OPINIÃO

Treze razões, uma resenha

Explico por que '13 Reasons Why' é a melhor série ruim dos últimos tempos.

25/04/2017 18:13 -03 | Atualizado 27/04/2017 15:49 -03
Divulgação/Netflix
Colunista explica por que a romantização do suicídio foi uma aposta da Netflix.

13 Reasons Why (13RW) abordou o suicídio, a adolescência, a sociedade moderna, e foi aclamada e criticada pela forma como escolheu retratar esses temas.

Chamou atenção por ter dominado o debate e pelas duras críticas que a apontaram como perigosa, por não ter aderido às recomendações da OMS ao romantizar o suicídio.

Só que 13RW é uma obra de arte, não um manifesto, uma reportagem ou uma produção educativa. É uma obra provocativa, estética, e deve ser julgada como tal. Não quero mais falar sobre o suicídio, que já foi abordado à exaustão. Quero falar sobre a obra.

Então, afinal, 13RW é uma boa série?

Minha resposta: é a melhor série ruim dos últimos tempos.

É um debate interminável se a arte pode ser julgada objetivamente como ruim ou boa. No entanto, na medida em que for possível que esse julgamento seja feito, 13RW aproxima-se confortavelmente da zona do objetivamente ruim.

Já vou elaborar os porquês, e o leitor pode ficar tranquilo; não serão 13.

Antes quero dizer que mesmo sendo uma série ruim, 13RW consegue acertar uma linguagem de impacto e atingir seu público de forma extremamente eficiente. Ela se comunica com sua audiência, ressoa com a temática dos nossos tempos, invade as conversas entre colegas, amigos e famílias, incita as pessoas a debater, refletir e escrever "textões" como este. Então, sem dúvida, é preciso curvar-se aos seus méritos e admitir o inegável sucesso da produção.

Merece especial atenção o roteiro, capaz de excitar a curiosidade e prender a audiência, com todos os elementos necessários para isso. Naquilo em que o roteiro tem de se diferenciar do livro - na formatação dos 13 episódios, na adaptação da linguagem - o roteiro de 13RW é prova da eficiência da máquina de produção audiovisual americana, capaz de ser competente até quando não produz seus melhores trabalhos.

E todo esse sucesso só torna ainda mais trágico que a série seja tão ruim. É uma oportunidade perdida de oferecer a um grande público uma expressão artística de melhor qualidade. Embora, talvez, se fosse melhor não tivesse atingido tão grande público. O que continua sendo uma tragédia.

Desde o início, 13RW recebe o espectador com um exemplar típico da linguagem dos romances classificados como "YA" - Young Adults, gênero dirigido a leitores de 15 a 20 anos.

Hannah abre suas fitas com uma introdução pretensiosa, teatral, assumindo que seu ouvinte está imediatamente cativado, hipnotizado, por quão interessante sua história é. Ao mesmo tempo induzindo o ouvinte a sentir-se assim. Esse efeito é obtido por meio de seu discurso divertido, espirituoso, cheio de pausas dramáticas e provocações, que traduz uma inteligência e um carisma sem os quais jamais se obteria tal efeito.

Esse recurso é típico, como mencionei, desse gênero literário, e não seria um problema exceto pela pouca originalidade. O que acontece é que, no contexto da série, o tom é bastante inapropriado. Porque é só o fato de que ela está morta que a torna tão interessante.

Toda a premissa da série, na verdade, transmite a ideia de que há no suicídio uma força irresistível, uma oportunidade de controle e dominância, uma saída para ser, como o discurso de Hannah, cativante, espirituoso e inteligente. Se você se sente triste, invisível, ridicularizada, derotada, fazer como Hannah é uma proposta que 13RW faz parecer viável: mostre como você é cool e torne-se o centro do mundo de seus amigos, prenda-os em uma ressaca da força dos olhos de Capitu, e terá todos circulando em torno das suas angústias, como você nunca pôde ter em vida.

De novo, uma obra de arte pode propor coisas absurdas, levando-nos a refletir, a encarar aspectos sombrios da experiência humana que, normalmente, preferimos não ver. Eu jamais sugeriria que se devesse censurar uma obra pelo risco de induzir isso ou aquilo. Mas, ao menos, que se oferecesse algo belo, novo, provocador, à custa desse risco, e não um exemplar pobre e comum, desconectado do contexto, apelativo como o discurso de Hannah. E digo isso por seu valor estético dentro da obra, não por seu conteúdo, que tem todo o direito de ser cruel e vingativo, como o é, sem desmerecimento no contexto deste debate.

