OPINIÃO

A caravana e seu inexorável caminho

Em 2010, fomos - eu e meu namorado da época - covardemente agredidos, vítimas de homofobia em uma festa universitária.

17/06/2017 21:31 -03 | Atualizado 17/06/2017 21:31 -03
nito100 via Getty Images
Articulista relata episódio de homofobia sofrido em 2010 e o impacto em sua vida.

Sabe aquelas frases que toda mãe fala? Em casa, a frase é: "Agradeça sempre o que possui, e compartilhe". Cresci no interior de São Paulo e minha infância guarda memórias das ações sociais que meus pais envolviam a família: foram muitos aniversários realizados em creches, finais de semana na casa de acolhimento que eles ajudaram a fundar, ou então dentro de uma perua, que passava nas ruas da cidade pedindo doação de alimentos para o asilo.

Ter consciência dos meus privilégios, respeito e empatia por outras vivências, e essa vontade de fazer a diferença ajudaram a me construir como cidadão. Cresci com a ânsia de transformar o planeta, e neste processo fui me transformando: o aluno nerd que queria ser biólogo apaixonou-se por um amigo, e todos os padrões da sociedade também transformaram-se em minha cabeça: além do bullying por ser nerd [e gay], questionamentos, indecisões... Por que isso estava acontecendo comigo?

Lembro de um comentário do professor de inglês que fez a diferença: "Henrique, os cães ladram enquanto a caravana segue o seu inexorável caminho".

Segui, vim para São Paulo estudar biologia e na faculdade sempre foi muito natural ser gay, conquista dos professores e veteranos que me antecederam. Porém, a bolha de respeito e naturalidade estourou em 2010. O maior medo dos meus pais se concretizou e fomos - eu e meu namorado da época - covardemente agredidos, vítimas de homofobia em uma festa universitária.

Esta poderia ser uma memória triste, cinza em minha vida - não foi o que aconteceu. Ao mesmo tempo em que me vi cercado de amor e privilégios e, portanto, com o dever de dar visibilidade ao tema, a minha família saiu do armário e se posicionou, empunhando a bandeira da diversidade. E mais um professor fez a diferença, cuidando de mim durante o boletim de ocorrência na delegacia, nas entrevistas e desdobramentos que se sucederam.

Hoje, vejo este momento registrado no mapa da homofobia criado por um site de notícias e reflito sobre as consequências desta minha atitude: não me calei e contribuí para a mudança da universidade - conseguimos avanços, diretrizes formais para tratamento e conscientização dos calouros sobre diversidade, além de festas e grupos que celebram o orgulho LGBT na maioria dos institutos.

Sabe sensação de dever cumprido? É o que sinto quando, arrepiado, leio na parede dos centros acadêmicos em letras garrafais e coloridas:

E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor?Caio Fernando de Abreu

A caravana segue, agora na empresa. No site, a cultura que abraça a diversidade já se destacava, e havia um tal "grupo de afinidade para funcionários LGBT e aliados". O departamento, liderado na época por um diretor abertamente gay, casado e envolvido nos movimentos de inclusão LGBT no mercado de trabalho [mais um professor em minha vida fazendo a diferença]. A conexão foi natural!

Hoje, sou co-líder do grupo LGBT da empresa no Brasil, que tem como objetivo garantir oportunidades iguais de crescimento e desenvolvimento de carreira dentro da companhia. Promovemos um ambiente de trabalho seguro além de ações focadas em recrutar, engajar, reter e desenvolver talentos LGBT, procurando inspirar e sensibilizar nossa cadeia de valor e outras empresas no País.

A caravana? Tem que seguir, rodeada por outros parceiros e outras caravanas nesta jornada, inspirando mais pessoas a fazerem a diferença como os professores fizeram em minha vida.

Ainda há muita luta pela frente, mas o destino é inexorável.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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Fotos da Parada Gay em SP