OPINIÃO

Dilma e a meta

01/08/2015 12:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian President Dilma Rousseff speaks during meeting of the Vocational Education Project for Young People, the Pronatec, at Planalto Palace in Brasilia on July 28, 2015. Seeking to improve her popularity, currently about 7% of the population considered good or excellent, the President Rousseff will launch a campaign on social medias with videos that show the action of her government. AFP PHOTO / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Na última terça, Dilma Rousseff formulou mal uma frase, muito mal, e virou piada por isso. Eu aqui, estudioso da língua e amante da Linguística, não pude não me debruçar sobre o tema - estudar Letras, aliás, serve muito para isso, para sacar como se manifestam/ constroem as ideologias nos e pelos textos. O caso é que, como achei coisa curiosa nessa empreitada, quero então dividir um pouco com os amigos o resultado dessa luta vã.

Antes, o contexto:

O discurso foi dirigido a representantes de micro e pequenas-empresas, do "Sistema S" (Sesi, Senai, Senac) e membros do governo, que iniciavam uma reunião de trabalho para desenvolver o Pronatec Aprendiz. A ideia do projeto, segundo o que a presidenta diz no mesmo discurso em que saiu a frase horrenda, é oferecer oportunidades de emprego onde os jovens estão mais vulneráveis ao tráfico de drogas. A tentativa, portanto, é "disputar" essa mão-de-obra, atribuindo-se um papel estratégico às micro e pequenas-empresas. O projeto foi apresentado inclusive como contraponto à redução da maioridade penal: em vez de cadeia, oportunidades.

A frase:

"Nós não vamos colocar uma meta. Vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, vamos dobrar a meta".

Que a frase está ruim não é necessário ser especialista para perceber. Mas um analista razoavelmente versado em estudos linguísticos ainda fica querendo entender que raios acontece nesse enunciado. Minha hipótese: a referência de "nós" e "a gente" não é a mesma (aliás, a quem interessar, o Prof. Marcelo Módolo e eu publicamos um artigo sobre uso da primeira pessoa em discursos políticos).

Seria algo como "nós do governo não vamos impor uma meta, mas quando a gente aqui em reunião definir uma meta, nós do governo vamos dobrar a meta".

A repercussão:

O problema de uma frase assim tortuosa é dar margem para certos meios de comunicação utilizarem-na sem muito "cuidado jornalístico". A Folha de S. Paulo, por exemplo, chegou a alterar a frase, que ficou assim:

"Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta".

Na nova frase, em vez de "não vamos definir UMA meta" (um jeito de dizer "vamos dialogar"), diz-se "não vamos definir A meta" (um modo de dizer "não temos planos"). Para reforçar a suposta contradição entre "não definir meta" e "atingir meta", a Folha insere um "mas" na nova versão, ausente na original. Por fim, a diferença entre "nós" e "a gente" some, pois usa-se "nós" para tudo.

Pequenas conclusões:

Indo além do "defender a Dilma" (não é o caso, o cargo de presidência exige certos cuidados linguísticos) ou do "atacar a Folha", chamo atenção para outras coisas:

1) Dominar certos mecanismos gramaticais é pode ajudar muito a entender certas sutilezas do texto;

2) Concentrar o estudo da língua no "certo ou errado" da gramática normativa é uma bobagem - a frase de Dilma, que deu esse enrosco todo, não sofre de "erros gramaticais", mas de falta de clareza, o que é bem pior;

3) Destacar uma frase mal formulada em meio a um discurso polêmico, que se apresenta como contraponto à redução da maioridade penal, é uma escolha editorial bastante estranha;

3) Sermos tão vulneráveis às "reformulações" promovidas pelas narrativas jornalísticas que nos chegam todos os dias é, para a democracia, no mínimo perigoso.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: