OPINIÃO

Vamos falar mal da psiquiatria

Na prática, a maior parte dos atendimentos médicos pelo mundo já é feito em consultas rápidas e mal pagas, por profissionais cansados e insatisfeitos.

21/08/2017 20:08 -03 | Atualizado 21/08/2017 20:08 -03
selimaksan
Quem pode conhecer o seu desenvolvimento nas últimas décadas tem a chance de vislumbrar uma empreitada intelectual admirável.

Você já ouviu falar da lei de Sturgeon?

Theodore Sturgeon foi um escritor e crítico de ficção científica americano. Em um discurso em 1951, ele formulou o que viria a ser conhecido como a lei de Sturgeon: "90% de tudo o que é produzido é uma porcaria".

Sturgeon se referia à forma como a ficção científica era tomada por um gênero de segunda categoria, assolado por montanhas de obras de baixo valor literário. Mas, ele observou, qualquer outro gênero é da mesma forma composto por 90% de porcaria. O importante é que a ficção científica conta com obras-primas de rara qualidade, comparáveis às melhores obras de qualquer outro gênero.

O filósofo Daniel Dennett, em Intuition Pumps and Other Tools for Thinking ("Bombas de Intuição e Outras Ferramentas Para o Pensamento" - ainda sem tradução no Brasil), cita a lei de Sturgeon como uma das sete ferramentas que ele examina no livro. Lembrar que "90% de tudo é uma porcaria" é uma boa forma de não deixar de considerar os erros de avaliação estatística que cometemos frequentemente ao considerar a realidade e formar opiniões.

Então, vou começar a falar mal da psiquiatria lembrando que 90% de tudo o que é produzido nela - do tempo gasto em atendimentos, das orientações dadas a pacientes, da produção científica - é lixo. Verdade. É uma afirmação pouco informativa, porque vale para tudo, mas é verdade.

Tanto que considero possível que, no futuro, tenhamos robôs substituindo o trabalho médico.

É inimaginável, em um futuro de médio a longo prazo, que seja possível substituir um bom médico por uma máquina. Mas essa não é a questão. O importante é que é perfeitamente imaginável, em um futuro próximo, que computadores consigam entregar atendimentos médicos de qualidade média superior àquela da média dos atendimentos feitos por humanos. Isso porque, na prática, a maior parte dos atendimentos médicos pelo mundo já é feito em consultas rápidas e mal pagas, por profissionais cansados e insatisfeitos.

As máquinas não vão conseguir equiparar o desempenho dos 10% superiores no espectro de qualidade. Mas vão desbancar, na média, a qualidade dos outros 90%.

Essas considerações sempre me vêm à mente quando ouço as constantes e variadas críticas à psiquiatria.

Exemplo 1

A psiquiatria é reducionista. Ela vê o ser humano como uma máquina e reduz o sofrimento humano a um desequilíbrio químico no cérebro. Os críticos bradam "a depressão não é falta de serotonina, seus psiquiatras burros!".

Isso é uma enorme bobagem. Todo bom psiquiatra tem, ao menos, uma formação básica em neurociências e uma noção da complexidade das forças determinantes para a compreensão da experiência humana. Elas passam, sim, pela neuroquímica cerebral, mas também por fatores genéticos, endócrinos, psicológicos, sociais, evolutivos, culturais e tantos outros. Será que algum psiquiatra realmente pensa que a depressão é causada por falta de serotonina?

Eu gostaria de responder que não. Mas, Sturgeon me diria: "talvez uns 90%?".

Exemplo 2

A psiquiatria é normalizadora e opressora. Ela quer determinar o que é normal e corrigir pessoas para que se adequem a essas normas. Como psiquiatras não são sociólogos, seus esforços para definir o normal são ingênuos, desinformados das complexidades do conhecimento sociológico, filosófico e antropológico, e, por isso, apenas reproduzem categorias normativas opressoras.

Outra bobagem. Embora a discussão aqui seja mais sutil. É verdade que a psiquiatria seja um tanto normalizadora. Só que a psiquiatria não é polícia, não invade casas querendo normalizar pessoas, e não pretende monopolizar os discursos sobre o sofrimento humano.

O que acontece é que a psiquiatria se insere na tradição médica. Por isso, faz uso de conceitos como saúde, equilíbrio, patologia, doença e cura, que são questionáveis em outras áreas. E tudo bem. Filósofos vão analisar o sofrimento de outras formas. E sociólogos, de outras ainda.

O discurso psiquiátrico vai sempre dialogar através desta linha tênue entre as ciências médicas e humanas. Quando oferece um discurso sobre um tipo de comportamento que possa gerar sofrimento, - por exemplo, orientação sexual, identidade de gênero ou hiperatividade em crianças escolares - esse discurso vai dialogar com outros, e isso é ótimo.

Orientação sexual, por exemplo, que já foi um tema da psiquiatria, hoje passa longe. Identidade de gênero está em amplo debate: enquanto os discursos humanistas vêm ganhando terreno, é um campo ainda bastante estudado pela psiquiatria.

E a hiperatividade, embora ainda palco de críticas, é cada vez mais reconhecida como uma clara questão médica. Esses entendimentos são mutáveis, evoluindo ao longo de tempo e respondendo à cultura.

Psiquiatras frequentemente estão na vanguarda dessas discussões. E, muito mais comumente do que se imagina, lideram os processos pelos quais se evidenciam as falhas do modelo médico para o entendimento de algumas questões. Lideram, também, o desenvolvimento de novas formas de conhecimento, antenadas às demandas socioculturais relevantes.

E aí eu penso: será mesmo que existem psiquiatras que sejam tão alheios a todos esses questionamentos a ponto de acharem que seus modelos explicam tudo e que toda a riqueza da experiência humana possa ser medicada e tratada até uma espécie de pasteurização do normal?

"Sei lá" - me diria o pentelho do Sturgeon - "talvez uns 90%?".

A boa psiquiatria

Eu poderia citar muitos outros exemplos de críticas comuns, e elaborá-los da mesma forma, mas temo pelo tamanho deste texto. E creio que o bom leitor já tenha compreendido a mensagem.

Eu tive o privilégio de poder estudar a boa psiquiatria, aquela de ponta, feita com cuidado e qualidade, e sou apaixonado pela sua complexidade. Quem pode conhecer o seu desenvolvimento nas últimas décadas, sua história, a forma como ela se compõe de temas, discursos e métodos de uma enorme variedade de ciências e campos do conhecimento tem a chance de vislumbrar uma empreitada intelectual admirável.

E é uma pena ver que, na prática, tudo isso se resume a um conjunto de protocolos simples de conduta que são mecanicamente repetidos à exaustão. Ou a discursos inflamados, prós e contras, que trocam argumentos superficiais e equívocos ingênuos. Ou a delírios reducionistas que informam políticas desastradas e geram livros de autoajuda enganadores.

Seria melhor desistir da psiquiatria, talvez? Poderíamos deixar o assunto do sofrimento psíquico em mãos mais competentes. Em vez do psiquiatra normalizador que só sabe passar remédio, as pessoas procurariam um filósofo, um psicólogo, um líder religioso ou comunitário.

Filósofos clínicos dizem que podem ajudar muito mais do que nós (veja "Mais Platão, menos Prozac"). Psicanalistas acham que podem fazer muito mais que a psiquiatria reducionista moderna. Pastores na televisão sugerem que podem fazer melhor. Será verdade?

Você já sabe o que Sturgeon diria.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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