OPINIÃO

Diários de um jovem psiquiatra no SUS

10/04/2015 12:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
LukePricePhotography/Flickr

Parte 1 - olhos

De certa forma, todo aluno de medicina de uma universidade pública tem contato com o SUS desde seu primeiro paciente. Porém, o SUS dos hospitais universitários é bem diferente da média. O vínculo acadêmico tende a segurar bons profissionais e garantir melhores investimentos, tornando-os ilhas de excelência. Na faculdade, aprende-se o que é o SUS no papel, um sistema complexo e ideologicamente muito bonito. A realidade é bem diferente.

Meu primeiro contato com a psiquiatria fora do HC foi breve, quando fiz uma visita ao CAPS Itapeva durante o internato. O que vi foi um serviço instalado em um lindo casarão na avenida Paulista, um dos primeiros serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos no Brasil, que serviu de modelo ao desenvolvimento da reforma psiquiátrica. Profissionais de referência na área, estagiários, ciclos de palestras e projetos sociais, algo ainda muito parecido ao clima dos hospitais universitários. Ouvi pela primeira vez nomes como Franco Basaglia (psiquiatra Italiano, um dos líderes do movimento pelo fechamento dos hospitais psiquiátricos), e Ronald Laing (expoente da antipsiquiatria). Foi um contraponto interessante ao aprendizado em psiquiatria moderna, científica e padronizada, da formação ortodoxa.

Mas, o que realmente me marcou naquela visita foram os pacientes. Especialmente seus olhos. Havia dois tipos de olhares: os ativos, assustados, desconfiados, que ziguezagueavam sem parar; e os dóceis, submissos, evitativos, que abriam sorrisos e buscavam um contato débil, tímido. Ambos eram diferentes dos olhos vazios, tenebrosos, que eu já tinha visto nas enfermarias psiquiátricas. E dos olhos calmos e intencionais dos pacientes mais recuperados. Desde muito cedo ficou evidente para mim o quanto os olhares são importantes na psiquiatria.

Três anos depois, já na residência, outra oportunidade de sair do ambiente universitário: estágio de um mês em um CAPS no interior do Tocantins. Ali eu conheci o SUS. O CAPS era um serviço muito bem montado. Tinha um bom número de profissionais e funcionava de acordo com as diretrizes do modelo: acolhimento, equipe multiprofissional, visitas domiciliares, oficinas, atendimento familiar e foco na reinserção social. Havia uma APAE na cidade, que fazia questão de roubar os residentes que estagiavam no CAPS por algumas horas, para atender as crianças, porque não havia médico. Temerário, já que éramos residentes sem nenhuma experiência em psiquiatria infantil. Mas, é assim que anda o SUS real: melhor qualquer um atendendo que ninguém.

Certa vez, ouvimos o boato de que uma paciente, que só tinha ido a uma consulta, havia tentado o suicídio na noite anterior. Decidimos fazer uma visita domiciliar. No bairro onde ela morava as casas eram de barro, exatamente da cor do chão. Era como se fossem invisíveis. Fomos recebidos pela mãe, que não parou de lavar louça e apenas gritou para que entrássemos. O chão do quintal era o mesmo do interior, terra batida. A mãe nos levou à sala de onde pendia a corda que a filha usara para tentar se enforcar. Fiquei boquiaberto vendo aquilo. O que significava que ainda estivesse ali? Quem deixa a forca pendurada em casa? A mãe chamou a menina de dentro de um quarto muito escuro. A primeira coisa que vi foram seus olhos, de brilho pálido, caminhando em nossa direção. Ela carregou a escuridão do quarto em sua pele, mas a de seus olhos era ainda maior. Eu viria a me acostumar a ver olhos tristes, patologicamente tristes, mas aqueles ainda me impressionam. Conversamos, demos o apoio possível, convidamos ao CAPS. Se fosse hoje, eu teria pedido um banquinho e tirado aquela corda do meio da sala. Mas, eu era jovem e tolo, e fui embora emulando a indiferença que mãe e filha dispensavam àquele obelisco lúgubre.

Os olhos mais terríveis que já vi, porém, não eram tristes. Pelo contrário. Muitos anos depois, eu trabalhava com o PSF (Programa Saúde da Família). Fui com a equipe à residência de uma família na Luz, zona central de São Paulo. Um bairro cheio de casas antigas, sobrados geminados, lojas, e galpões. Eu não tinha ideia, mas o interior das casas ali não guarda relação com as fachadas. Por dentro, são sequências de cômodos onde famílias inteiras se aboletam em condições precárias.

O motivo da visita era um garoto de cinco anos, que vinha dando muito problema na creche. Arredio, nervoso, às vezes violento, pediram a avaliação do psiquiatra. O cômodo em questão ficava no alto de uma escada. Quando entramos, o menino brincava com folhas secas em um dos degraus. Não me olhou, mas riu para o chão quando a psicóloga da equipe entregou os lápis de cor que lhe havia prometido. A mãe nos recebeu com um olhar vago, parecia cansada e sem esperanças. O pai, que fumava lá dentro, tinha o olhar envergonhado. Tentava varrer o chão, que estava sujo e úmido, com bitucas de cigarro e manchas indistintas como se fosse o chão de um calçadão no centro. Havia uma cômoda velha e quebrada, e dois colchões de espuma exposta em cima de um estrado que servia de cama e sofá. Os pertences se acumulavam no chão, no colchão, e pendurados em redes nas paredes. No fundo, um berço. Fui até lá para ver o bebê, e ele me viu. Olhou para mim com olhos vívidos e alegres, e sorriu. Um sorriso sincero, puro, humano e desimpedido. A intensidade da alegria que esse tipo de olhar provoca foi a intensidade da tristeza que me acometeu quando vi, de súbito, toda a história dos seus próximos anos de vida. A história de como olhos nascem brilhantes, e se apagam tão rápido, em um País miserável.

Eu vi horrores trabalhando no SUS, mas nenhum tão terrível quando a alegria inocente nos olhos daquele bebê.