OPINIÃO

'Jessica Jones' é como um ensaio sobre violência contra a mulher

27/11/2015 16:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

** Sem Spoilers. Algumas referências ao roteiro básico revelado no trailer **

Há muitas maneiras diferentes de assistir a Jessica Jones, nova série da Netflix do universo Marvel.

A mais óbvia é como uma série de super-herói. Jessica é um pouco diferente nesse sentido, uma mulher com poderes especiais que não quer ser heroína. Mas não se engane, ela está inserida no mesmo universo dos outros heróis da Marvel, desenvolvendo o núcleo de personagens que começou com Demolidor. Estão nos planos mais duas séries (Luke Cage e Punho de Ferro), além de Os Defensores, que reunirá os quatro heróis em uma equipe, um tipo de versão "das ruas" dos Vingadores.

Mas Jessica Jones funciona como uma obra completa. É possível apreciá-la sem nenhuma experiência prévia com esse universo. E o que a série traz de novo, e muito particular, é uma narrativa completamente diferente das histórias de herói.

Mesmo quem não lê quadrinhos sabe que super-heróis seguem sempre o mesmo script. São histórias masculinas, em que o personagem principal vai superar incríveis dificuldades, com coragem e determinação, vencendo o mal no final. Heróis vencem porque são mais fortes, mais ágeis, mais bondosos, trabalham melhor em equipe, enfim, é um grande jogo de super-trunfo. É um mito de força, poder e conquista.

Já nos quadrinhos Jessica Jones subvertia tudo isso. Publicada pelo selo Marvel Max, voltado para o público adulto, a série "Alias", criada pelo gênio Brian Michael Bendis, apresentava Jessica como uma ex-heroína tentando ganhar a vida como detetive particular.

Apesar de seus superpoderes, a protagonista era traumatizada, alcoólatra, cínica, incapaz de manter relações afetivas saudáveis. Jessica era uma mulher normal, sem os "superatributos físicos" comuns nos quadrinhos. Suas histórias eram pesadas, densas, com mais influências da literatura noir que do pop escapista típico dessa mídia. Jessica não era uma mulher enfiada em uma história masculina com roupas coloridas, para ser mais forte, mais rápida, mais "macha" que seus vilões. Jessica Jones era uma mulher vivendo histórias femininas, em que a saída não se dava pela força. Em que, mesmo tão forte e poderosa, ela era uma vítima de violência, sofrendo de stress pós-traumático, tentando se recompor.

O seriado adapta esse contexto com eficiência, e traz a questão da violência à tona de forma ainda mais contundente que nos quadrinhos. Tudo, em Jessica Jones, está lá por um motivo: discutir a violência contra a mulher.

A grande força do gênero de ficção científica e fantasia está no recurso de exagerar certas características para além do natural, com isso construindo metáforas poderosas do mundo real.

Jessica é uma mulher superforte e pode (quase) voar. Então, ela sai do papel comum de fragilidade que é atribuído às mulheres nas séries. Esse é o ponto visto também em Supergirl, por exemplo. Mulheres podem, sim, ser fortes e decididas.

Mas, Jessica encontra seu arqui-inimigo, um homem chamado apenas Killgrave que tem o poder de controlar mentes. Trata-se de um antigo personagem dos quadrinhos da Marvel, conhecido como Homem Púrpura, que sempre foi um coadjuvante menor. Controlar mentes nem é um poder inovador, ocorrendo com frequência nas histórias de fantasia.

Killgrave é o protótipo do homem que tem tudo o que quer. Nunca pede nada, manda; não tolera frustrações; não espera por nada, não aceita incômodos. É o perfeito egoísta que só recebe do mundo a devolutiva de que seus interesses serão sempre atendidos. Killgrave não é violento, em sua própria concepção. Violento são os outros, o mundo, a vida, a luta a que as pessoas comuns se submetem. Ele é apenas perfeito.

E Jessica, tão poderosa, é apenas mais uma de suas vítimas. "Sorria, Jessica"; "Coma, Jessica"; "Chupe, Jessica", "Espere aqui e não se mexa, Jessica". Parece um horror indescritível, mas é uma metáfora perfeita para as relações abusivas a que milhares de mulheres estão submetidas hoje, agora mesmo, enquanto você lê essa resenha.

É, realmente, um horror indescritível.

Vários outros elementos da trama abordam o mesmo tema. A advogada Jeri Hogarth (que nos quadrinhos era um homem) é vítima e algoz na conturbada relação com sua esposa. A melhor amiga de Jessica, Patsy Walker (nos quadrinhos, a super-heroína Felina), também tem seu passado de violência e treina Krav Maga para se defender. O Sargento Will Simpson (obscuro personagem da Marvel chamado Nuke) é responsável por outro interessante ponto de vista sobre violência e machismo. Até a relação entre Jessica e Luke Cage, que dá a pitada de romance da série, aborda o tema de forma positiva.

Jessica Jones é mais que uma série feminista. É uma obra feminina em sua estrutura narrativa, com fortes personagens femininas, vivendo situações de violência e impotência que não se resolvem pelos artifícios masculinos das histórias comuns.

Ao contrário de Killgrave, Jessica não tem nada fácil, nada sai como ela quer, nada acontece só porque lhe interessa. Jessica tem de lutar para se construir e reconstruir, submetida a forças muito mais poderosas que ela, por mais poderosa que ela seja.

Desafio que eu nunca vou viver, mas que toda mulher sabe, exatamente, como é.

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