OPINIÃO

Rolezinho: o melhor jeito de administrar é aceitar

28/01/2014 18:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Do ponto de vista de gestão de imagem, os shoppings centers brasileiros estão errando na administração da crise provocada pelos "rolezinhos". Em grande parte, o erro é causado por desinformação ou interpretação apressada desses eventos.

Aqui, não se trata de analisar se os rolezinhos são bons ou maus. Eles existem, e pronto. Cabe aos shoppings, escolhidos pelos jovens como ponto de encontro, decidir como vão reagir. E dá para sair dessa crise mais forte do que entraram. Mas, para isso, é preciso acertar na estratégia.

Os erros de interpretação são naturais. Os rolezinhos pegaram o Brasil de surpresa. Muita gente boa já errou na interpretação do fenômeno. Houve quem visse neles um sinal de revolta social dos pobres, excluídos dos templos de consumo construídos para a classe média. Outros identificaram a retomada dos movimentos de rua do ano passado. Políticos de todos os lados tentaram achar um jeito de tirar uma casquinha.

Quando foram finalmente ouvidos, os jovens por trás dos rolezinhos organizados nos shoppings de São Paulo, deixaram claro que é tudo mais simples. Eles se reúnem para ouvir música, ouvir funk ostentação, paquerar e encontrar os "famosinhos", garotos como eles mas que contam com milhares de seguidores nas redes sociais seja pela capacidade de lançar tendências, seja pelo jeitão descolado ou pelo humor. Escolhem os shoppings porque é lá que estão suas referências de consumo e lazer.

Boa parte dos jovens que fizeram os rolezinhos nos shoppings da Zona Leste de São Paulo são frequentadores dos mesmos centros comerciais no seu dia-a-dia de consumo. Só não costumam ir às centenas.

Se é tudo tão tranquilo, porque os rolezinhos terminaram em corre-corre, tumulto e acusações de arrastão? Meu palpite é que foi uma soma de fatores. Um monte de adolescentes juntos tende a fazer bagunça, seja qual for seu nível de renda familiar. Em grande número, eles se sentiram "donos" do shopping. E se comportaram dessa forma.

Para os administradores dos shoppings, é um pesadelo. Um dos pontos de venda desse tipo de estabelecimento é exatamente a segurança. Quem vai ao shopping busca um ambiente confortável e seguro. Foram essas condições que os transformaram em local de passeio de milhões de brasileiros nos finais de semana. E isso não combina com a algazarra de centenas de jovens, gritando ou correndo. Muita gente se assustou. Lojistas fecharam as portas. A segurança foi chamada e, em parte dos casos, agiu com truculência. Também não chega a surpreender. Os agentes de segurança privada não estão habituados a lidar com esse tipo de situação.

O resultado, para os shoppings, foi o pior de dois mundos: de um lado, os frequentadores tradicionais, em especial os mais velhos, viram quebrada a imagem dos estabelecimentos como uma bolha de paz e tranquilidade. De outro, os jovens, também frequentadores, sentiram-se enxotados. Para piorar, a imagem de seguranças de terno e gravata reprimindo jovens pobres fez com que muitos movimentos sociais decidissem aderir aos rolezinhos, numa ação não solicitada contra o preconceito social. O quadro só piorou quando a Polícia Militar entrou em cena, com spray de pimenta e cassetetes.

Para os shoppings de periferia, a única maneira de lidar com os rolezinhos é aceitá-los. Melhor ainda, assimilá-los. Os jovens que organizam os eventos fazem, em suas músicas e páginas da internet, a verdadeira apologia do consumo. Colecionam roupas de grife, sonham com aparelhos eletrônicos de última geração e com carrões potentes. Eles não querem atacar os estabelecimentos. Querem sentir-se mais donos deles. Essa conquista não precisa e não deve ser à força. Pode ser oferecida.

Os rolezinhos são convocados nas redes sociais. Seus organizadores são facilmente identificáveis. Que tal da próxima vez, em vez de mandar a polícia, destacar um diretor do shopping para conversar com eles? Se os jovens marcam de se reunir no estacionamento, melhor liberar uma parte das vagas. Chamar um MC da Comunidade e liberar o som por algumas horas. Combinar um pacto de responsabilidade. E deixar a segurança a postos para coibir os abusos. Com um nível de abertura desses, os próprios adolescentes vão tomar cuidado para evitar problemas.

Outra chave para enfrentar o problema está nos famosinhos. Seus milhares de seguidores nas redes vieram sem campanhas publicitárias ou exposição na mídia. Eles são seguidos, recebem presentes e carinho porque representam sua geração e sua comunidade. Alguns já contam com patrocínios de lojas, para montar os looks com os quais desfilam. Esse poder de influência é extremamente valioso para quem tem esse público como alvo. É de se pensar porque foram os famosinhos que invadiram os shoppings e não o contrário.

Chamá-los para se integrar, transformá-los em embaixadores pode gerar uma vantagem enorme para qualquer shopping. Mas é preciso coragem.

Os rolezinhos também preocupam shoppings de classe média alta. Assim que o fenômeno ficou popular, pipocaram nas redes convocações para ocupar estabelecimentos de luxo, como o JK Iguatemi, em São Paulo. Os administradores conseguiram na justiça liminares proibindo os rolezinhos e estabelecendo multas altas para quem desobedecesse. Chegaram a fazer triagem na porta. Não apareceu ninguém. O rolezinho tinha sido convocado por alguém sem a menor ligação com o assunto. A melhor resposta para o medo das lojas chiques foi dada na revista Veja por Evandro Farias, de 20 anos, morador da Zona Leste e com 13 mil seguidores no Facebook. "Por que vou ficar duas horas num ônibus para fazer compras num lugar em que tudo é mais caro e ninguém me conhece?" Simples assim.

As providências de segurança dos shoppings de classe média alta acabaram por jogar combustível na fogueira de quem vê nos rolezinhos uma forma de protesto. Dias depois, manifestantes do Movimento dos Sem-Teto caminharam em direção a um centro comercial de São Paulo. Encontraram as portas fechadas. Ruim para o shopping, que perdeu faturamento e ainda se viu exposto trancando as portas para os pobres.

Tanto para shoppings de bairros nobres quanto para os de periferia, o caminho para lidar com os rolezinhos passa por mais calma, menos histeria e mais diálogo. Se continuarem errando, podem tornar realidade as profecias catastrofistas que ouvimos nos últimos dias.