OPINIÃO

Se Aristóteles vivesse hoje, ele teria Facebook?

Para o filósofo grego, a amizade verdadeira é uma virtude e um esforço colaborativo para desenvolver essa virtude.

25/03/2017 17:20 -03 | Atualizado 12/04/2017 21:44 -03
PANAGIOTIS KARAPANAGIOTIS
Colunista reflete sobre Aristóteles como ser social no século 21.

Uma das gemas escondidas entre os milhares de seriados da Netflix é Merlí, série produzida para a TV na Catalunha. Trata de um professor de filosofia e sua relação com os alunos e outros professores em uma escola pública. Falarei mais sobre a série em outro post.

Em certo momento, Merlí pede um trabalho aos alunos. Quer que respondam e elaborem argumentos à seguinte pergunta: "Se Aristóteles vivesse hoje, ele teria Facebook?".

É uma pergunta interessantíssima. Fazendo uma rápida busca na internet, descobri que respostas a essa pergunta costumam desenvolver o tema da amizade. Aristóteles falou muito, e muito bem, sobre a amizade, e é imediatamente curioso pensar sobre o que ele diria a respeito das amizades no Facebook.

Para Aristóteles, a amizade verdadeira é uma virtude, e um esforço colaborativo para desenvolver essa virtude. A amizade pode se dar apenas por interesse, ou por necessidade afetiva, mas estes seriam os simulacros da amizade. A verdadeira não serve a nenhum outro propósito além de se afirmar: ser amigo porque é bom ser amigo.

Por esse ângulo, Aristóteles haveria de ver-se extremamente desgostoso das amizades virtuais. Os amigos do Facebook não apenas servem a um propósito, mas servem-se a serem reduzidos à quantificação desse propósito. São números que representam alcance, influência, popularidade e até renda. Muito distante da amizade pura que Aristóteles recomendava.

Daria para imaginar Aristóteles fazendo aquele post típico: "Amigos, sejam lá quem forem vocês, comunico que não contarão mais com a minha presença nas redes sociais por tempo indeterminado. Quem quiser sair para tomar uma breja mande um zap. #cansei #ragequit".

Merlí não elabora muito o tema, mas comenta a resposta certa com um aluno e vai por outro ângulo: Aristóteles acreditava que o homem era um ser social por natureza. Portanto, sim, ele teria uma conta no Facebook.

De fato, as redes sociais são a melhor instanciação moderna da Ágora grega, a praça pública.

O exercício da democracia ateniense clássica se dava por meio da discussão em praça pública. Daí a importância da oratória e retórica na época, e a fama dos grandes sofistas, professores da arte do discurso.

Era uma democracia muito pouco representativa, restrita aos "homens livres", categoria extremamente excludente na época. Porém, era uma democracia direta, que emergia da vida pública, da convivência na praça, da exposição a argumentos e afetos: um verdadeiro parlamento.

Modernamente, embora tenhamos ganhado em termos de representatividade, andamos para trás em outros quesitos. O parlamento representativo é vitimado por vícios incorrigíveis. O acesso a ele é totalmente controlado por estruturas de poder engessadas e comprometidas (partidos políticos e seus comparsas, sindicatos, associações, federações - e empreiteiras). O discurso público é filtrado pela imprensa, também submetida a mesma dinâmica de poder.

Ou seja, o voto universal não foi o instrumento de inclusão democrática que se imaginava. A maioria absoluta da população continua excluída da vida pública.

Existem diversos mecanismos políticos para mitigar esses problemas, como a descentralização administrativa e os conselhos populares, mas não vou me alongar sobre isso. Vou apenas registrar que esforços de correção vindos de dentro de uma estrutura de poder tendem a não ameaçar essa estrutura verdadeiramente.

O interessante é que a revolução da internet afetou muito esse equilíbrio político, e afetou de fora. A internet começou como uma estratégia militar, avançou como um recurso científico, tornou-se uma revolução social e, cada vez mais, uma força que não responde a nenhuma representação da política tradicional.

Para Aristóteles, era impossível buscar a virtude, ser um bom ser humano, sem a prática social. Esta constituía-se da política, de estar na praça, aprender com as pessoas que praticam a vida pública, inteirar-se dos problemas da comunidade, defender seus argumentos e expor-se aos contrários, e ter voz na definição das estratégias e soluções.

A era moderna, com a expansão populacional, urbanização, industrialização e o ritmo frenético da vida cotidiana, tornou essa prática inexistente.

E a internet oferece uma saída. Viciada, é verdade. Há problemas nessa nova instância da praça pública. Ela permite filtrar seus interesses contribuindo para uma perniciosa polarização de ideias. Ela substitui um ambiente real, porém perdido, por um virtual, porém concreto (qual é mais real, então?). Ela é facilmente contaminada por lixo, maus argumentos, inutilidades, propaganda, distorções e seduções denigrentes (mas, sabe-se lá que espécies desses tipos não existiam na ágora clássica?).

Ainda assim, é uma saída. É uma nova praça cujo mérito não está em suas virtudes, per se, mas no fato de que é habitada, é onde o público está.

E Aristóteles pode estar lá, no espírito daqueles que se abrem ao diálogo, à amizade, e à incansável busca da virtude.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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