OPINIÃO

Será necessário mais que solidariedade para derrotar a ameaça terrorista

24/03/2016 13:47 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
REUTERS/Vincent Kessler

Até agora, tínhamos sido poupados de um grande ataque terrorista em solo belga. Infelizmente, os eventos de 22 de março mudaram essa situação de forma abrupta. Bruxelas agora entra para a crescente lista de cidades europeias que foram alvos de atentados com grande número de vítimas: Madri, Londres e Paris.

Mas a carnificina desta semana não foi somente um ataque contra a Bélgica. A estação Maalbek do metrô, onde tantos homens, mulheres e crianças inocentes morreram, é um ponto chave na malha de transporte europeu.

Sabemos que pessoas de pelo menos 40 nacionalidades diferentes foram atingidas nos ataques. Foi um atentado no coração da Europa.

Mais que nunca, está claro que enfrentamos um desafio europeu. Se quisermos derrotar aqueles que querem nos atingir, manifestações populares e pedidos de solidariedade não serão suficientes; precisamos de uma ação europeia coletiva para melhorar a segurança e promover ações anti-radicalização eficientes em toda a Europa.

Se quisermos ter sucesso, primeiro temos de reconhecer a escala dos desafios que se nos impõem, atacando as raízes desses ataques. O que leva nossos jovens a querer se explodir em nossos aeroportos e estações de metrô?

Sabemos que as células terroristas modernas são bem organizadas, muito móveis e autônomas. Elas podem não ter um comando central, mas todas são inspiradas pelo chamado Estado Islâmico. Enquanto o EI e sua ideologia distorcida continuarem a florescer, seus agentes seguirão tentando recrutar e treinar jovens europeus vulneráveis, e nunca estaremos plenamente seguros.

Está claro que em toda a Europa temos de fazer mais para compartilhar melhores práticas e conhecimentos a fim de acabar com essa radicalização. Também temos de fazer muito mais para melhorar a integração e atacar a pobreza e o desemprego prevalecentes em tantas comunidades. É muito mais fácil recrutar aqueles que não têm oportunidades nem esperança de conseguir emprego.

Também temos de nos unir para lidar com a instabilidade e os conflitos nas fronteiras da Europa: na Síria, no Iraque e na Líbia. Durante muito tempo os europeus e seus líderes não avançaram na construção de uma defesa europeia. Acreditava-se que os americanos e a Otan nos protegeriam. Mas, enquanto reduzíamos nossas capacidades defensivas, descobrimos que os Estados Unidos tinham sua própria agenda. O presidente Obama mudou a prioridade dos Estados Unidos do Oriente Médio para a Ásia. A intervenção que temos visto não tem sido consistente, e a Europa agora paga o preço. Recebemos um fluxo descontrolado de refugiados, temos uma Rússia agressiva à nossa porta e lidamos com ataques terroristas bárbaros. Ainda assim não temos como apresentar uma resposta coletiva para esses desafios. Devemos de aceitar o fato de que encontrar uma solução política para a guerra na Síria é uma responsabilidade europeia e que só uma coalizão europeia forte será capaz de encontrar uma solução política para este conflito.

Também precisamos agir com urgência para melhorar a coordenação da inteligência antiterrorismo. Depois das recentes atrocidades na Europa, nossos líderes admitiram que a troca de informações entre os serviços nacionais de inteligência poderia melhorar. Essa foi a conclusão depois dos ataques de Paris, em novembro passado. Mas, na hora de tomar essas decisões, os líderes argumentam que o compartilhamento obrigatório vai longe demais.

Acredito ser vital o compartilhamento obrigatório de inteligência operacional. Na realidade, acredito que deveria existir um serviço de inteligência europeu para coletar dados e organizar operações em todos os 28 Estados-membros. Theresa May, a secretária do Interior do Reino Unido, deixou claro que os agentes de inteligência britânicos vêm ajudando os serviços belgas em suas operações recentes. Esse tipo de cooperação deveria ser expandido e é uma maneira vital para melhorar o nível das informações. Os terroristas não respeitam fronteiras, por que nossas agências o fazem?

Os líderes da UE estão obcecados em criar um sistema europeu para a coleta de passageiros de avião, chamado "PNR". Tragicamente, esse instrumento proposto ainda não tem uma base de dados europeia - é apenas uma coleção de 28 bases de dados nacionais. Os dados são compartilhados somente quando algum país faz um pedido, e eles cobrem apenas os voos. As informações do PNR, portanto, têm pouca utilidade se quisermos acabar com as células terroristas franco-belgas.

A cada passo, a relutância os líderes da UE em buscar soluções europeias é alarmante. É um clichê chamá-la de "total negligência", mas começa a parecer que este é o caso; ainda não temos guardas europeias de fronteiras ou marítimas, a troca de informações de inteligência ainda é limitada e não existe uma capacidade defensiva para o continente.

A União Europeia foi capaz de adotar um mandado de prisão europeu depois dos atentados de 11 de setembro, instrumento que será usado para a extradição de Salah Abdeslam para a França. Foi uma violação da soberania nacional? Até certo ponto, sim, mas todos os europeus estão mais seguros como consequência.

Os ataques de Paris e Bruxelas são nosso 11 de setembro. É mais importante do que nunca deixar para trás a retórica sobre maior coordenação e tomar medidas reais, em nível europeu.

* Guy Verhofstadt é ex-premiê da Bélgica e líder do grupo Liberal e Democrata no Parlamento Europeu

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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