OPINIÃO

Diários de um jovem psiquiatra no SUS - 2

27/04/2015 13:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
Misha Dontsov/Flickr

Parte 2 - Violência

O senso comum associa a loucura à violência. Há muito preconceito nisso, mas também uma lógica. Acreditamos que a loucura se define pela inconstância, imprevisibilidade, pela fuga das normas e da racionalidade com as quais contamos para nos sentir seguros.

Quem convive com a loucura, no entanto, sabe que não é bem assim. A loucura não é irracional, mas responde a uma outra racionalidade. Ela tem padrões, tipos, "cara"; e quem sofre dela, os "loucos", são indivíduos. Ser um indivíduo nada mais é que reconhecer uma tendência narrativa, um sentido na história de sua vida. A loucura assusta porque ameaça o sentido - é verdade - mas não o aniquila, como se pensa.

Minha primeira visita a uma enfermaria psiquiátrica se deu no quarto ano da faculdade. E foi um momento portentoso. As meninas da turma estavam assustadas, e os meninos disfarçavam com piadas ("Não perde o crachá, hein, se não ninguém te deixa sair"). Uma paciente tentou puxar o cabelo de uma colega. Outra gritava gracinhas para um aluno bonito. Nada muito diferente do que homens "normais" gritam em bares por aí, diariamente. Mas, nos corredores da Psiquiatria, tudo era razão para estranhamento.

Não precisou nem acabar a residência, no entanto, para que o ambiente de enfermaria se tornasse confortável. Acredito que é uma das habilidades mais fundamentais que aprendemos na psiquiatria: conviver com os pacientes. Sentar para conversar, observar seus comportamentos, aprofundar em suas intimidades e negociar os momentos difíceis. É fascinante ver como um fenômeno de adequação sempre surge, na mais violenta das crises. Como se algo dentro deles, que nem pode ser reconhecido, reconhecesse que não estão bem, e que precisam de ajuda. Surpreende os leigos, pois quem trabalha com isso sabe, que há muito menos chance de violência na enfermaria psiquiátrica que em uma viagem de metrô. Nem vamos falar em um estádio de futebol.

Mesmo assim, fazer psiquiatria no SUS ainda significa lidar de perto com a violência. Ela frequentemente aparece nas histórias dos pacientes: abusos; abandono; negligência; estupros; vivências traumáticas que estão estatisticamente associadas ao desenvolvimento de transtornos mentais. Além disso, muitos pacientes são vítimas de violência por sua própria condição. Os familiares relatam ameaças de vizinhos, perseguições, espancamentos, pois as atitudes estranhas dos pacientes não são socialmente aceitas. O Brasil está há, pelo menos, vinte anos em um processo de reforma psiquiátrica. Parte integral deste é que os pacientes sejam mantidos em suas comunidades, vivendo com a família e convivendo socialmente. Mas, ainda é difícil explicar isso para os vizinhos.

O mais sério, porém, é como graves problemas sociais são transformados em questões psiquiátricas. Essa é a forma mais perniciosa e, talvez, mais comum, pela qual violência e Psiquiatria se misturam.

Uma menina - chamada 23225 nesta reportagem - chegou ao hospital com onze anos. Ela morava em um abrigo desde os quatro. A mãe, usuária de crack, estava presa. A avó já não a queria mais. Havia uma história que, talvez, ela tivesse afogado uma criança no abrigo. Nunca conseguimos mais que boatos e sussurros sobre isso. A menina 23225 não tinha nenhum diagnóstico psiquiátrico, e recebeu alta nos primeiros dias. Mas ficou no hospital por seis anos, por determinação judicial, já que não tinha onde viver. Toda a sua adolescência, até os dezessete anos, trancada em uma enfermaria psiquiátrica. Eu deixei de trabalhar lá antes de vê-la ir embora.

Um menino com retardo mental leve foi cuidado pela mãe durante mais de cinquenta anos. Após a morte dela, não tinha mais nenhum suporte social. Os irmãos tinham medo dele. Diziam que não aguentariam o que a mãe suportou por décadas. Agora um senhor, o menino ficava muito bem no hospital, mas tinha crises horríveis quando voltava para casa. Chegou a espancar um parente. Nunca foi criminalmente processado, mas, por determinação judicial, passou a ficar internado sem autorização de alta.

Em um serviço especializado em dependência química, um CAPS-AD, próximo a São Paulo, as condições são precárias. Faltam vidros nas janelas, chuveiros quentes e roupas de cama. Os pacientes vêm para passar o dia, mesmo sem ter muito o que fazer. Ficam horas em uma sala vendo TV. Traficantes fazem ponto na porta. Os que dormem lá têm autorização para fumar nos quartos, pois os funcionários não se arriscam a sair à noite para acompanhá-los.

Uma adolescente internada por dependência química teve uma ótima evolução durante o tratamento. Fez um bom vínculo com a equipe, conseguiu reduzir as doses de medicações, recuperou muito da relação desgastada com a mãe. Estava pronta para a alta. Mas, seu caso estava sendo acompanhado pelo PPCAM (Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte). Eles precisavam encontrar um endereço para realocar a família. Nisso, a menina foi ficando, por meses e meses, sem poder voltar para casa. Frustrada, voltou a piorar e quebrou uma janela para se cortar com os cacos de vidro. Engoliu um, que teve de ser removido cirurgicamente.

Todos esses são casos em que condições básicas de vida não foram supridas. A relação afetiva com um cuidador principal; o reconhecimento familiar e social; o acolhimento em serviços de saúde dignos e efetivos; a oportunidade de viver em uma sociedade saudável, ser respeitado e vislumbrar um futuro. Quando essas coisas são violentamente negadas, o tratamento psiquiátrico já vem tarde demais. E, pior, vem como ainda mais uma violência. Internações compulsórias são corriqueiramente usadas como residência temporária - para abrigar quem não tem casa ou família - ou como prisão - restringindo a liberdade de indivíduos, julgados violentos por determinações judiciais autoritárias, sem o devido processo legal.

E, assim, convivem psiquiatria e violência. Não pelo comportamento dos loucos, mas pela loucura da sociedade em que vivemos.

(Exceto pelo caso da menina 23225, que já havia sido relatado em detalhes na mídia, os outros são mais ou menos fictícios. São recortes de diversas situações verídicas, sem expor nenhum caso específico).