OPINIÃO

Do 'broche de Lula' ao 'Muro da Vergonha': Evidências de um País partido

16/04/2016 22:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
REUTERS/Paulo Whitaker

Em 2002, já presidente eleito, mas ainda não empossado, Lula fez sua primeira viagem internacional com status de chefe de Estado. Foi recebido por Bush e iniciou um projeto diplomático de bastante sucesso.

A viagem gerou uma pequena polêmica por conta do broche que Lula usou na lapela do paletó: a estrela vermelha do PT. Afinal, Lula viajava como o representante de todo um País, ou só de seu partido?

Picuinha. Mas, à época, a dúvida era pertinente.

O Lula candidato todos já conhecíamos. Mas o Lula presidente era completamente novo.

O candidato era a cara do partido, líder sindical, comunista revolucionário. O presidente era ponderado, carismático, depositário da confiança de toda uma nação, inclusive de muitos eleitores que não se identificavam com o PT ou o comunismo, mas apostaram em Lula.

O candidato precisava lutar, dividir, polarizar o cenário político para ter sucesso. O presidente precisava conciliar, apaziguar, para governar com eficiência. Precisava ser menos o partido e mais o País.

Lula conseguiu governabilidade, mas a altos custos.

No primeiro mandato o fez por meio do mensalão - comprando o apoio que precisava para governar (hoje sabemos de onde vinha tanto dinheiro).

No segundo, por procuração ao PMDB - e hoje conhecemos o triste fim dessa manobra.

Ainda assim, é fato que conseguiu governar um País, graças à economia pujante - fruto de sua política econômica "neo liberal", - muito carisma e enormes taxas de aprovação.

Mas, a verdade é que nunca foi muito claro ao PT que o governo não era o partido. Os sinais da confusão são muitos.

Um exemplo é este interessantíssimo diálogo entre Dilma e Aécio no último debate de TV da campanha de 2014:

Dilma: "Vocês fizeram uma lei proibindo que o governo federal fizesse e mantivesse escolas técnicas. (...) O senhor era líder do governo FHC. O senhor vai continuar com essa política?"

Aécio: "Eu não devia lhe corrigir em público, mas eu era líder do PSDB, mas vamos passar isso, deixar isso um pouco mais barato."

Dilma: "Dá no mesmo."

Aécio: "É, mais ou menos candidata. Para quem não conhece o Congresso Nacional, talvez sim, mas é muito diferente, é muito diferente."

A presidente Dilma disse que não há diferença entre ser líder do governo ou ser líder do partido. Picuinha de novo, afinal, foi só um deslize em debate.

Outro exemplo, mais grave, foram as pedaladas fiscais. O crime de responsabilidade que, ao que tudo indica, irá derrubar Dilma. Como frisou Janaína Paschoal, em seu discurso na comissão do impeachment, os integrantes do governo:

"Acreditam que todos os órgãos são dele. Os bancos públicos são dela. Que o BNDES é deles, tanto é que só os amigos foram beneficiados esses anos todos. Que o Banco do Brasil é deles, que a Caixa Econômica é deles".

É sintomático que o governo não consiga entender a gravidade das pedaladas fiscais. Porque esse é um exemplo da confusão entre governo e País, um pouco mais sofisticada que aquela entre governo e partido.

O País é um conjunto de atributos, digamos, naturais, como território, riquezas, povo, cultura, identidade; e convencionais, como leis, constituição e instituições. E o País não está a serviço do governo, muito pelo contrário. O governo não tem nenhum direito sobre o País. Tem, no máximo, a permissão para gerir alguns recursos, sobre constante tutela, com necessidade de prestação de contas e a possibilidade de destituição.

O parlamento não é governo. O judiciário não é governo. Ministério público não é governo. Opinião pública não é governo. E tudo isso é parte do País.

As eleições, sem dúvida a expressão legítima da vontade democrática do povo, não dá o país a um governo, muito menos a um partido. Apenas constitui um governo, que terá legitimidade para interagir com todos os outros poderes na condução do país.

Por isso, tomar empréstimo aos bancos públicos sem autorização do Congresso é crime de responsabilidade. O governo não é dono do dinheiro, nem dos bancos públicos, nem tem essa autonomia. Mas isso só faz sentido quando se entende que o governo não é o país.

Dilma e o PT nunca entenderam bem isso.

Nas escutas, Lula cobra de ministros, juízes do STF e do procurador da república que atendam aos seus interesses. Dilma o nomeia ministro como manobra (exemplo grotesco do poder do governo submetido ao partido).

Para eles, tudo parece normal. É como se os interesses do país fossem os de Lula e do PT.

E eu não duvido que, na cabeça do ex-presidente, isso seja exatamente assim.

São pequenos sinais, que vão surgindo aos poucos. Um broche aqui, alguns bilhões desviados ali, apontando para uma verdade: O PT se confundiu com o governo, e o governo se confundiu com o país.

O resultado dessa confusão é a depredação do patrimônio público, a crise econômica, as medidas inflacionárias e ilegais que geram pobreza, e a ameaça à força das instituições republicanas.

Mas não só.

Também é a polarização política. O discurso de ódio, guerra, golpe, incendiar o país.

Porque um governo não deveria fazer isso, mas um partido só sabe fazer isso.

O muro levantado em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, concretiza essa descaracterização do governo. É a materialização do desgoverno. Um símbolo de um país cindido.

O que pensa a presidente, olhando o muro? Será que ela consegue enxergar que, a partir do momento em que ele foi erguido, ela só pode ser a representante de uma das metades?

Será que ela não percebe que a presidente que olha um muro já não é mais presidente de um país, mas só de meio?

Que legitimidade tem a presidente de um país partido?

O impeachment virá. Mas apenas para confirmar que o Brasil não é partido.

É um país precisando, desesperadamente, de governo.

LEIA MAIS:

- A guerra dos verdadeiros 'memes' por trás da crise política

- Por que é impossível convencer um petista?

Também no HuffPost Brasil:

Personagens do Impeachment