OPINIÃO

Vale a pena viver, diante do absurdo da morte?

A resposta para o absurdo da vida não seria o suicídio, mas a rebeldia.

17/09/2017 09:32 -03 | Atualizado 17/09/2017 09:32 -03
Divulgação/Netflix
A série '13 Reasons Why' aborda a decisão pelo suicídio.

Quando eu era pequeno, tinha muito medo da morte. Será que alguém não tem?

A morte é um desses conceitos que vêm pouco a pouco à consciência e, de repente, a gente sabe que ela existe sem nunca ter se dado conta de como isso aconteceu. Assim como eu acho que deve ser incrível quem se lembra de ver o mar pela primeira vez. Para mim nunca teve uma primeira vez com o mar.

Mas teve com a morte. Lembro perfeitamente bem do dia em que morreu a mãe de um amigo meu de infância, uma senhora bem velhinha. Éramos crianças, mas ele era temporão, ou quem sabe fosse um neto escondido. Havia muitos desses no bairro, ou talvez ela fosse bem mais moça do que parecia - isso também era comum.

Mas lembro-me dela como uma senhora cinza. Era uma vizinhança cheia de pessoas cinzas, essas sempre ranzinzas, lacônicas de voz áspera, taciturnas, que murmuravam imprecações e lamúrias em um tom que nunca nos permitia entender a mensagem, apenas a tristeza.

Quando ela morreu, fui tomado de um terror súbito. Chorava diante de uma dor que escapava à compreensão e, portanto, ao consolo. Meus pais me consolaram mesmo assim. E eu me lembro daquelas conversas. Sobre como nós vivemos para sempre nos corações dos entes queridos. Nas memórias dos que ficaram. Nas estrelas, no céu, nos átomos, na aventura da humanidade.

Eu não podia entender a mensagem. Apenas a tristeza. Mas, como dizem, as tristezas juntas se dividem; como as alegrias juntas se multiplicam. O sucesso do consolo não depende de fazer sentido. Depende, apenas, de se deixar consolar.

Tive uma formação católica. E a religião sempre foi uma força para fugir ao medo da morte. Mas eu também me lembro, com absoluta clareza, do exato momento em que virei ateu. Uma noite, quando eu estava no segundo ano da faculdade, tive de repente, sozinho, no escuro do quarto esperando o sono - esse irmão mais novo da morte - chegar, uma sensação de pavor diante da ideia da mortalidade.

E, com o pavor, veio a súbita constatação de que era impossível que a humanidade não criasse, desde seus primórdios, a história que fosse para aliviar essa angústia.

Tornou-se óbvio, como se tirassem um véu da frente dos meus olhos, que a religião era uma solução para duas coisas: o medo da morte e a vontade de poder. Porque quem controlasse a solução para o maior dos medos, controlaria o mundo. Nunca mais pude crer, desde este fatídico evento.

Só muitos anos depois viria a ler, em Bergson, que a religião "é uma reação defensiva da natureza contra o que poderia haver de deprimente para o indivíduo, e de dissolvente para a sociedade, no exercício da inteligência". Mesma coisa, só que escrito por Bergson fica infinitamente melhor.

Há poucos meses, acordei em uma manhã ouvindo minha filhinha de seis anos chorar um choro desesperado. Encontrei-a na sala, no colo de minha aflita esposa, perguntando, aos soluços: "Por que a gente tem de morrer? Por que é assim?".

Minha esposa, católica, se desdobrava para encontrar explicações que nos fossem comuns, "o coração dos entes queridos, as memórias dos que ficam, e etc". E até hoje eu me emociono ao pensar no respeito que ela demonstrou por nossas diferenças ao fazer esse esforço. Eu queria poder dizer que fui, também, tão cuidadoso e devotado.

Mas não. Eu me ajoelhei ao lado de minha filha e menti como uma criança. Falei da possibilidade da vida eterna, da dúvida, da fé, e teria evocado até papai noel, coelhinho da páscoa e quaisquer outras figuras de autoridade que ela conhece e confia para assegurá-la de que não tinha nada a temer. Foi vergonhoso, mas eu não podia vê-la em tanto sofrimento tão cedo. Deixe, que depois o sofrimento vem em fases mais adequadas.

A única verdade que eu contei para ela foi:

"Eu também tinha muito medo da morte. Sempre tive. E sabe quando ele sumiu, finalmente, e me deixou super aliviado? Quando você nasceu. Depois nunca mais tive medo de morrer. Sabe por quê? Porque o amor faz isso. Porque eu não me importo mais comigo tanto quanto me importo com você. E um dia você vai ter seus filhos também, ou pessoas que você vai amar demais, e você vai ver que você não vive para você, que não é você continuar a todo custo o que realmente importa, mas sim a felicidade de quem você ama. E é assim que a vida vai. Você se preocupa com a gente, mas a gente só se preocupa com você, e um dia você só vai se preocupar com seus filhos. Enfim, o que importa mesmo é a vida, a felicidade, a alegria de amar alguém mais do que a nós mesmos."

Há tantos furos filosóficos nessa ideia que não dá nem para começar a comentar. O que não impede de ser um pensamento que eu tenho, e que tem uma eficácia tremenda. E, para mim, uma eficácia afetiva, mesmo que não formal.

Mas se não faz sentido é porque, de fato, esse assunto não faz sentido. A morte é completamente sem sentido. Pior, revela o mesmo sobre a vida. A coisa mais importante, mais valiosa, sem a qual nada existe, é breve. É empréstimo. Vai nos falhar, inescapavelmente.

Esse absurdo é o tema filosófico de um dos mais famosos pensadores do suicídio: Albert Camus. É dele a famosa colocação, em O Mito de Sísifo, de que não há questão mais importante em toda a filosofia que decidir se a vida vale a pena ser vivida.

O absurdo de Camus não precisa de mais explicação. Passei o texto todo apresentando-o.

O absurdo de Camus é uma criança de seis anos chorando diante da consciência da morte, e adultos incapazes de responder sem apelar para pensamentos mágicos infantis.

Se a vida é assim absurda, seria o suicídio a conclusão inevitável? Camus conclui que não. O suicídio apenas tira a vida da equação, mas não resolve o absurdo. A resposta não seria o suicídio, mas a rebeldia. Fugir do absurdo é inócuo. Resolvê-lo é impossível. Vivê-lo é necessário, contando com sua paixão, sua liberdade e sua revolta.

Este é um breve ensaio sobre o absurdo, uma posição de conflito, cujo potencial criativo e libertador depende desta espécie de atrito, de desconforto, de inquietação que prenuncia o movimento. Não é, portanto, um ensaio que pretenda chegar a uma conclusão apaziguadora.

A conclusão é que a vida urge. Mas, quem está contemplando o suicídio, normalmente, não vai por aí. Acaba sentindo que não tem saída, que não tem resposta, que a única opção é sumir. Isso é porque essa falta de saída, essa ausência de resposta, é uma experiência humana. Não é só o suicida que a sente. Nós sabemos o que é isso.

Por isso, mesmo, sempre vale a pena pedir ajuda. Ninguém está sozinho, nem nos sentimentos mais doídos, nas angústias mais sofridas. Sempre há quem ressoe com a gente, porque sofrer é ser humano. E falar é o melhor remédio.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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