OPINIÃO

'A Chegada' é um filme sobre como viver é doloroso, mas belo mesmo assim

30/01/2017 13:20 -02 | Atualizado 31/01/2017 22:03 -02
Divulgação

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers do filme A Chegada

O audiovisual costuma nos vender a ideia da felicidade suprema, aquele momento que compensará todo o resto: o casamento perfeito e o nascimento do filho há muito esperado. O que os filmes não contam é que ao pinçarem esses grandes momentos, deixam de lado questões complexas: o casamento terá crises inevitáveis e muitas e muitas vezes o casal se perguntará o que faz naquele relacionamento; o filho amado ficará acordado de madrugada, rendendo intermináveis horas de solidão e desespero para os pais. Nada disso apaga os momentos felizes; aliás, são os contrapontos que engrandecem e fazem valer a pena a experiência. Mas não há conto de fadas nesses momentos felizes e nem constância. A vida é dura, complicada e cheia de percalços. E não menos bela por causa disso.

Entretanto um dos grandes motores de produção de repertório mundial, o cinema padrão de Hollywood, nos acostuma ao linear, ao começo, meio e fim e aos sentimentos sem dubiedade - e esse padrão impacta mais nossas vidas do que ousamos admitir. Por isso quando os sentimentos não são planos, e a história foge da linearidade de "um dia sua filha se casará e você perceberá o quanto a ama" ou o tradicional "e viveram felizes para sempre", estranhamos. Combatemos. E nos perguntamos porque diabos acreditamos na linearidade e previsibilidade dos finais felizes e eles teimam em não acontecer. Pior ainda, hoje parece que só a nossa existência não é linear e plena, pois em tempos de redes sociais, o vizinho sempre é belo e feliz.

Todas essas reflexões, que já fazem parte dos emaranhados da minha mente/alma, vieram com força depois que assisti com um certo atraso o filme "A Chegada", que parece ficção científica, mas não é. Seria mais indicado chamar a obra de uma discussão sobre vida, escolhas, acolhimento, destino - este último no sentido mais trágico e belo possível, com toques de teatro grego.

Por que escolher a dor quando nos é dado o conhecimento para fugir dela? Por que ir ao encontro do destino trágico? Por que contar o tempo linearmente, se temos pelo menos mais duas dimensões de vida (psíquica e espiritual, sendo a última passível de dúvidas, mas não a primeira) em que ele não é linear? Por que fugir da morte de modo tão contumaz como fazemos no mundo ocidental, se ela é a única certeza que temos?

Todas essas perguntas e muitas outras vêm à mente no final do longa. Se há um modus operandi hollywoodiano na narrativa, quando a heroína norte-americana salva o mundo e evita a catástrofe de todos, há que se observar que não é um modo comum. A heroína é mulher e não usa socos e pontapés nem armas na sua missão; o instrumento é o estudo da linguagem e, pasmem, a tão desacreditada comunicação. E apenas quando ela se mostra como indivíduo aos seres de outro planeta começa a ser estabelecido um processo comunicativo. Em cena que lembra clássicos como Alien, o oitavo passageiro (Ridley Scott, 1978), as mãos que se comunicam pelo vidro mostram a necessidade de presença, curiosamente algo tão sublimado nas redes sociais.

Além da linguista Louise Banks, maravilhosamente interpretada por Amy Adams, o outro protagonista do longa é justamente o processo comunicativo. Os heptapods, que dominam um avançado e complexo sistema de linguagem, mostram saber de antemão que seria difícil o processo de estabelecer comunicação com os humanos. Não é para menos. Ao longo deste eixo principal, vários exemplos de guerras e conflitos que aconteceram por falhas de comunicação, por falta de espírito de acolhimento, por excesso de individualismo, são mostrados na narrativa. Tanto que o único momento de confronto com tiros é fruto do ódio cultivado em jovens por comentaristas de internet exaltando suas opiniões de que "devemos atacar antes que eles nos ataquem". Qualquer paralelo com o mundo xenófobo e intolerante em que vivemos não é mesmo por acaso.

Fica evidente que se o diretor Denis Villeneuve teve que se render ao orçamento de U$ 47 milhões e a uma sala cheia de donos do dinheiro que buscam resultados financeiros, no desenvolvimento do roteiro ele consegue dar giros nessa roda da fortuna - como fazem grandes diretores de cinema quando enfrentam adversidades. OK, vamos ter a grande revelação que impactará o público, vamos ter alguém salvando a humanidade e esse alguém será norte-americano, mas a dor permanece. A heroína nunca será feliz. Ela escolheu viver momentos de extrema felicidade, mesmo sabendo que a maior dor lhe espera no futuro. E ela ousou acolher essa dor, vivê-la intensamente, sem nada mudar. Optou não pela felicidade hollywoodiana, mas pela felicidade das pequenas coisas, do cotidiano.

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Louise Banks (Amy Adams) e a nave dos heptapods, como são chamados os aliens em A Chegada

E o que são os relacionamentos se não essas pequenas felicidades? Momentos de intensa felicidade, mas com roteiro de fim previsível: haverá rompimento, morte, mudança. Finitude. Só vive intensamente quem aceita que a dor acompanha a nossa jornada e que a morte virá. Como ensinavam os celtas, que não por acaso foram praticamente dizimados pela religião cristã, é preciso que a morte acontece para que haja o renascimento na natureza. A morte é natureza viva, não personificada em nada, nem em ninguém. Ela faz parte do viver e movimenta o mundo, num tempo que nada tem de linear e nem de óbvio.

Nessa não obviedade, um destaque: a protagonista, doutora em linguística, começa uma aula falando das origens da língua portuguesa. Que curiosa relação: a única língua que tem uma palavra para saudade, o sentimento que Louise sente o tempo todo sem saber bem do que se trata, é citada no início do filme.

Costuras de roteiro como essa são primorosas no filme, que flui num ritmo lento, tão semelhante ao nosso cotidiano, embora se passe na constante tensão de uma guerra iminente de escala interplanetária. Um belo equilíbrio conseguido pela direção.

Solaris (Andrei Tarkovski, 1972), Contato (Robert Zemeckis, 1997), 2001 - Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968), Blade Runner (Ridley Scott, 1982) e A Chegada (Denis Villeneuve, 2016) são bons exemplos de que a ficção científica se assemelha mais a uma ficção psíquica, tão dedicada que se mostra a entender a nossa dimensão humana e, principalmente, nossa relação com a finitude que nos é inescapável.

O conflito, a revelação, a luta, são partes do roteiro, necessidades do objeto comercial que é um filme rodado em Holywood. Há mais ali, de artístico e de relevante para o público que se deixa enredar por essas narrativas. Afinal, somos seres narrativos, vivemos por e para elas. Combatemos a morte vivendo e contando histórias E costumamos preferir a dor a não viver essas histórias plenamente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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