OPINIÃO

'Por favor, me vê um baseado orgânico light?'

20/04/2016 16:28 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
agafapaperiapunta

Dia 20 de abril é o Dia Internacional da Maconha. Comemoração extra-oficial, é claro, e que passaria em branco para mim não fosse o HuffPost Brasil ter me solicitado um texto para compor especial sobre o tema.

Por que um Dia da Maconha? Até onde eu saiba não há Dia do Tabaco, do álcool ou da cocaína.

Existe o 31 de maio, Dia Mundial SEM tabaco. Então é isso. Temos um dia para conscientizar sobre os males do fumo, e um para celebrar as benesses da maconha. O que não é, exatamente, um contrassenso, mas merece um sorrisinho enviesado, ao menos.

Acontece que o Dia da Maconha não é só sobre maconha. Virou um símbolo da contracultura. É um dia para celebrar lutas por menos repressão e preconceito, mais aceitação e liberdade.

Só que fumar maconha não faz de ninguém um revolucionário progressista. Quem fuma maconha é só alguém que fuma maconha. O resto é idealização romântica.

Eu já abordei esse tema em outro texto, recente, que pode ser lido aqui.

Também já expus, naquele mesmo texto, meus principais argumentos a favor da legalização da maconha.

Independente dos argumentos, no entanto, a legalização é um processo inevitável.

Quando me pedem um texto sobre esse tema, é claro, o fazem porque eu sou psiquiatra. Esperam que eu defenda um ou outro lado com critérios científicos.

Só que a legalização não depende disso. Trata-se de um processo cultural. Cientificamente, ambos os lados - os pró e os contra a legalização - têm bons argumentos. É um tema muito complexo.

A maconha é bem menos prejudicial que o álcool e não mata como o tabaco. Mas não é inócua, e está associada a maior risco de dependência de outras drogas, além de alterações cognitivas e psicoses. Há experiências de sucesso com a legalização, e outras problemáticas. Há especialistas defendendo um lado, e outros defendendo o oposto.

Não só em relação à maconha, mas às estratégias de tratamento da dependência química, em geral, não há consenso. Existem duas linhas que se engalfinham: os paradigmas de "redução de dano" e os de "abstinência". Ambos os lados se gabam de evidências e resultados, mas nenhum é hegemônico entre os especialistas.

No entanto, nada disso importa tanto quanto o fato de que as pessoas que cresceram usando maconha, ou vendo seus amigos usarem, submetidas a uma cultura de maior aceitação e de baixa percepção de risco, agora estão em posição de poder.

Hoje há juízes, legisladores, médicos, jornalistas, publicitários e formadores de opinião, em geral, que davam seus pegas na faculdade. Muitos ainda curtem um baseado aos fins de semana, ou até, diariamente. Os que não tinham o hábito já deram uma tragada (ou inalaram sem tragar). Ou têm bons amigos que usam.

Essas pessoas pensam, não sem razão, que o discurso de terror sobre a maconha não cola. Elas "deram certo", construíram suas carreiras, são produtivas e respeitadas, e a maconha não atrapalhou nada disso.

Essas pessoas pensam "Por que não?"; "Por que não passar essa lei?"; "Por que não aprovar o uso medicinal?"; "Por que não regulamentar esse mercado?".

Empreendedores, empresários, lobistas e financistas, também, pensam em quanto poderiam lucrar com o mercado legal de um produto tão popular.

E isso é importante entender, para os que planejem comemorar o dia da maconha e da contracultura: a legalização da maconha só está ganhando terreno porque ela já não tem mais nada de contracultura.

De nada adianta discutir com relatos de caso ou estudos controlados, com dados estatísticos de experiências em outros países, nem com indicadores econômicos.

A maconha já venceu. A legalização é questão de tempo, simplesmente porque mais e mais pessoas são a favor, devido às suas experiências pessoais e percepções culturais. Não depende de bons argumentos nem de evidências científicas. Ela resulta de uma mudança de paradigma, um fenômeno cultural.

Essa disputa aconteceu por critérios extra-científicos. Políticos, no sentido mais puro: reflexos dos jogos de poder em ação na sociedade.

Isso vai ficar muito claro quando a maconha for legalizada.

Com o tempo, vai haver baseado com filtro, baseado light, baseado sabor canela. Haverá controle da agência reguladora, a "Anaconha", sobre o teor máximo de canabinóides. Você poderá escolher comprar só daquela marca que emite créditos de carbono, ou que faz plantação orgânica e hidropônica, ou boicotar aquela outra que emprega escravos chineses.

Você vai sair para ir à padaria comprar sua caixinha de baseados da Souza Cruz e vai, de repente, dar-se conta de que é só mais um consumidor na economia de mercado, vítima do sistema.

Se você optar pelo mercado negro, ele não será abastecido por traficantes que podem ser presos e gerar despesa para o Estado. Mas por contrabandistas que, presos, terão de ressarcir milhões em impostos aos cofres públicos.

E é por isso que a legalização vai acontecer: porque quem determinará o novo paradigma da maconha é quem está no poder.

E quem está no poder acha que a maconha é um baita negócio.

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