OPINIÃO

Diários de um jovem psiquiatra no SUS - 4

28/10/2015 20:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
☪yrl/Flickr
"Laissez-nous étudier !", par Ahmed, village d'Al-Ma'sara

Parte 4 - Infância

Foi por acaso que comecei a trabalhar com crianças no SUS. Só o que eu queria era sair da ala dos crônicos. A primeira oportunidade apareceu na enfermaria infantil do Pinel, então chamada NAPA.

Estranhei quando me ofereceram a vaga. Eu não tinha nenhuma experiência com psiquiatria da infância e adolescência. "Não tem problema" - disse o diretor - "se formos esperar um médico com especialização, ficaremos anos sem ninguém". Lá fui eu, na cara e coragem.

A primeira semana foi muito interessante. Eu não conseguia tomar uma conduta sem checar livros, verificar doses, estudar critérios diagnósticos. Tudo era novidade e um tanto assustador. Os pacientes eram mais agitados, os gritos mais frequentes, os familiares mais angustiados. Mais do que isso tudo, eu confesso que tinha uma aflição com crianças doentes. Não em relação a cada uma delas, individualmente, mas ao conceito geral. Criança ficar doente me parecia um contrassenso, algo antinatural, uma afronta à minha querida preconcepção de infância feliz.

Um paciente, F., autista grave, ficava meses internado e, quando saía, logo voltava. O pai, às vezes, passava semanas no hospital, acompanhando-o. Chegávamos a sugerir ao pai que fosse para casa, descansasse um pouco. Verdade seja dita, F. ficava mais calmo sozinho. Mas, de que adiantava? Ele precisava mesmo era ficar bem com o pai. Neste ele batia, arranhava, tinha episódios em que gritava e se contorcia que o pai, calejado e cansado, ainda assim ia às lágrimas. F. usava umas sandálias de couro, iguais às de seu pai. Parecia um monge, aos 16 anos, com a face castigada e o olhar carregado que só os sábios e os loucos têm. Muito, mas muito de vez em quando ele ria, e nós ríamos com ele, e parecia que estávamos compartilhando um momento normal. O pai sorvia esses momentos como se fossem vinho.

O mais comum, porém, eram as "crianças difíceis". Eram pacientes que, porque precisávamos de algum diagnóstico para os formulários oficiais, classificávamos como portadores de Transtorno de Conduta. Na verdade, não tinham nenhum diagnóstico psiquiátrico. Eram as crianças abandonadas em abrigos onde tinham de brigar com os mais velhos a unhadas. Eram as vítimas de abuso e negligência, com vivência de rua, com pais alcóolatras e mães que fumavam pedra, criados por avós que já não tinham mais de onde tirar uma gotinha de amor para dar. Nós recusávamos internações desse tipo, é claro. Mas eles vinham com o conselheiro tutelar, que os encontrara na casa vazia, sozinhos, acorrentados ao pé da cama; ou com o parecer da Defensoria Pública, que organizara um resgate com a PM e o SAMU para trazer o paciente à força pois estava agredindo a mãe; ou com ordem judicial da Vara de Infância, ou do Ministério Público, estipulando multa de cinco mil reais ao dia para a Secretaria de Saúde se não internasse o "menor" que ninguém mais aguentava no abrigo. Todos esses escabrosos casos de abandono social e afetivo eram encaminhados ao hospital psiquiátrico, como se fôssemos resolver alguma coisa.

Na hora de fazer a internação, eles não falavam, não olhavam para mim, cruzavam os braços e faziam caretas. Eu os levava para passear pelo hospital, mostrava o viveiro de aves, a quadra, o salão de jogos, e, aos poucos, eles se soltavam. Até que iam para a enfermaria e, assim que chegavam, gritavam e esperneavam e quebravam as janelas e batiam nas outras crianças, já mostrando quem manda. Eram crianças que não podiam mostrar fraqueza nunca.

Logo depois que eu comecei no NAPA, apareceu uma oportunidade de sair. O Pinel abriria uma enfermaria feminina, e pedia voluntários para a transferência. Era a minha chance de voltar a trabalhar com adultos. Naquele dia eu saí do NAPA logo após ter prescrito contenção no leito para um paciente agitado. Fui até a secretaria e coloquei meu nome na lista de transferência. Voltei, pensando estar aliviado. Fui ao quarto onde o paciente estava contido. Ele havia se acalmado, e solicitei que fosse desamarrado. Ficamos conversando uma meia hora. Lembro que eu falei qualquer coisa do tipo que pais falariam para filhos, sobre limites, escolhas e responsabilidades. Também falamos de videogames. Alguma coisa diferente aconteceu nessa conversa. Ele ficou feliz, e grato, por eu ter dito o que lhe disse. Lembro que olhei pela janela e vi F., no pátio, com seu pai. Eles estavam rindo. Estavam tendo um raro momento normal.

Desde esse dia, tenho profunda admiração pelos pais dessas crianças com transtornos mentais graves. É claro, quem não tem? Racionalmente, sabemos que eles merecem. Mas, eu tive uma epifania, naquele dia, sobre a qualidade rara desse amor. Talvez seja a única forma de amar um filho sem um pingo de egoísmo. Porque esse filho não vai ser seu espelho, não vai carregar suas expectativas, não vai ter sucesso onde você falhou. Muitos mal conseguirão retribuir o seu amor. Exceto por esses fugazes momentos, como os em que F. e seu pai riam juntos, com suas sandálias de couro. Ou, como quando um garoto agitado e agressivo ouve o que você diz, e reconhece algo que deveria ter sido dito por um pai há muito tempo, mas nunca foi, e, sem usar palavras, agradece a você por isso.

Naquele mesmo dia eu voltei à secretaria e retirei meu nome da lista de transferências. Acabei trabalhando por mais doze anos com crianças e adolescentes no SUS, chefiei o NAPA por dois anos, fui médico da Fundação Casa e de enfermarias de adolescentes dependentes químicos. Conheci uma enormidade de casos tristes, histórias trágicas, e colecionei momentos de desilusão, impotência e, até, desespero. Mas tive meus raros momentos normais, quando pude rir com eles. E sempre valeu a pena.

LEIA OS DIÁRIOS:

- Parte 1 - Olhos

- Parte 2 - Violência

- Parte 3 - Manicômio

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