OPINIÃO

Os bebês moralistas de Paul Bloom

08/08/2014 16:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02
Reprodução

O polêmico psicólogo canadense, autor de um livro em que tenta explicar "porque gostamos do que gostamos" e de um outro que investiga "como o bem e o mal nascem" já na mente das crianças, estará no Brasil este mês. Abaixo, em um artigo que escrevi para o programa do "Fronteiras do Pensamento 2014", tento explicar por que deveríamos prestar atenção no que ele diz.

O que faz de Paul Bloom um dos ensaístas mais relevantes e provocativos da atualidade é a sua capacidade de retomar velhas e boas perguntas da filosofia, colocando-as em uma perspectiva multidisciplinar construída a partir da sua bem ilustrada incursão pelos mais diversos campos das ciências humanas.

Vale, no entanto, justificar melhor o qualificativo "ensaísta" que acabo de atribuir a ele. Ex-professor de Psicologia da Universidade do Arizona e atual titular da cadeira de psicologia da Universidade Yale, Bloom é mais conhecido pelas suas contribuições acadêmicas às ciências cognitivas. Quer dizer, a princípio, ele está mais para cientista do que para ensaísta.

Nascido de uma família judia em Montreal, no Canadá, Bloom é graduado em psicologia pela Universidade McGill. Optou por essa disciplina por ter, desde muito jovem, trabalhado como voluntário em programas de desenvolvimento de crianças autistas.

Ou seja, desde cedo se envolveu com o trabalho de campo, o laboratório. Essa primeira experiência o fez supor que acabaria em uma clínica como terapeuta infantil. Ainda na graduação, Bloom conheceu John Macnamara (1929-1996), lendário professor do Departamento de Psicologia daquela universidade, conhecido pelo seu catolicismo altruísta e também pelos seus estudos que exploram as interfaces entre filosofia e psicologia.

Já nas suas pesquisas de pós-graduação, realizadas em grande parte no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), nos Estados Unidos, sob a orientação de Susan Carey, especialista em formação da linguagem das crianças, Paul Bloom começou a se aproximar da obra de Steve Pinker, outro canadense notável por relacionar a psicologia às demais ciências humanas, em especial a Linguística.

Não pretendo aqui avançar em dados biográficos. Os registros acima são apenas para apontar a filiação de Bloom. Sua proximidade com Macnamara e Pinker influenciou não apenas a definição de seus objetos de estudo (desenvolvimento infantil, origens dos princípios morais, origem das ideias, origem da linguagem, dualismo, arte e ficção), como também o ferramental (ciências cognitivas e sociais, linguística, teologia e, claro, filosofia - mais especificamente filosofias da mente) que usa para investigar esses objetos.

Além da pluralidade dos interesses e da multidisciplinaridade, Bloom também compartilha com esses dois autores a preferência por um estilo de escrita que não requer formação especialista do leitor. Aborda temas áridos, como, por exemplo, a questão da distinção moral nos bebês, com uma linguagem clara e engajadora, sem, no entanto, negligenciar demasiadamente o rigor acadêmico.

O resultado é uma obra mais pontuada por insights do que propriamente por teses e demonstrações. Daí a atribuição do termo "ensaísta" como tentativa de descrever com alguma justiça a sua obra.

Há algo mais herdado de Macnamara e Pinker: como eles, Bloom também é tributário do pensamento empírico do século XVIII, em especial de John Locke e David Hume. Serem tributários não significa estarem em concordância com as teses defendidas pelos dois empiristas. Significa, isto sim, revisitarem problemas e questões formuladas por eles. Por exemplo, no caso de Locke, os três - Macnamara, Pinker e Bloom - retomam a metáfora da "folha de papel em branco", e a partir dela derivam boa parte de suas investigações.

Apenas para lembrar, a metáfora da "folha em branco" foi usada por Locke como argumento cabal de que não pode haver ideias inatas. Para o filósofo inglês, inicialmente, a mente é limpa como uma folha de papel, limpa e lisa como uma tabula rasa, para recuperar a origem latina da metáfora.

