OPINIÃO

O Brasil escapará da violência?

13/12/2016 17:16 -02
Adriano Machado / Reuters
An anti-government demonstrator kicks back a tear gas canister during a clash with riot policemen during a protest against a constitutional amendment, known as PEC 55, that limits public spending, in front of Brazil's National Congress in Brasilia, Brazil November 29, 2016. REUTERS/Adriano Machado TPX IMAGES OF THE DAY

A primeira vez na minha vida em que ouvi pessoas falando sobre guerra civil com alguma seriedade foi durante a campanha para o segundo turno das eleições presidenciais em 2014.

Não que eu tenha levado a sério, na época. Também não estou, ainda, levando a sério hoje. Mas, já é um fato interessante que, desde então, o assunto não sumiu.

Há uma guerra instaurada entre as principais instituições que representam o poder público no Brasil. Políticos eleitos, que constituem o Executivo e o Legislativo, estão em guerra contra PF e MP.

Há a guerra entre os três poderes. O Legislativo depôs a chefe do Executivo, o Judiciário derrubou uma cabeça do Legislativo, mas levou um contragolpe da outra.

E ainda há a guerra entre a classe política e a população enfurecida, que desponta em "batalhas" de ocasião, como as deselegantes refregas envolvendo Alexandre Padilha, Chico Buarque, Lindbergh Farias, entre outros.

Os ânimos estão acirrados e ninguém sabe onde isso vai terminar.

Tudo enquanto vão se revelando, a conta-gotas, os termos da "delação do fim do mundo".

Afinal, será que estamos rumando para tempos de violência?

Uma das maiores atribuições da política é, justamente, evitar a violência. Está em um dos pilares da teoria política clássica: Hobbes.

Em sua mais famosa citação, Hobbes descreve como era a vida do homem selvagem, desprovido das proteções da sociedade:

"E a vida do homem, solitária, pobre, repulsiva, bruta e curta".

Movidos pelo medo, pela necessidade de garantir nossa própria sobrevivência, aceitamos nos submeter ao Estado. Trocamos liberdade pela segurança.

As críticas a essa visão são muitas. Outros pensadores do contrato social tinham ideias diferentes (Locke) ou até contrárias (Rousseau) a Hobbes.

Mas a crítica mais contundente, é claro, é a que nega a ideia de que se possa descrever um estado do homem anterior à vida em sociedade. É a visão que remonta a Aristóteles, para quem a política é o estado natural do homem, e que vem sendo confirmada por tudo o que se conhece, modernamente, sobre a evolução das sociedades humanas.

Seres humanos evoluíram a partir de ancestrais primatas que, muito provavelmente, já viviam em grupos com elaborada estrutura social. Tal como se observa hoje em bandos de primatas como chimpanzés e gorilas.

As sociedades humanas devem ter começado em bandos pequenos, agrupamentos familiares, até que um salto cognitivo ainda não completamente compreendido permitiu a colaboração entre grupos maiores. Estes grupos se organizaram em tribos, várias tribos passaram a responder a um mesmo líder (o "chieftain"), até o desenvolvimento do Estado propriamente dito.

Escrevi que um salto cognitivo permitiu isso, mas é provável que este salto deva-se, justamente, à necessidade de cooperar com números cada vez maiores de indivíduos.

Ou seja, não só permitiu, mas foi causado por. Conforme as capacidades de se comunicar, estabelecer reputação e trocar informações se revelaram uma grande vantagem evolutiva, a capacidade cognitiva humana saltou para níveis inéditos na história da vida na Terra.

Assim compreendida, a política sequer demanda uma razão pra existir. Ela não serve para nos proteger da violência, nem para nos embrutecer, como queria Rousseau, Ela apenas é parte integral da natureza humana. É a forma inescapável pela qual interagimos uns com os outros.

No entanto, embora a proteção contra a violência não sirva como justificativa para a política, ela serve, sim, como o seu apelo.

Uma das mais consistentes lições legada pelas últimas décadas de estudos em psicologia evolutiva é que nós, humanos, tendemos a sentir um forte apego emocional aos comportamentos evolutivamente vantajosos.

Se temos um instinto de sobrevivência, hoje ele já não se manifesta através da hostilidade selvagem, mas do apego pelas instituições sociais, pelas normas civilizatórias, por ilusões como a confiança no Estado e o sentimentalismo. É assim que aprendemos a nos sentir seguros.

E é por isso, também, que as sociedades humanas tendem ao conservadorismo. Apegamo-nos à ordem estabelecida como uma forma primeva, instintiva, de luta pela sobrevivência.

Dessa forma, a política não só não nos protege da violência, como é causa frequente dela. Sistemas políticos passam por processos cíclicos nos quais eles se estabelecem, entram em crise, decaem e morrem em turbulenta revolução.

De volta ao Brasil, nós vivemos as últimas décadas, desde a abertura, em franco desapontamento. Todos nós sabíamos que não contamos com um sistema político moderno de verdade.

Nossa república é frágil. O equilíbrio entre os poderes só parecia subsistir, e só graças à corrupção.

As instituições que deveriam cobrar as responsabilidades do Estado eram débeis, estão mostrando força apenas recentemente, e vivem sob ameaça.

Não havia debate ideológico. Nenhum. Apenas marketing, fisiologismo e coronelismo. Isso está melhorando, mas ainda engatinhamos e brigamos como bebês.

Ou seja, nós vivíamos emulando as democracias liberais ocidentais, mas era tudo apenas uma farsa.

Qualquer pessoa de bom senso sabia, sempre soube, que não haveria maneira de mudar isso tudo sem uma grande convulsão política e social. Então, não é à toa que tantos temem irrupções de violência.

Toda a velha guarda está suja. Todas as promessas falharam, não só por incompetência, mas por banditismo imoral. Toda a cultura dos conchavos, o patrimonialismo arraigado, o capitalismo de Estado que gerou uma elite de caciques intocáveis, não são coisas que caem em silêncio.

O tamanho do estrago vai depender da força das instituições que puderem sobreviver, do surgimento de novas lideranças suficientemente competentes e, principalmente, da nossa capacidade, como povo, de pensar, dialogar, compreender, e construir um futuro possível.

Se conseguirmos passar por isso sem violência, entraremos para a história.

Resta ter esperança. Para isso, no entanto, não podemos nos dar ao luxo de esperar.

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