OPINIÃO

La La Land e A Chegada: Ode aos meus derrotados favoritos

A vida é como é. Mas nós imaginamos outras, criamos mundos alternativos, e os habitamos de fato, tão reais quanto uma apresentação de jazz.

04/03/2017 21:52 -03 | Atualizado 06/03/2017 23:24 -03
Montagem/Divulgação
Colunista compara seus filmes favoritos que foram derrotados no Oscar 2017.

Uma das provas da qualidade de La La Land é a profusão de elogios, críticas, diferentes opiniões e interpretações, enfim, a diversidade do diálogo que ele provocou.

Porque isso é característica da boa obra de arte. Ela toca diferentes pessoas de diversas maneiras.

Para mim, La La Land dialogou demais com seu concorrente no Oscar, A Chegada, os dois favoritos derrotados.

Difícil imaginar dois filmes mais diferentes. Fora o fato de que ambos apelam ao emocional, não há nada em comum entre eles. De maneiras quase antagônicas, no entanto, eles me falaram sobre um tema comum, que tentarei desenvolver neste artigo.

A Chegada é cerebral. Trata de como a linguagem molda nossa visão do mudo e do tempo. Usa o emocional, a forte história da morte de uma filha, para contemplar o fatalismo da vida. Fica a pergunta de como é possível uma mulher escolher a vida que a levará a uma tragédia avassaladora. Com a resposta de que não há escolha.

Esse é um ponto em que o filme faz concessões hollywoodianas que o diminuem enquanto obra de arte. Porque uma diferença fundamental entre o filme e o conto original de Ted Chiang (História da Sua Vida), é que no último não existe a possibilidade de mudar nada no futuro.

Mas, para que o filme ficasse mais heróico, mais emocionante, ele ficou menos consistente. Se a protagonista pode influir nos eventos fazendo uma ligação com dados obtidos no futuro, ou se pode cogitar ter ou não a filha, contar ou não o que ela sabe para o marido, então não existe o fatalismo que é, no fundo, a força motriz da história.

No conto, quando a protagonista compreende a linguagem alienígena, e compreende, portanto, a história de sua vida de uma perspectiva atemporal, não há mais dúvidas, decisões, nada. Até falar, a própria linguagem, passa a ser apenas um ritual, como uma missa, ou uma peça de teatro, em que todos passam por suas falas porque precisam realizar o que sabem que vai acontecer.

A beleza de A Chegada está em mostrar a inevitabilidade da vida, através da personagem que vê através do tempo. É lindo, poético, por tratar do fatalismo sem retirar as emoções, tragédias e fantasias da experiência humana. Entrar em contato com essa temática de forma catártica, como A Chegada consegue promover, faz o filme valer a pena.

La La Land é leve e emotivo. Musical, pessoas saindo dos carros no meio do trânsito para cantar e dançar. O oposto do clima sóbrio de A Chegada.

Arrebatou prêmios, mobilizou a audiência, gerou milhares de textos e comentários pela net. Virou queridinho. Ficou um clima de quem não gostou não tem coração. Tipo filminho água com açúcar para agradar os românticos, mas, ao mesmo tempo, teve final feliz? O que foi aquela cena no final com uma história alternativa? É um filme sobre o amor, ou sobre egoísmo? Venceu o romance ou o pragmatismo?

Eu vi gente que adorou porque o filme é sobre tomar decisões sérias na vida, sem se deixar levar por paixonites. E gente que odiou justamente por isso.

Li artigos sobre quão adoráveis e carismáticos são os protagonistas, e artigos sobre quão narcisistas e insuportáveis eles seriam.

Minha interpretação de La La Land, no entanto, foi um pouco diferente. Para mim, o filme foi feito para ser jazz. E a chave para interpretá-lo foi dada no próprio filme.

É um recurso comum de roteiro: em um momento tranquilo da história, quando os personagens interagem sem muita coisa acontecer, um fala para o outro sobre um assunto qualquer, mas, na verdade, ele está contando para a audiência como interpretar o filme.

Isso acontece também em A Chegada. Quando a protagonista explica para sua filha, Hannah, que o nome dela é um palíndromo, está explicando a noção de circularidade da linguagem e do tempo que é a chave para entender o filme.

Da mesma forma, em La La Land, o protagonista explica por que ele é tão fascinado por jazz. Ele mostra como cada apresentação é diferente porque resulta da interação dos músicos enquanto eles improvisam. De repente, o trompetista começa a inventar e os outros músicos vão atrás, seguindo a melodia, a harmonia; de repente, é o saxofonista que está inventando, e, de repente, é o pianista, fazendo emergir, daquele momento, uma experiência estética única.

Essa é a chave para entender o filme. O romance dos dois nunca foi tocado solo, nem poderia. O que foi possível fazer com aquele amor foi o resultado que emergiu das improvisações de ambos.

Então, o filme fala sobre a importância de seguir seus sonhos? Ou sobre como narcisistas têm dificuldade em manter um relacionamento? Não. O filme mostra um concerto de jazz em que os músicos fizeram aquela performance, daquele jeito, mas poderia muito bem ter sido outra. Eles tinham seus scripts, e seus improvisos. Seus erros e acertos, defeitos e virtudes, e aquilo foi o que saiu.

E, no final, quando o protagonista pode sentar ao piano, dentro de seu próprio clube, e tocar o improviso que quiser, ele toca a mesma música, de novo, mas do jeito dele, e conta como poderia ter sido. Deveria ter sido? Não. Ele conta a história daquela música naquele momento. Outro dia, ele poderia tocá-la diferente.

Há, portanto, algo da mensagem fatalista de A Chegada. A vida é exatamente como ela é. Foi como foi. Será como será. Ela emerge dos interesses de todos os "músicos" envolvidos, puxada por seus arranjos e improvisos, ela sai do jeito que sair.

Porém, o fatalismo, em La La Land, é temperado pela arte. Porque, embora sejamos seres materiais, amarrados inexoravelmente à realidade, temos a capacidade meio mágica da consciência, da fantasia, da imaginação.

A vida é como é. Mas nós imaginamos outras, criamos mundos alternativos, e os habitamos de fato, tão reais quanto uma apresentação de jazz.

Essa é a mensagem que esses dois filmes me deixaram, e que só poderiam ter deixado juntos, porque improvisaram no palco das minhas fantasias: a vida é uma só. A arte a faz infinita.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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