OPINIÃO

Como você lida com a derrota?

10/02/2014 17:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
David Gray/Reuters

O melhor jeito de lidar com a derrota é, evidentemente, não perder nunca. Mas isso não rola. Mais cedo ou mais tarde, você perde: como jogador (amador ou profissional), como torcedor (de qualquer esporte), como simpatizante ou defensor de uma causa política, uma ideologia, como cônjuge, como amante, como profissional. Não tem jeito. Uma hora a casa cai. E aí, o que você faz?

Será que é mesmo possível tirar lições edificantes da derrota? Ou isso é mais um prêmio de consolação, papo para boi dormir? O que você, afinal, aprende com a derrota?

Vejamos o meu caso. Por exemplo, no tênis, tenho preferência pelo Nadal e a derrota dele no final do Aberto da Austrália, mês passado, me causou desprazer, deixando-me triste e cabisbaixo. No futebol, torço para o São Paulo e a recente vitória do Palmeiras sobre meu time me deu vontade de quebrar a televisão. Jogo tênis amadoristicamente e a última derrota que sofri me deixou tão desnorteado que passou pela minha cabeça quebrar a raquete... na cabeça do adversário. Fui fragorosamente derrotado no último debate político-ideológico em que me envolvi, o que fez com que uma dose enorme de suco biliar se espalhasse por todo o meu corpo.

Mas o fato é que o sofrimento e a tristeza pela derrota do Nadal não me levou à depressão. Não destruí a TV por causa do golaço do Valdívia em cima do Rogério Ceni. Também não arremeti minha raquete contra o cimento (jogo sempre em quadras duras) e tampouco a arremeti contra a cabeça do adversário que me derrotou, até porque, elas, as raquetes, custam muito caro e eu só tenho três. Por fim, a bílis que me inundou devido à derrota no debate político-ideológico acabou, em poucas horas, afastada pelo doce sabor do espírito democrático.

Quer dizer então que eu sei perder?

Não! Quer dizer apenas que eu adquiri um comportamento padrão diante das derrotas.

Quer dizer também que o meu entendimento e a minha razão são bons escravos das minhas paixões, evitando (ao menos até agora) que elas saiam de controle, impedindo que as frustrações geradas pelas derrotas durem mais do que têm de durar, ajudando a transformar tais frustrações em impulsos para a busca de vitórias.

Mas as paixões não são justamente aquilo que em nós não tem freio?

Como, então, controlar esses impulsos viscerais? Como não invadir o CT do nosso clube para esganar o desgraçado do atacante que perdeu um gol que até eu faria com os pés nas costas? Primeiro, é preciso distinguir paixão de bandidagem. O caso da invasão do CT do Corinthians é da ordem do oportunismo e não da ordem dos sentimentos feridos. Feita essa ressalva, vejamos, ainda que grotescamente, como operam as paixões, pois são elas que regem nosso amor por um clube de futebol, nosso amor pela prática de um esporte, nosso amor na filiação a um partido político, nosso amor por uma ideologia, nosso amor por uma profissão, o nosso amor pelas artes, o nosso amor pelos amigos.

Para começo de conversa, as paixões são uma das cinco faculdades da mente, de acordo com a descrição da natureza humana feita pelo filósofo escocês David Hume. As outras quatro são a razão, o entendimento, os sentidos (aqueles cinco) e a imaginação.

As paixões se constituem de emoções, sentimentos e desejos. Elas derivam das nossas experiências de prazer e dor. Ao longo da História da Filosofia, as paixões adquiriram a péssima fama de só servirem para nos escravizar. O sexo é uma paixão; eu posso me tornar escravo dele; do jogo de azar também.

A razão, em contraponto, ganhou a fama oposta, ficando conhecida por ser uma luz reta e libertadora. Eu controlo, pela razão, o quanto faço de sexo e o quanto me sento numa mesa de jogo.

Hume virou esse jogo, declarando que as paixões são as verdadeiras motivadoras das nossas ações. E afirmou que a razão não passa -- e não deve passar mesmo -- de mera serviçal das paixões. Por fim, Hume inverteu o status das paixões, tirando delas a pecha de demônio escravizador e conferindo-lhes um naturalismo jamais visto antes.

As paixões se articulam com as demais faculdades da mente em um jogo fascinante.

Esse jogo se dá entre dois tipos básicos de paixão: as calmas (o sentimento do belo e do feio que temos nas ações, nas artes e nos objetos externos em geral) e as violentas (o amor, o ódio, pesar, alegria, orgulho e humildade).

As paixões violentas tendem a escapar do nosso controle. Mas está em nosso poder decidir quais livros leremos, que filmes veremos, que quadros apreciamos, em que diversões tomaremos parte e quais serão nossos amigos.

No jogo das paixões, o exercício dos sentimentos calmos ajuda a aplacar a severidade dos emoções.

Há ainda, outro aspecto decisivo nesse tabuleiro: a tensão entre as paixões predominantes e as paixões subordinadas. Muito ciúme (paixão subordinada) extingue o amor (paixão predominante). Mas o ciúme na dose certa revigora o amor.

Se a grande maioria das derrotas que sofremos na vida tem origem ou estão ligadas às nossas paixões, lidar bem com elas, as derrotas, significa jogar bem o jogo das paixões. Mas como jogar bem este jogo?

Significa estabelecer equilíbrio entre as paixões calmas e as paixões violentas; entre as predominantes e as subordinadas. O problema é que o equilíbrio não depende só da nossa vontade, mas também do nosso contexto social e cultural.

Afinal, como evitar que o amor pelo nosso clube se transforme em fanatismo suicida se só a camisa da organizada me dá o sentimento de pertencimento? Como evitar que a nossa paixão política caia no fla-flu fundamentalista se não temos o hábito da conversação, do debate, da argumentação? Como fazer com que o amor seja temperado pelo ciúme vivendo em estado de indiferença e embotamento afetivo?

Voltando ao nosso ponto de partida, como é mesmo que você lida com a derrota?

Vejamos o meu caso, bem... Desfruto do sofrimento que a derrota traz, sem, no entanto, me acostumar a ela.