundo! Não se pode chamar nem a um cão de nefasto!". E a explicação terminou ali.

Um conhecedor médio de questões linguísticas certamente diria que o famigerado tio sequer sabia o significado de "nefasto" e ficou enrolando. Especialistas em linguagem, pelo contrário, explicariam que sim, que o tio sabia ao menos "parte do significado" da palavra. É que o sentido dos vocábulos é composto por dois aspectos: a denotação e a conotação. Enquanto o primeiro se refere ao que o termo "quer dizer" (no caso de "nefasto", algo como "de mau agouro", "funesto", "que traz desgraça"), o outro diz respeito, grosso modo, às impressões que as palavras carregam consigo devido a seu uso social - se um termo sempre é usado para depreciar, por exemplo, ele assume naturalmente uma conotação negativa. O tio do amigo, portanto, ainda que não soubesse a denotação, conhecia bem a conotação de nefasto.

Conto isso tudo para tentar explicar meu espanto com a mudança que a conotação do vocábulo "petista" vem sofrendo. O termo, que nos anos 80 e 90 era ostentado com orgulho por militantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores, hoje assume conotação francamente negativa, a ponto de ser usado como ofensa. Quem já ousou ponderar os benefícios de algum programa social do atual governo, por exemplo, certamente já teve a oportunidade de ouvir este elaborado contra-argumento: "Seu petista!".

Alguns vão evocar a ladainha de sempre: "o PT traiu os trabalhadores", "o PT acabou com o Brasil", "o PT faz o jogo da burguesia", "o PT dá bolsa para vagabundo", etc. A questão, porém, não é essa. Longe de mim, nesse contexto nefasto que vivemos, querer defender políticas do governo federal petista, mas é curioso que, com os avanços do neoliberalismo e da corrupção nos anos 90, o termo "tucano" não tenha sofrido as mesmas escoriações. Ou mesmo hoje: por que em São Paulo, onde a ausência de políticas públicas adequadas vem deixando milhões de pessoas sem água, o termo "tucano" não está associado a falta de planejamento ou a sujeira?

Uma explicação possível, mas não definitiva, é o maior interesse dos grandes meios em destacar os malfeitos de um grupo que de outro. É visível que a imensa maioria das reportagens tomam o cuidado de não questionar como o sistema político e econômico tem favorecido mensalões por todos os lados e corrupção em estatais, preferindo relacionar tais problemas ao caráter de um grupo, substituível, de pessoas. Nas eleições de 2014, por exemplo, foi gritante a desfaçatez do jornalista William Bonner que, em entrevista a então candidata Dilma Rousseff, perguntou-lhe por que ela teria tanta dificuldade em "cercar-se de pessoas honestas". Temos então uma soma de fatores: de um lado, cria-se a mentalidade de que os desmandos do capital na política são mera "falha de caráter" e, o tempo todo, essa falha vem sendo associada a um grupo específico, os chamados "petistas".

O processo de aniquilação do termo está tão adiantado que, para ficarmos com um exemplo, um recente boletim do Sintusp - sindicato combativo que luta pelos direitos dos trabalhadores da USP - denunciou o que chamaram de "governança petista e machista" do reitor. Embora o Estado de São Paulo seja governado há décadas pelo PSDB, o sindicato uspiano viu o termo "petista" como adequado para veicular sua indignação com a má gestão da coisa pública. Insisto: o reitor não é do PT e o estado é governado há décadas pelo PSDB. A "governança", porém, que poderia ser chamada simplesmente de "nefasta", recebeu a alcunha de "petista".

Nesse contexto, parece impossível não se lembrar de George Orwell, em cujo romance 1984 a construção de uma "Novilíngua" atuava no controle do pensamento dos cidadãos. Mais uma vez, a vida imita a arte. E da forma mais nefasta possível.

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