OPINIÃO

Merlí: Como ser um bom mau caráter

Série espanhola fala de filosofia e moral em um ambiente adolescente.

30/06/2017 20:31 -03 | Atualizado 30/06/2017 20:31 -03
Divulgação/Netflix
Professor Merlí e seus alunos são as estrelas de uma série de ensino médio diferente do clichê hollywoodiano.

Uma das pérolas escondidas no catálogo do Netflix é a série Merlí.

Produzida para a TV na Catalunha, fez enorme sucesso local, antes de ser distribuída no mundo pela Netflix. Trata-se da história de um professor de filosofia, o personagem do título, que começa a lecionar para a turma de seu filho adolescente.

Várias coisas interessantes chamam atenção na série. Um exemplo é a língua. O catalão, que soa como uma mistura de espanhol, francês e português, remetendo ao latim, é uma delícia de se ouvir.

Ou a abertura, em que uma mosca voa ao som do Vôo do Besouro, de Nikolai Rimsky-Korsakov. O inseto é referência a Sócrates, que, dizia-se, era uma mosca chata a importunar os atenienses com seus questionamentos e desafios. Uma metáfora para toda filosofia e seus idólatras pentelhos.

Outro exemplo: é muito curioso reparar nas diferenças entre a representação dos dramas do ensino médio, a que estamos acostumados nas produções americanas, e esta da Catalunha. A gente começa a assistir tentando identificar o atleta escrotão, o nerd que vai sofrer bullying, a diferentona sensível que gosta de fotografia, todos os estereótipos adolescentes a la 13 Reasons Why.

Mas não. É bom ver que ainda existem representações mais reais de como as pessoas realmente vivem. Os adolescentes de Merlí sofrem com bullying, com exposição na rede, com ansiedades e inseguranças, mas tudo é muito mais sutil, e um tanto mais verdadeiro, que nos exageros hollywoodianos.

Agora, o ponto mais instigante para mim, e o motivo deste texto, é a imoralidade da personagem. Merlí é decididamente um mau caráter.

Fosse só isso, nada demais. O cinema é cheio de anti-heróis que nós aprendemos a gostar. Quem não torce por Frank Underwood?

Só que Merlí é mais curioso. Ele é um mau caráter com uma característica peculiar: ele faz bem às pessoas à sua volta. E aí está o desafio - e a recompensa - do esforço de tentar entendê-lo.

Cada episódio de Merlí tem um filósofo famoso como título. O professor discute o filósofo na aula com os alunos, e os acontecimentos daquele episódio fazem o mesmo com o espectador. Não à toa, Nietzsche é o filósofo do último episódio da primeira temporada. É nele que se encontra a chave para decifrar Merlí.

As "morais"

Niezstche foi um crítico da moral. Mas havia como que duas "morais" em Nietzsche. Uma - que ele descrevia como a moral do rebanho e do escravo - era aquela constituída pelo conjunto de valores de uma sociedade. Fixa, rígida, doutrinária, pesando sobre as pessoas, como um cabresto.

Aprendemos essa moral quando somos educados. Quando somos ainda incapazes de compreender valores abstratos e, por isso, apenas imitamos condutas e introjetamos normas. É uma moral de conformismo, segurança e ressentimento.

Já a outra moral nietzscheniana, que seria uma "moral superior", é mais difícil de definir, e dá origem a muita confusão. Muitos críticos entendem que o ideal de "super-homem" que o filósofo alemão defendia seria nefasto - estaria associado às ideias de poder e superioridade que, anos depois, viriam a contaminar tragicamente a Alemanha.

Observar o comportamento de Merlí, no entanto, ajuda a entender essa outra moral. O mesmo professor capaz de sabotar seus colegas e deixar um jovem ser punido pelos erros que ele, o professor, cometeu, também é capaz de apoiar, aconselhar e até curar seus alunos.

Explico o "curar" e dou um motivo para todo profissional de saúde mental ser obrigado a ver esta série: Merlí "trata" um aluno com agorafobia de forma exemplar. Vale um estudo de caso de tudo o que não se pode fazer, de dentro das amarras morais e profissionais, com absoluta eficácia.

Ou seja, Merlí não é amoral, mas responde a uma outra moral com a qual não estamos acostumados. É preciso um exercício mental e uma mudança de perspectiva para que ele faça sentido.

E eis o segredo: ao assistir à série, tente substituir suas avaliações sobre "certo e errado" por "alegre e triste". Verá que tudo faz sentido.

Merlí não se preocupa que algo seja errado, mas se preocupa que algo seja triste. Coisas que diminuem, restringem e constrangem são odiadas por ele. Já coisas que são erradas, feias, estranhas e malvistas não o incomodam em nada.

Da mesma forma, ele não se mobiliza para perseguir o que é certo, aprazível, louvável ou admirável. Mas o faz pelo que expande, transforma, provoca e excita.

Basta ver, ao final de um episódio, o discreto e sincero sorriso do aluno injustamente punido coroando a discussão sobre justiça de que tratou o capítulo. O sorriso de paz, causado pelo turbilhão que ele enfrentou. Sorriso de quem, imobilizado, conquistou o movimento.

Para David Hume, quando afirmamos que algo é errado significa que isso, na verdade, nos causa repulsa. O caso do aluno injustiçado causa repulsa. Até aquele sorriso.

É uma outra linguagem moral, portanto, e o sorriso a decifra: justo é que os bons se alegrem. O resto é conversa.

Merlí é fluente nessa linguagem. Exceto quando não é. Porque, às vezes, ele é só um mau caráter mesmo. Ainda bem. É um personagem ainda melhor por isso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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