Veremos adiante como Bloom vai se contrapor a essa tese de Locke para construir aquele que talvez seja o seu livro mais significativo, a saber, "Descartes' baby: How the science of child development explains what makes us human" (2005), ainda inédito em português.

Antes, porém, voltemos à dívida que Bloom tem com o empirismo. Se no caso de Locke a dívida é pontual, como assinalei acima, no caso de Hume ela é mais genérica e diluída.

Ora, a interface - há quem prefira o termo confusão - entre filosofia e psicologia atinge o seu ponto culminante justamente na obra de David Hume. Não há tema da psicologia tal como a conhecemos hoje que não esteja, de uma forma ou de outra, considerado ou pressuposto em seu Tratado da Natureza Humana (1739). Ao formular a sua "ciência do homem", Hume descreve uma geografia mental nunca antes vista em filosofia. Primeiro, desvenda o modo pelo qual chegamos ao conhecimento (Do entendimento). Depois, explica como nascem e agem as paixões e os sentimentos (Das Paixões). E, por fim, estipula de onde derivam os princípios morais (Da Moral). Na base de tudo, aponta o filósofo escocês, está a experiência. Nada existe a priori como queriam os modernos. Tudo é impulsionado pelos cinco sentidos, e a vida mental resulta, no final das contas, das sensações que o nosso corpo experimenta. Ideias inatas, só na cabeça de Platão ou Descartes. E, o mais chocante de tudo isso: "A razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões, e não pode aspirar a outra função, além de servir e obedecer a elas". Desse modo, estabeleceu-se a primazia das paixões como determinantes das ações humanas. Em consequência, a moral e a estética não podem ser guiadas pela razão. Quem as guia são os sentimentos e o gosto. O prazer e o desprazer são, de fato, os grandes formuladores de nossa vida mental. E o gosto funciona tanto como operador estético quanto moral, isto é, é pelo gosto que eu julgo o belo; é por ele também que eu julgo o bom.

São essas as formulações que até hoje alicerçam o que compreendemos por filosofias da mente. São elas que, acrescidas das novas descobertas das neurociências e da biologia, ainda reverberam na produção das atuais cátedras de psicologia.

É este o contexto que devemos considerar ao ler Paul Bloom. Tomemos, por exemplo, o seu livro "How pleasure works - The new science of why we like what we like" (2010). Ao se propor a explicar como funciona o prazer e como este determina o nosso gosto - tanto quanto o desprazer determina o nosso desgosto -, Bloom não avança muito em relação à argumentação fundamental de Hume, segundo a qual o prazer funciona a partir das sensações (os cinco sentidos) em articulação com outros princípios da natureza humana, como a simpatia e a imaginação. É, em suma, uma fonte da ação humana. Ainda em Hume, o prazer físico é mais facilmente observável e explicável, enquanto o mental é mais difícil de ser descrito. Bloom diz que este seu livro é "sobre prazeres muito mais misteriosos" e exclusivamente humanos. Claro, ele está se referindo aos prazeres da arte, da música, da ficção e da religião, prazeres estes que, observa ele, os animais não sentem. Ele vai especular, por exemplo, por que sentimos prazer diante de um original de Vermeer; e desprazer se sabemos que se trata de uma cópia. E vai concluir que, no caso do prazer, o que importa no fundo não é apenas aquilo que se apresenta aos nossos sentidos, mas o que pensamos ser aquilo que se nos apresenta.

