OPINIÃO

Sobra técnica e falta arte ao 'Blade Runner' de Villeneuve

É lindo demais, correto demais, mas transparente demais. Boa arte não se entrega de bandeja. Ela exige esforço.

15/10/2017 14:03 -02 | Atualizado 15/10/2017 14:10 -02
Divulgação
Está tudo lá. O céu cyberpunk imortalizado pelas primeiras palavras de William Gibson em Neuromancer: "da cor da tv sintonizada em um canal fora do ar".

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers do filme Blade Runner 2049

Como eu queria ter gostado de Blade Runner 2049. Não deu. É lindo demais, correto demais, mas transparente demais. Boa arte não se entrega de bandeja. Ela exige esforço.

Vamos começar pelos pontos fortes.

O filme é belíssimo. No visual, respeita, homenageia e até supera o original. Está tudo lá. O céu cyberpunk imortalizado pelas primeiras palavras de William Gibson em Neuromancer: "da cor da tv sintonizada em um canal fora do ar". Os neons, os guarda-chuvas, os logos da Atari e da Pan Am, as construções monolíticas. As cenas de carros voando sobre a cidade monótona são de tirar o fôlego.

Há muitas referências ao universo de Philip Dick, o que faz sentido como fonte para se expandir o universo do primeiro filme. A cena em que duas atrizes se transformam em uma só, mesclando realidade e holograma, por exemplo, remetem diretamente a O Homem Duplo. E é maravilhosa.

Só achei desnecessário o clone da Daryl Hannah.

Há, também, referências externas, que nem sei se são propositais. Além do céu de Gibson, o vilão saturado em amarelo de Jared Leto parece saído direto do game Deus Ex. É uma imersão na estética cyberpunk eficiente e prazerosa.

A música faz um esforço, mas foi contaminada pela desgraçada mania de se colocar umas trombetas que parecem elefantes bramindo. Sabe aqueles trailers que começam assim: "fundo preto - cena rápida ao som de FUÓÓÓÓM! - fundo preto - cena rápida ao som de FUÓÓÓÓM! - fundo preto - cena rápida ao som de FUÓÓÓÓM!"? Então, é assim a música de BR 2049: imitação de Vangelis com trombetas de elefantes.

Os efeitos sonoros são incríveis, e muito bem explorados por Villeneuve, que faz cortes súbitos para o silêncio e inunda o cinema de som enquanto a água inunda uma cena de ação.

Mas o roteiro é muito fraco. Tudo depende de um milagre, que não pode ser um milagre, e não é, mas tem de ser, ou nada faria sentido. Enfim. O que deveria ser surpreendente, ou servir para que tenhamos por quem torcer, por quem nos identificar, acaba sendo só frustrante e confuso.

O replicante de Ryan Gosling não deveria se sentir humano, essa é a premissa do roteiro. Então, parece que tem de haver um esforço para nos convencer, e uma trapaça. Desenvolve-se uma historinha de amor, uma tragédia previsível, para que a plateia se emocione e possa, assim, convencer-se da emoção do personagem. É fraco.

Nada a ver com o replicante de Rutger Hauer, no primeiro filme, que chegava arrebentando, esfregando sua humanidade na cara de quem se recusasse a ver, e morria declamando poesia, deixando a plateia arrepiada.

Desapareceu, também, a dúvida. No novo Blade Runner tudo fica claro. Não há mais aquele mistério sobre a natureza de cada personagem. Não há nada que fique implícito, mal entendido, angustiando a audiência.

Em tempos de discussão sobre o que é arte, me peguei comparando este filme ao último 007, Spectre. A fotografia de BR 2049 me lembrou muito a de Spectre, pelas cenas com predominância de uma cor saturada.

Mas, em Spectre havia uma sequência de locais por onde a narrativa passeava, e cada um tinha sua cor, e seu filtro. Alguns eram suntuosos, amanteigados. Outros ásperos. E tudo se encaixava com a história, que era um mergulho psicológico de James Bond. Era uma história sobre memórias e uma homenagem ao personagem. Começava com enquadramentos geométricos, enquanto Bond atravessa telhados no Mexico, cheios de quadrados e linhas deslizantes. E terminava com ele enredando-se em uma construção orgânica, labiríntica, cheia de fios e curvas. Era como se cada detalhe da direção, das cores, dos enquadramentos, dos cenários, tivesse sido pensado como uma metáfora para o aprofundamento do personagem.

Já em Blade Runner 2049, que é ainda mais bonito e tecnicamente impressionante que Spectre, eu não consegui ver essa conexão. Toda essa exuberância técnica se perde por não haver muito o que dizer. E não há muito o que dizer porque o roteiro já trata de dizer tudo.

Recentemente eu terminei os quatro romances da Série Napolitana, de Elena Ferrante. Quando comecei o primeiro, fiquei decepcionado com o estilo simples, direto e, principalmente, com o final que parecia gancho de novela. Achei que era uma obra romanesca. Demorei a terminar.

Mas, até o final, pude ver que o grande mérito artístico da obra está em como ela se esconde. Enquanto a narradora conta tudo, expõe as entranhas de suas personagens, há sempre dúvidas, múltiplas interpretações. E há o fato de que a história é um livro sendo escrito pela personagem. Há os desaparecimentos, com um toque discreto de realismo fantástico. É uma história extremamente crua, mas sobre o inapreensível.

E não seria isso o que faz a grande arte? Ela é lúdica. Ela leva o apreciador a uma brincadeira de esconde-esconde. Ela mostra uma coisa querendo dizer outra. Ela nos provoca um estranhamento, uma surpresa, que exige que tentemos voltar ao real. E é nessa volta ao real que operamos a conversa com a obra de arte. A conversa nunca é sobre o que ela mostra, mas sobre o inapreensível que ela sugere.

Hoje em dia, tudo é arte. Já ouvi pérolas como "a diferença entre arte e artesanato é o preconceito". Não. A arte que não choca não é arte. A arte que só choca não é arte.

O primeiro Blade Runner é um filme fantástico, e uma aula de como fazer essa conversa de que só a arte é capaz. Este novo, infelizmente, é mais uma exibição de virtuosismo técnico que uma grande obra de arte.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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