OPINIÃO

Um instante em uma livraria vale um pouco mais que em outros lugares

Em livrarias cada instante tem uma aura, uma potência, ao menos. Pode ser o instante de uma descoberta, de uma memória, o início de uma paixão.

16/10/2017 08:50 -02
Olegk1986 via Getty Images
books and flying pages

Sim. Um instante em uma livraria vale um pouco mais que em outros lugares. Não é que sejam todos especiais. Mas, em livrarias cada instante tem uma aura, uma potência, ao menos. Pode ser o instante de uma descoberta, de uma memória, o início de uma paixão. Como pode não ser nada.

Algumas vezes é possível perceber que algo incrível vai acontecer. Nesses casos, existe sempre um instante precedente, aquele em que se suspende a respiração, que paira no ar, como se o que estivesse por vir fosse merecedor de um instante a mais do que aqueles que estariam disponíveis para as coisas mais mundanas.

Cada instante em uma livraria se contagia dessa qualidade elétrica. São milhões e milhões de instantes ordinários, em procissão, com o mesmo descaso e a mesma insignificância, mas cada um achando de dar-se ares. Como se pudesse ser ele o tal capaz de se demorar em prenúncio.

Aconteceu que um jovem rapaz foi parar em uma livraria dentro de um shopping em noite de sexta-feira, em uma cidadezinha modorrenta às margens da metrópole. Em tais cidades, as noites de sexta no shopping são as matinês de outrora, as pracinhas do coreto, as tardes nas sorveterias durante as férias na praia.

Os grupos de rapazes ajeitam os cabelos curtos com longos topetes, espalham-se e chocam-se nos ombros em ondas expansivas, trocando risos e provocações. Os grupos de moças apertam-se quase de mãos dadas, com risos cúmplices e olhares furtivos para seus reflexos nas vitrines. E sempre que os grupos se cruzam fazem o escambo de seus modos, oferecendo-os como raros brilhantes baratos. Ordinários e elétricos.

De modo que o jovem rapaz estava na livraria como que por acaso. Ria-se com os amigos, passava por tudo em velocidade, deixava o fluxo do olhar correr por entre acessórios para videogames e colecionáveis coloridos. Seguia já rumo à saída, em caminho automático, quando, de repente, como se sua mão se movesse sozinha, acariciou as páginas douradas de uma estranha edição. Livro grosso, de capa dura imitando couro, e as páginas delineadas por um fio áureo, causa daquela superfície fria e sólida que atraíra os dedos rebeldes. Puxou com a ponta do dedo, inclinando para ver o título. "Bulfinch's Mythology". Devolveu. E foi embora. Foi só um instante.

Mas não. Voltou, a cabeça tornando primeiro como se pudesse puxar o resto do corpo, revirando-se. Ganhou distância dos amigos que seguiam. Olhou toda a coleção. The Complete Sherlock Holmes,Canterbury Classics Horror, Malory's Le Morte d'Arthur.

O jovem rapaz namorava a coleção, surpreso consigo mesmo. Dentre a vasta oferta de sons e cores; a familiaridade fácil das capas de quadrinhos; as extravagantes fontes das edições infanto-juvenis, e as nada sutis fantasias evocadas pelas young-adults, o que o teria feito parar naquela coleção sóbria e antiquada em uma língua estrangeira?

E o que passava consigo naquele instante? Será que considerava, também, a natureza daquela atração? Seria possível que houvesse em alguma casa que frequentara na infância, talvez a de um pai já falecido, ou por outro motivo afastado, uma coleção empoeirada como aquela? Ou, talvez, lembrasse alguma frustração de infância quando um vendedor de "obras raras" tivesse tido tempo, apenas, de excitar-lhe a imaginação antes de ser enxotado por um adulto? Ou, quem sabe, ele não parara, de forma totalmente inesperada, para contemplar um possível futuro? "Será que esse sou eu? Será que sou um leitor?"

Mas, talvez nada disso tenha acontecido. Aquele breve instante de contemplação pode bem ter sido arquivado, quase que inconscientemente, como um episódio fugaz de curiosidade indefinida. Pode ter sido um instante que pairou em vão, como tantas vezes acontece quando seguramos a respiração em antecipação a algo que nunca se concretiza.

Ao menos, foi um instante que não passou despercebido. Teve o discreto mérito de ter sido observado por um homem de meia-idade, desses que gostam de passear por livrarias sem propósito. Na verdade, esses tipos são como viciados. São os que já experimentaram alguns momentos elétricos, e flutuam de volta às livrarias sempre que podem, atrás daquele barato da primeira vez.

Sabe-se lá que efeito aquele instante teve no jovem rapaz. Mas, sabemos como ele afetou o homem viciado. Resultou neste texto, que surgiu assim, em um instante, desses de livraria. Desses que vão deixar saudade.

Livrarias são cada vez mais raras. Há coisas demais competindo pelo tempo livre das pessoas. Internet, redes sociais, televisão, netflix, games. Mesmo quem lê, cada vez mais migra para os livros eletrônicos e audiobooks. Não tem nada mais prático. Entre querer um livro novo e começar a lê-lo, não se gasta mais do que cinco minutos e outros tantos cliques.

Mas, quantos novos leitores surgiram de uma visita a uma livraria? Quantos amores? Quantas descobertas?

Pode levar tempo, nessas coisas sempre há resistências, mas livrarias vão desaparecer. E um dia, quando forem coisas do passado, dirão que sumiram, assim, num instante.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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