OPINIÃO

Esse tal Libertarianismo

18/11/2015 15:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
iStock

Uma coisa já chama atenção, como resultado da atual crise política: a criação de dois novos partidos. A Rede e o Novo.

Ambos representam novidades na velha dicotomia direita-esquerda. Eles são a nova direita e a nova esquerda a despontar da atual conjuntura.

A Rede tem a seu favor a identificação com a esquerda, sempre forte na América Latina, e a presença de nomes de peso. O Novo é completamente desconhecido e deve enfrentar grandes dificuldades para se firmar.

A maior dificuldade do Novo, no entanto, será vender o peixe de sua bandeira política: o Libertarianismo. Ninguém conhece isso, ninguém sabe o que é. O grau de desinformação a respeito do libertarianismo no Brasil é impressionante.

Para começar, o libertário não tem nada a ver com o "liberal" ou "neoliberal", que já virou palavrão no Brasil. Na verdade, esses termos são vazios de significado real. Servem apenas para xingar o governo FHC. Nada mais.

Depois, o libertarianismo não é individualismo. Muita gente começa a ouvir falar em liberdade individual e já vira os olhos.

Porque vivemos em sociedade e temos tantos problemas comuns, tantas pessoas passando fome, necessidades, vítimas de perseguição e violência, pensamos:

"Como defender uma política baseada no indivíduo? Que ideia burra e egoísta começar uma política pelo direito de um, e não de todos."

De fato, o individualismo não é uma boa política e não tem nada a ver com o libertarianismo.

Na verdade, o indivíduo é uma abstração: você sabe que é uma pessoa, porque se reconhece, tem uma história, uma constância.

Mas você certamente já se sentiu como se não se reconhecesse. Já fez coisas que lhe pareceram fora de seu caráter habitual. Já tomou uma decisão e acabou não obedecendo a si mesmo. Já deve ter se dito, em diversas ocasiões: "Por que você está fazendo isso? Pare". E não parou mesmo assim.

Isso acontece porque cada um de nós também não é só um. Somos vários.

Respondemos a um complexo conjunto de interesses. A cada instante estamos submetidos a diversos incentivos diferentes que nos levam a tomar decisões.

Nossa consciência, que permite que nos reconheçamos como agentes dessas decisões, é um fenômeno complexo que emerge das interações entre esses diversos interesses.

E é tão complexo que ninguém ainda decifrou exatamente como ele acontece.

Mas imagine que fosse possível decifrá-lo. Imagine que alguém pudesse, de alguma forma, controlar todos os estímulos que estivessem agindo sobre você, de modo que fosse possível prever e, portanto, controlar, todas as decisões que você tomaria a cada instante.

Mesmo que isso fosse feito para garantir que você sempre tomasse as melhores decisões, não seria inaceitável? Nossa consciência pode ser falha, mas ela é nossa, e é livre.

A sensação de que somos responsáveis por nossas escolhas é fundamental para a própria identidade.

Agora, vamos usar essa mesma imagem para ir da mente de um indivíduo para toda a sociedade.

Em uma sociedade, o indivíduo representa apenas um interesse. Esse interesse estará em interação com diversos outros.

O que nós chamamos de consciência no exemplo do indivíduo -- ou seja, um fenômeno complexo que emerge das interações entre diversos interesses -- na sociedade se chama mercado.

Conforme as pessoas interagem umas com as outras, cada uma buscando os seus interesses, o mercado seria a resultante que emerge como a expressão da melhor representação possível desse conjunto.

Aqui está um jeito fácil de entender a real diferença entre socialismo e libertarianismo, que não é a diferença entre o bem e o mal, ou entre a consciência social e o egoísmo, como apregoam alguns. A diferença está na crença de que se pode conhecer, prever e controlar o mercado.

Se fosse possível decifrar todas as interações entre as pessoas e a melhor forma de conduzi-las, controlar o mercado talvez fosse a coisa certa a fazer. Isso garantiria melhor distribuição das riquezas e satisfaria um ideal de justiça social.

O socialista acredita nisso. É uma questão de fé, em última análise.

Já o libertário duvida disso. Ele entende que as interações entre os membros e setores de uma sociedade são complexas demais e que as tentativas de exercer controle sobre elas acabam resultando em uma situação pior que aquela que emergiria naturalmente das interações livres.

Para o libertário, as propostas de intervenção sobre o mercado são inaceitáveis, como seriam inaceitáveis para qualquer um de nós intervenções diretas sobre nossas consciências.

Dessa forma, fica claro como libertarianismo não tem a ver com individualismo.

Qualquer um pode continuar a acreditar no livre mercado ou no controle de mercado como a melhor forma de conduzir a economia, mas tratam-se apenas de formas diferentes de entender como se chega a uma sociedade rica e justa: pelo controle ou pela liberdade.

Outra confusão comum é entre Libertarianismo e Conservadorismo.

Acontece que, como o controle da economia é essencial à esquerda, o libertarianismo sempre encontra muito mais apoio à direita.

Com isso, fica fácil para os críticos colocarem todos no mesmo saco, atribuindo ao libertário a imagem de reacionário, conservador, extremista etc.

O libertarianismo, no entanto, não se restringe a uma visão econômica.

Essa compreensão de que os caminhos para uma sociedade justa não podem ser controlados, planificados, mas devem emergir das interações entre consciências livres tem profundas consequências culturais e sociais.

Os libertários não acham que o Estado deva ter nada a dizer sobre o que as mulheres fazem com seus corpos, sobre os tipos de substâncias que as pessoas podem usar, sobre como cada um faz sexo ou se relaciona afetivamente, muito menos sobre quem pode se casar - não acham nem que o casamento deveria ser um assunto de Estado.

Eles não querem propagar credos, definir família, nem diferenciar pessoas por sexo, raça ou o que for.

Os libertários não confundem a sociedade com o Estado.

A sociedade libertária é forte, ativa, justa, segura e inclusiva.

A sociedade, não o Estado.

Este deve cuidar apenas de que cada indivíduo tenha garantido o seu direito à vida, ao fruto do seu trabalho e à liberdade.

Os críticos entendem que, deixado assim, cada um cuidará somente de si e de sua família.

Que as minorias serão exploradas. Que o egoísmo reinará e os mais fortes irão sempre subjugar os mais fracos.

Com essa visão cínica, explorando o medo, justificam que devemos aceitar um Estado grande e paternalista para cuidar de nós.

Vendem a ideia de que o libertário é cruel, egoísta, interessado apenas no próprio umbigo, em manter privilégios.

Querem fazer crer que a única proposta política viável para uma pessoa de boa índole é a deles.

Curiosamente, só porque assumem que ninguém tem boa índole, ou seja, que ninguém, ao lutar por seus interesses, também luta pelo interesse comum.

No fim, é mesmo uma questão de fé. Mas parece que quem tem fé no ser humano é esse tal libertarianismo.

MAIS MERCADO NO HUFFPOST BRASIL:

Profissões em extinção nos EUA

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: