OPINIÃO

Não basta combater a fome por meio de calorias

O prefeito de São Paulo desdenha de todo o vasto conhecimento sobre o tema comida e cultura e propõe que restos de comida, para não virarem lixo, se transformam em ração para pobres.

16/10/2017 18:51 -02 | Atualizado 16/10/2017 18:51 -02
Reprodução/Prefeitura de São Paulo
O prefeito João Doria lança o programa Alimento para Todos.

O antropólogo Claude Lévi-Strauss passou boa parte da vida dele compilando uma linda obra, na qual vasculhou as raízes antropológicas do nosso modo de alimentar, defendendo que transformar e diversificar o alimento é uma das questões que nos torna humanos, diferenciando-nos de outras espécies.

Edgar Morin, em O enigma do homem, propõe a discussão de como a diversificação da nossa comida (atenção para a palavra diversificação) capacitou nosso cérebro a desenvolver raciocínios mais complexos. De catador de legumes e raízes e comedor de carne crua, com a descoberta do fogo e da consequente transformação dos alimentos, passamos a ter acesso a uma grande variedade de alimentos, transformando nossa capacidade cognitiva. Morin dialoga diretamente com Strauss.

Massimo Montanari - organizador, juntamente com Jean-Louis Flandrin da bíblia História da Alimentação - nos brindou com o maravilhoso Comida como Cultura, mostrando que comer congrega, estrutura sociedades, nos faz criar grupos, eventos, comemorações - nos torna humanos.

Comer não é nutrir o corpo apenas. Nunca foi, nunca será. Comemos cultura, como nos mostra a associação inescapável entre turismo e comida, por exemplo. Ou o bolo da nossa avó que, por mais que tenhamos e façamos a receita, nunca reproduziremos como nossa emoção diz que o gosto deveria ser.

Não me causa espanto, mas sim perplexidade e horror, que o principal governante de uma das maiores cidades do mundo desdenhe de todo o vasto conhecimento sobre o tema comida e cultura para propor um programa no qual restos de comida, para não virarem lixo, se transformem em ração para pobres.

Ração liofilizada, desnaturada, sem cara, sem cor, sem emoção. Os restos em cápsulas, colocando os maiores pesadelos de um mundo "Blade Runner" em ação. Primeiramente para os pobres, esses seres que ousam, desde sempre, atrapalhar o progresso do Brasil apenas existindo.

Depois, por que não para a "escória" que habita as prisões, para os doentes mentais que nada reconhecem e, claro, para as crianças - criança só precisa comer e crescer, não é mesmo? Nenhum desses humanos desumanizados, especialmente os pobres, precisa ter direito ao prato regional, à novidade do masterchef, à pizza com coxinha ou mesmo ao imbatível arroz com feijão.

Eles precisam de nutrientes, não passar fome, serem transformados em números de programas de governo e nutridos por compostos orgânicos para, sem dignidade, serem transformados em estatísticas.

Para aquela parcela da população que acha lindo andar de metrô em Paris e Londres, mas que em São Paulo se desloca apenas em suas SUVs, dizendo que transporte público é coisa para pobre, o raciocínio deve fazer todo sentido. Afinal, para pobres, doentes, presos e crianças, o que importa é nutrir o corpo, biologicamente falando, ainda que as mais recentes pesquisas na área de nutrição destaquem justamente a nutrição emocional - a comida como cultura. "É melhor do que ir pro lixo, não é?"

Não, não é. O melhor é baixar o absurdo desperdício de alimentos no Brasil, que está atualmente na faixa dos 30 a 40%. Ou seja, de cada dez bananas produzidas no País, três ou quatro vão para o lixo sem serem consumidas.

É criar políticas públicas de distribuição de renda, para que todos possam escolher a sua própria comida, sem precisar de ração; é proporcionar educação alimentar nas escolas, para que os brasileiros aprendam a diminuir as porções e a aproveitem melhor todo alimento.

O melhor é também ensinar as pessoas que, para comer bem, basta seguir as simples recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira do Ministério da Saúde, divulgado em 2014: comida deve ser simples, regional, barata. Deve respeitar tradições, nutrir corpo e mente.

Ter direito à alimentação digna e diversificada é direito humano básico, muito pouco respeitado. Vivemos entre a super abundância alimentar da alta gastronomia e a miséria das 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo todo.

O dado é sério, mas não basta combater a fome por meio de calorias; é preciso fazê-lo olhando nos olhos, alimentando o corpo e o espírito das pessoas. Respeitando suas tradições e gostos. Na falta de base para entender algo tão básico, uma lida no inesquecível Geografia da Fome do grande Josué de Castro já seria de enorme valia para nossos governantes.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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