Agora, aqui abriria-se uma possibilidade redentora. O discurso de Hannah poderia ser oferecido como um tratado sobre a histeria. É manipulador, teatral, emocionalmente raso, e poderíamos pensar que, se isso fosse proposital, talvez houvesse algo valioso ali, em termos de construção de personagem.

Até certo ponto da série, há constantes sugestões de que as coisas nunca aconteceram como Hannah descreveu. Ela parece mudar os acontecimentos de modo a potencializar e distorcer atos que possam ser interpretados como agressivos contra ela, projetar emoções negativas nos amigos, assumir motivações paranoides.

Fica a ideia de que talvez houvesse uma segunda leitura possível, uma vez que tudo o que vemos de Hannah é através da imaginação e da memória de Clay, que é enormemente enviesado por seu afeto por ela. Talvez esta fosse uma daquelas histórias em que a realidade se esconde por trás do véu da narrativa subjetiva, dando margem a múltiplas interpretações (como acontece em Dom Casmurro, por exemplo, a que eu me referi acima, e, agora me ocorreu, pode ser referenciado aqui novamente).

Só que essa interpretação não é possível. Porque, depois, a história toma outro caminho.

Quando entramos na temática do estupro, e da ocultação do estupro, aquela interpretação se torna impossível. Sugerir que Hannah distorce os fatos passa a ser o que os personagens "do mal" tentam fazer. Sugerir isso é culpar a vítima, é colaborar com o pacto de silêncio, com a opressão machista; é fazer como o orientador da escola, que sugere que Hannah apenas siga em frente.

A série coloca as coisas de tal jeito que deixa claro, óbvio, como um soco de um brutamontes no estômago, que você não deve questionar Hannah, que não é essa a questão. Sem sutilezas. Não se trata de deixar coisas no ar, de plantar uma semente de reflexão e desconforto, de dúvida criativa, no espectador. Trata-se apenas de fazê-lo ver que nossa sociedade é podre.

Não à toa, no making of de 30 minutos, os produtores têm de explicar, em três ocasiões distintas, por que eles optaram por mostrar algumas cenas de forma tão gráfica. "Não queremos ser gratuitos, não queremos ser vulgares, mas..." segue-se explicação. Tudo bem, há os motivos deles, são reais e fazem sentido, mas porque toda a série é assim: é um tapa na cara.

Há um valor em ser um tapa na cara, é claro. E é difícil explicar como uma obra de arte pode ser mais sutil, mais elaborada, sem deixar de ser um tapa na cara.

Uma ótima forma de entender é assistir à segunda temporada de American Crime, que trata exatamente do mesmo tema, e acerta - estética, artisticamente - em quase todos os pontos onde 13RW erra. No entanto, American Crime ostenta uma classificação entre duas e três estrelas na Netflix, o que deve querer dizer que é uma das piores séries boas dos últimos tempos.

Acho que uma forma de resumir essas reflexões é sugerir que 13RW demonstra o gosto do público pela estética romântica. Fato curioso, dadas todas as semelhanças com Os Sofrimentos do Jovem Werther, marco inicial do romantismo literário.

Parece que ele está de volta, o romantismo, destituído de algumas características da época, como o nacionalismo, mas bem representado por alguns de seus mais importantes comemorativos: a estética do emotivismo, do individualismo,e, principalmente, a primazia do subjetivismo sobre a realidade.

As raízes deste romantismo são diferentes do primeiro. Imagino-o como uma resposta à intensa desconstrução de valores promovida pelo pós-modernismo, não deixando outro parâmetro de realidade que não o subjetivismo.

A subjetividade pura é, obviamente, instável, temperamental. Usá-la como critério de realidade é um dos principais "porquês", não só do suicídio de Hannah, mas de toda a disfunção social, de toda a incomunicabilidade afetiva, de todo o despreparo emocional retratados na série e que são efeitos da mesma causa, não uma profusão aleatória de causas.

Como o romantismo de outrora carregou atrás de si a ascensão do nacionalismo, o de hoje parece fazer-se seguir pelo socialismo, travestido de progressismo, atrelado à bandeira do sentimentalismo tóxico. E, de forma irônica, observamos que o nacionalismo não vem muito atrás, em um jogo de engrenagens, de ações e reações, que traduz uma sociedade imatura, com graves problemas de comunicação e entendimento, agindo de forma impensada e autodestrutiva. Como um adolescente.

13 Reasons Why consegue falar a essa sociedade, representá-la de forma exemplar. Isso é um mérito, mas é uma péssima notícia.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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