OPINIÃO

Em defesa de Rachel Sheherazade

06/05/2014 12:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
Reprodução/Facebook

Neste dia 5, aconteceu de novo. O assassinato por espancamento da jovem Fabiane Maria de Jesus (33) no Guarujá aumenta uma fúnebre onda de "justiça com as próprias mãos" quem vem assolando o país. Apesar de esses crimes terem se tornado mais frequentes depois de terem sua torpeza amenizada pela apresentadora do Jornal do SBT, chamar esses linchamentos de "Efeito Sheherazade" não deixa de ser uma injustiça.

Ok, reconhecemos que Sheherazade mandou mal, muito mal, ao se mostrar tolerante com a funesta prática desses "justiçamentos". No entanto, há que se observar que Rachel é humana e sujeita a erros, como qualquer um de nós (ainda que a moça pareça errar de modo mais grosseiro que o aceitável). Como qualquer um de nós, humanos, a apresentadora pode ter traços graves de teimosia e persistir em seu erro, como faz ao se dizer "mal interpretada" sobre sua conivência com a barbárie.

Assumindo então que qualquer um de nós correu o risco de ter nascido com um nível de insensibilidade, de morbidez, de hipocrisia e de desumanidade acima do tolerável, vejo Rachel como uma pobre vítima ao ser quem ela é. A questão que se levanta, portanto, poderia ser outra: como alguém, sendo Rachel Sheherazade, pode ter tanta influência sobre a população?

Será que, numa sociedade em que os mais informados de fato se preocupassem com a falta de informação, o "passe" de Rachel Sheherazade seria disputado a peso de ouro por duas grandes emissoras de TV - Bandeirantes e SBT? Por que nenhuma delas teme um boicote efetivo, que afete suas receitas, caso empregue a dita jornalista?

Será que, numa sociedade minimamente esclarecida, o desrespeito ao código de ética jornalística (que impede tais profissionais de incitar a violência e os obriga a considerar a presunção da inocência) seria transformado em "liberdade de expressão"? Por que grandes veículos de imprensa não se pronunciam efusivamente sobre isso?

Será que, numa sociedade capaz de compreender e combater suas mazelas, um comentário mal feito em um telejornal de quinta categoria bastaria para ativar a onda de violência praticada por populares ciosos de "justiça"? Por que a revolta dos oprimidos vem sendo tão mal canalizada?

Sempre houve e sempre haverá Sheiras e Nazis, isso não é novo. O problema é não termos mecanismos efetivos que os impeçam de atentar contra a cidadania, contra o bem comum e, por que não dizer, atentar contra a civilização que, a duras penas, tenta se instaurar neste ainda brutal Brasil. Sendo justos com ela, a âncora do jornal do Silvio Santos não vai muito além de uma espécie de Maísa, uma inusitada fonte de receitas à capenga TV do baú e a seus anunciantes. O preocupante é saber que o discurso do ódio, ainda em 2014, rende lucro a essa gente.