OPINIÃO

Eleitor ou militante?

03/10/2014 18:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
AP

No primeiro turno destas eleições presidenciais, duas candidaturas se destacam no campo da esquerda. Uma é a de Luciana Genro, representante do PSOL na disputa do executivo federal, e outra é a de Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição. Contrastando os dois partidos, muitos têm a impressão de que o PSOL é uma espécie de "PT não corrompido", um tipo de "PT à moda antiga". Essa visão, porém, certamente seria refutada de imediato por integrantes ou simpatizantes de ambos os partidos. Eu aqui, que não integro nenhum deles mas simpatizo com ambos, vou tentar deixar uma pequena contribuição para desfazer o equívoco. Para isso, vou me valer de duas figuras: a do eleitor e a do militante.

O PSOL, nesta minha análise, é o partido do militante. A própria Luciana Genro sugere isso toda vez que lhe perguntam como seria possível implementar as mudanças que o partido propõe, orientadas sempre para favorecer o trabalhador e enfrentar os interesses do grande capital. Segundo a candidata, uma vitória eleitoral do PSOL significaria que a população estaria disposta a comprar essa briga e, com esse apoio, o enfrentamento seria viável, possível e vitorioso.

Embora a tese da candidata seja bastante plausível - além de extremamente honesta -, não se pode negar que as pesquisas de intenção de voto estão longe de apontar a conjuntura revolucionária esperada pelo partido. No Brasil real, em que as cartas estão sendo dadas por grupos contrários à ideologia psolista, o discurso de igualdade e justiça social defendido por Genro não encontra os meios necessários para atingir um número razoável de corações e mentes para inflamá-los à luta.

Ainda que a candidata do PSOL evoque as Jornadas de Junho, momento em que a população pareceu mais disposta a lutar, é imperativo lembrar que, na ocasião, a grande mídia conseguiu, com relativa rapidez, transformar o "não são só 20 centavos" numa espécie de "micareta fascista" - copiando uma feliz expressão do meu amigo Eduardo Calbucci.

Já o PT, diferentemente do PSOL, é um partido de esquerda atuando num Brasil que tem menos militantes que eleitores. Sem desmerecer sua empenhada militância, de um valor inestimável para a história da política brasileira, quero dizer que o Partido dos Trabalhadores optou por atuar no campo da chamada realpolitik (termo que uso aqui sem qualquer conotação pejorativa). O partido optou por buscar reformas progressistas no Brasil real, em vez de construir aos poucos uma conjuntura revolucionária que favorecesse mudanças mais radicais.

Neste Brasil real, o maior formador de opinião continua sendo aquilo que podemos chamar de "grande mídia". Controlados por apenas seis famílias, esses conglomerados midiáticos defendem a manutenção do cenário atual e ajudam a "formar" uma população desinformada, quando não avessa aos valores progressistas defendidos pela esquerda.

Neste Brasil real, os grandes bancos - sobretudo os sonegadores de impostos - direcionam seus milhões em propaganda para essa mesma grande mídia, a qual diligentemente vem construindo um sentimento de antipetismo. Boa parte da população, sem acesso a outras fontes, aceita a ideia de que problemas graves como a corrupção do sistema político - que explica, por exemplo, o cartel do metrô tucano em SP - tenha sido uma invenção do Partido dos Trabalhadores.

Neste Brasil real, a religiosidade conservadora se apresenta como se fosse a única possível e segue lutando para fazer da vida daqueles que não professam seus preceitos um verdadeiro inferno. Descriminalização de drogas, direito ao aborto e criminalização da homofobia - pautas consensuais no campo da esquerda - ficam em segundo plano em um país onde a busca pela "salvação divina" avança a passos largos.

Se consideramos esse cenário hostil, os "modestos" avanços promovidos pelo PT podem ser vistos como uma grande revolução. Valorização real do salário mínimo, redução da taxa de juros e programas como o "Luz para todos", o "Bolsa Família" e o "Prouni" são exemplos de uma política bastante indigesta aos que detêm o grande capital e prefeririam ver o dinheiro público seguindo para outros bolsos.

No entanto, conformar-se com a política do "vamos até onde der" cria o risco de que o limite do possível seja cada vez menor. Nesse sentido, o slogan psolista que diz "Nada deve parecer impossível de mudar" é mais que correto: necessário. O que nos traz de volta à questão inicial: eleitor ou militante?

A minha conclusão é a de que, embora a discussão política tenha avançado expressivamente no país, a maioria esmagadora da população ainda se ocupa da política apenas a cada biênio. Nesse cenário, um partido como o PT, disposto a "jogar o jogo" da democracia burguesa é necessário para que ainda tenhamos avanços - e não retrocessos - nos próximos anos. Mais do que isso, arrisco dizer que um governo petista é fundamental para criar condições reais de que mais brasileiros passem a entender que "política se discute sim" e, quem sabe, surjam no futuro mais militantes das causas levantadas por Luciana Genro - processo que a própria candidata assume ser fundamental para o avanço da igualdade e da justiça. Em suma, em condições ideais, eu poderia votaria 50 para presidente. Mas, para que elas possam vir a existir, meu voto é indubitavelmente 13.

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