OPINIÃO

Eu fui criado pela internet (ou: sobre compartilhar sua vida com todos e ninguém ao mesmo tempo)

25/04/2014 07:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
Tetra Images via Getty Images

Seu eu fosse tão bom em expressar meus sentimentos quanto sou em não atender o telefone, hoje eu estaria casado.

Eu tuitei isto outro dia como piada. Foi inspirado em um amigo que ficou me telefonando para discutir detalhes que poderiam ter sido facilmente enviados em mensagens de texto. Eu nunca pretendi me tornar um idiota em 2014, mas claramente foi o que me aconteceu.

Eu não havia pensado muito sobre isso até que entrevistei um sujeito que ganha um dinheiro decente masturbando-se na Internet (chama-se camming). Assim como eu, Jefe (não é seu nome real, porque quem daria o nome de Chefe para seu filho?), cresceu com a Internet. "Ela basicamente me criou", diz ele. A rede teve um papel tão vital em sua vida que hoje ele trabalha escrevendo código em casa, longe das interações sociais cotidianas. Isto é, quando não está ganhando dinheiro mostrando seus dotes.

Ao longo da entrevista, percebi que nós dois na verdade temos muito em comum. Seu trabalho, tanto codificando quanto se masturbando, é feito sozinho, em seu apartamento, por ele mesmo. Eu sou um redator/comediante; a única interação social real que tenho é quando faço uma entrevista ou sociabilizo fora do palco, de outro modo estou protegido atrás de uma tela ou de um microfone. Nunca pensei em por que faço o que faço, por que detesto me comunicar verbalmente com outras pessoas, até que conversei com Jefe sobre por que ele se masturba online.

"Naturalmente, sou introvertido, não sociabilizo muito, vivo sozinho, por isso acho que é bom para mim. Me ajudou muito em meus relacionamentos na vida real. Hoje eu posso conversar normalmente, o que nunca conseguia fazer, só ficava olhando fixo de modo esquisito. Eu cresci um nerd de computador, um garoto retraído, o patinho feio. Por isso o camming realmente me ajudou."

Como Jefe, que também tem 30 e poucos anos, eu cresci um nerd de computador, como muitos garotos de nossa geração. Pergunte a qualquer pessoa entre 28 e 40 anos quando ela entrou na Internet e ela o corrigirá: "Você quer dizer quando entrei na AOL?". Um adolescente na época, eu usava basicamente a AOL para duas coisas: bate-papo e pornografia, em geral batendo papo sobre pornografia. Online, eu conseguia ser eu mesmo, ou qualquer versão de mim mesmo que eu quisesse ser naquele dia. Passava horas falando, pesquisando e aguardando desesperadamente que imagens de nus se carregassem. A solidão da adolescência parecia mais suportável online; pelo menos eu tinha TubThumper13 para conversar depois da escola.

Conforme a tecnologia avançou, eu envelheci e avancei com ela de muitas maneiras, mas de outras deixei que ela me retraísse. Todo o formato da vida como costumava ser mudou, desde nosso modo de escutar música (ou melhor, comprar) ao de namorar. Algumas pessoas conseguiram encontrar o equilíbrio entre o mundo real e o mundo online, mas eu não. A liberdade da separação tornou-se intoxicante; eu precisava da privacidade, mesmo que acabasse em uma profissão que tem tudo a ver com compartilhar. Vi meus amigos se casarem e terem filhos, mas continuei online, lendo, assistindo, escrevendo, mas principalmente me masturbando.

Hoje com 31 anos, vejo que minha vida inteira passou atrás de uma tela ou uma plataforma social. Consegui transformar minha vida online em uma profissão, usando minha voz em ensaios, entrevistas, esquetes e no Twitter (é claro). "Um modo de ganhar a vida assistindo pornografia", escreveu Jefe em nossa primeira troca de e-mails. Ele está mais ou menos certo. Eu fiz uma "carreira" vivendo online, até compartilhar minha experiência ao ser diagnosticado com câncer e passar por quimioterapia.

A Internet nos fez viver em um estado de constante potencial masturbatório. Será que sabemos qual é a sensação de ser curioso? Não, porque tudo o que precisamos fazer é colocar "nu" em uma busca no Google. Não é apenas pornografia, são todas as listas sem sentido que você lê, ou jogos de perguntas que faz, aquele #selfie que você tinha de compartilhar, o Tumblr que você reblogou. Estamos nos forçando a um desenvolvimento digital contido, a ponto de alguém como eu ficar frustrado porque uma das pessoas mais importantes da minha vida teve a ousadia de me telefonar. O que eu estava fazendo quando ele ligou? Provavelmente Twitter, ou Facebook, ou Instagram, ou qualquer outra coisa menos importante que uma conexão com um ser humano real. Alguns consomem (eu mesmo), outros compartilham (Jefe), e se não encontrarmos maneiras de deixar essa distração realçar nossas vidas, nos aperfeiçoar, nos transformaremos em idiotas em 2014.

Os benefícios interpessoais da vida real que Jefe extraiu do camming é um ótimo exemplo de usar uma distração para melhorar sua vida pessoal. Como Jefe, eu passei a maior parte da vida escondido atrás da tecnologia, e afinal encontrei uma maneira de usá-la para beneficiar minha vida, especialmente quando ela estava ameaçada. Mas não vou me masturbar diante da câmera -- não sou tão atraente quanto Jefe, nem tão flexível, e tenho certeza de que as pessoas me pagariam para continuar vestido. Eu também me recuso a julgá-lo, porque quem sou eu, ou você, para julgar alguém que assume a responsabilidade pessoal por sua própria vida, vivendo-a do modo que escolheu? Eu considero o exemplo que ele dá: que, ao fazer o que nos torna inicialmente desconfortáveis, como masturbar-se diante da câmera (isto é, permitir-se ser vulnerável), você se permite crescer de maneiras inesperadas. Algumas vezes esse crescimento é interpessoal, em outras é um tipo especial de crescimento... lá embaixo.

Não quero desistir da tecnologia, é uma parte da minha vida, parte de quem eu sou. Jefe colocou da melhor maneira: "Mark Zuckerberg fez um enorme favor à nossa geração socialmente contida, ao substituir aspectos mais arcaicos dos relacionamentos interpessoais por um botão 'Curtir'". Dito isso, eu quero utilizá-la para ser uma pessoa completa. Se isso significa pensar fora da caixa, e talvez colocar um pouco da velha tecnologia na mistura, como um telefonema, bem, há algo muito incrível aí. Por isso, na próxima vez em que você enviar uma mensagem para seu amigo, considere telefonar para ele, ou pelo menos se comunicar por vídeo. (Roupas são opcionais, certo, Jefe?)

H. Alan Scott é um escritor e comediante que vive em Nova York e Los Angeles. Este post foi publicado originalmente em Thought Catalog, com o qual ele colabora.