OPINIÃO

A Miss Canadá, a Vogue e o controle dos corpos das mulheres

Tanto controle dos corpos tornou a maioria de nós incapazes de aceitar o fluxo da vida e, assim, a aceitar o nosso próprio corpo.

03/02/2017 22:37 -02 | Atualizado 05/02/2017 22:24 -02
NOEL CELIS via Getty Images
Miss Canada Siera Bearchell foi criticada por estar "fora do padrão" das misses no Miss Universo deste ano

Eu tinha cerca de 12 anos quando assistiE o vento levou pela primeira vez. Fiquei apaixonada pelo filme, que acabei vendo várias outras vezes. Uma cena, particularmente, me impactou bastante: Mammy (Hattie McDaniel), a babá de Scarlet O'Hara (Vivien Leigh), colocando um apertado espartilho na mocinha (ainda) rica sulista e ensinando-a a "comer como passarinho" na frente dos homens.

Para uma menina com alguns quilos a mais na entrada da adolescência, a cena foi forte e se juntou ao imaginário onde já habitavam os corpos incríveis das super topmodels do começo dos anos 90, como Cindy Crawford, as capas de revistas com atrizes sempre magras e outras imagens de mulheres altas e muito magras. E que sempre precisaram ser assim para serem bonitas e agradarem os homens, como Scarlet O'Hara. No ano seguinte eu faria meu primeiro regime e desceria ao inferno várias vezes ao longo da vida por causa do meu peso, da minha imagem e, claro, do meu corpo.

Hoje, aos 41 anos, sinto um certo desespero ao ver que quase nada mudou nas representações da mulher na mídia. Dominadas pelo padrão da magreza obsessiva, vejo amigas lindas reclamando o tempo todo que precisam emagrecer, jovens alunas que confessam ter vivido os horrores da bulimia e da anorexia desde muito cedo, ouço conversas aleatórias de mulheres sempre falando das blogueiras fitness da moda e eu mesma, claro, reclamo constantemente do corpo que tenho e que já pariu um filho, inclusive.

Assim, não me causou qualquer espanto a infeliz fala de um apresentador de TV sobre a Miss Canadá, Siera Bearchell. Graças ao corpo que não obedecia a magreza esperada de uma miss (porque ainda existem concursos de misses é pergunta para outro texto) e que ela teria sido classificada para o Miss Universo, no último dia 29 de janeiro, apenas para "cumprir cotas". O apresentador não disse quais cotas, mas todo o universo sabe que ele se referiu às gordas.

Siera declarou no Instagram que ela se sente bem com o corpo que tem hoje e que desistiu de passar fome e se maltratar para "ser magra como uma miss" logo após vencer a etapa do seu país do concurso. As declarações de apoio à canadense e de repúdio às críticas que ela sofreu mostram alguma esperança no futuro, mas ainda precisamos avançar bastante para que mais mulheres se sintam donas do próprio corpo e parem de sofrer por causa de números de manequins de roupa, por exemplo.

O corpo obrigatoriamente magro da mulher é uma das mais eficientes estratégias de biopolítica já criadas pela humanidade. E das mais cruéis. Biopolítica, segundo o filosófo Michel Foucault e explicando de forma muito, muito simples, é a política do controle dos corpos e, portanto, dos indivíduos. Corpos em vários aspectos: na sexualidade, no tamanho, nas doenças. E não há melhor meio de calar as mulheres do que obrigá-las desde sempre a se preocuparem com todo alimento que levam à boca e ao ganho de peso que comer pode ocasionar. Porque às mulheres não é dado o direito de comer naturalmente; é preciso comer pouco, especialmente em público. A cena de E o vento levou se desdobra nos diversos tipos de distúrbios alimentares que levam mulheres a comer muito e depois vomitar, sempre escondidas do mundo.

Também não me causou espanto ver a capa da revista Vogue de fevereiro de 2017 mandando seu público fechar a boca: "Boca fechada: o jejum volta com força como receita para viver mais e entrar em forma". Numa revista de moda muitas vezes um corpo é apenas um cabide para uma roupa e ser magra é uma questão de vida ou morte. Qual é o impacto que essa chamada ainda causa num público consumidor predominantemente feminino como o de Vogue? Muito, muito grande. Não é de hoje que a Vogue se envolve em polêmicas sobre jejum. Em 2013 matéria da revista intitulada "Comer pra quê? Fazer jejum está na moda. Saiba mais sobre a dieta da vez" causou comoção na internet e o veículo teve que se explicar. A nova chamada quatro anos depois é um exemplo de como essa cultura ainda precisa mudar.

Hoje há mais contestação dos ideais de controle do corpo feminino em movimentos que pregam #bodyindependence, o #bodyfree e #bodypositive, entre outros. Mas o caminho é árduo e longo. Enquanto formos julgadas, como ainda somos pelo tamanho do nosso manequim e enquanto nos subtermos a fomes e torturas para termos um corpo que deve agradar os outros e não a nós, é preciso ficar atentos a todos esses movimentos da mídia. Para que as meninas dos próximos anos não tenham a auto imagem tão distorcida como as meninas da minha geração. Afinal, por mais que saibamos de tudo isso, ainda nos torturamos com aquela mudança de corpo, aquele manequim que aumentou um pouco e aquela foto de 20, 15 anos com alguns poucos quilos a menos. Tanto controle dos corpos tornou a maioria de nós incapazes de aceitar o fluxo da vida e, assim, a aceitar o nosso próprio corpo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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