Mesmo que essas conclusões não mostrem grandes evoluções em relação ao pensamento do século XVIII, os insights que Bloom vai destilando ao longo da obra vão costurando novas possibilidades para a reflexão estética e moral. Um desses insights é a sugestão de que a dependência que temos da informação para desfrutar o prazer em sua plenitude é, para Bloom, um artifício inteligente da natureza humana para nos proteger do prazer destrutivo. Por exemplo, se comemos carne, imediatamente nossa mente nos leva a procurar saber de que carne se trata. Por quê? Ora, isso nos impede de sentir prazer comendo carne humana. Ou seja, o prazer tem em si mesmo um mecanismo que nos protege socialmente. Desse modo, Bloom estabelece uma relação entre prazer e sobrevivência, sendo a função do prazer motivar alguns comportamentos que são bons para o refinamento e o fortalecimento dos nossos genes. No caso do livro Descartes' baby, que, como mencionei acima, é a obra mais provocativa e relevante de Bloom, o empirismo também aparece como pano de fundo da argumentação, mas aqui o autor se coloca em oposição a Hume e principalmente a Locke.

A tese central do livro é a de que somos dualistas por natureza. Quando bebês, instintivamente, dividimos o mundo entre objetos físicos e estados mentais. Segundo Bloom, o bebê não estranha que uma pessoa se mova, mas ficaria absolutamente surpreso se um objeto, uma mesa, começasse a se mover. Essa distinção que naturalmente fazemos desde bebês entre coisas e pessoas nos leva à convicção que se consolida na vida adulta de que corpo e mente são entidades distintas. Assim, vamos criando a noção de que objetos se movem por princípios físicos e pessoas por princípios emocionais.

O título do livro refere-se, evidentemente, ao dualismo corpo-mente de René Descartes (1596-1650), mas a argumentação de Bloom se baseia no que ele chama de dualismo do senso-comum, que nada mais é senão essa inclinação natural que temos desde a mais tenra infância para ver o mundo de modo material e imaterial.

Bloom vai extrair dessa argumentação consequências surpreendentes, entre elas a ideia de que os bebês podem ler emoções e responder a elas. Elencando uma série de pesquisas de campo, um método recorrente na sua forma de construir suas teses e tirar suas conclusões, Bloom tenta demonstrar que diante de pessoas ou animais de comportamento condenável (vício), as crianças reagem de modo reprovativo, sabendo aprovar comportamentos louváveis (virtude).

Ora, se é assim, conclui ele, então as crianças podem fazer distinções morais, sabem diferenciar o mal do bem - essa tese, aliás, está aprofundada no seu mais recente trabalho, o livro "Just babies: The origins of good and evil" (2013), no qual ele tenta demonstrar que as ideias morais são inatas.

Ao comentar Descartes' baby, Susan Goldin-Meadow, professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago, escreve: "Bloom faz um trabalho notável para ilustrar os modos pelos quais manipulamos nosso dualismo. Somos capazes de ver o mesmo objeto como parte tanto do mundo físico quanto do mundo mental. Pensamos de forma diferente sobre uma pintura de Vermeer e uma outra pintada para parecer um Vermeer. Julgamos não apenas o objeto físico, mas também o ato criativo que deu origem ao objeto, um ato que está intimamente ligado aos objetivos do criador. Por essa razão é que vemos uma coisa como sendo mais que a coisa. Mas nós podemos também ver uma pessoa como sendo menos de uma pessoa".

O que a comentadora está dizendo é que o dualismo dos bebês, supondo que seja mesmo uma capacidade natural, não permanece isolado por muito tempo. Ele interage com a cultura que cerca o bebê ou a pessoa em formação. Imagine, por exemplo, que essa cultura trate pessoas como objeto - ou vice-versa, em um caso extremado -, isto é, supondo que haja culturas que tendam ao não dualismo, que tipo de adulto estaríamos forjando? Bloom, como nota a própria comentadora, não chega ao ponto de fazer diretamente essa ilação. Mas está aí a força de sua obra: a capacidade de levar o leitor a fazer perguntas que, quando tentamos respondê- las, nos levam providencialmente a uma compreensão mais refinada e rica da natureza humana. Não se pode esperar mais de um bom ensaísta.

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