OPINIÃO

Death Note na Netflix: estereótipos do Japão e dos EUA

O protagonista que tem de ficar bonzinho, a narrativa que tem de ser edificante e a personagem feminina que tem de servir apenas para dar suporte são alguns deles.

12/09/2017 07:40 -03
Divulgação / Netflix
É como se a produção americana não pudesse acreditar que o público poderia se identificar com um garoto fora do comum.

A Netflix estreou sua versão live action do famoso anime Death Note sob duras críticas prévias e recepção morna.

Os reviews foram, no máximo, simpáticos sem exaltação. Na média, muito ruins. Mas, antes mesmo dos reviews, a série já havia sido criticada pelo "embranquecimento" (whitewashing) do elenco. E esse é o argumento por trás de muitos dos reviews negativos.

Essa crítica é sem sentido, feita só para não perder o bonde das polêmicas inúteis de que vive a internet.

A história foi toda adaptada para se passar na América. Não é como se acontecesse em Tokyo e todos os personagens principais fossem ocidentais. Aí, sim, seria ridículo. Os casos de whitewashing em Doutor Estranho ou Ghost in the Shell foram muito mais relevantes.

O Death Note se passa em Seattle, e um dos personagens principais, L., o antagonista herói, é negro. Um dos poucos atores (Lakeith Stanfield) que realmente interpreta alguma coisa no filme. Então não foi whitewashed... no máximo, ocidentwashed?

Mas o motivo dos reviews ruins é bem óbvio e justificado. O filme é, no máximo, uma diversão descartável, muito prejudicado por atuações ruins e pela tentativa de encaixar dezenas de horas de história, do material original, em um filme de uma hora e meia. Mesmo assim, não é uma produção sem méritos. A fotografia e a mão de Adam Wingard nas cenas de terror são interessantes e a performance de Willem Dafoe como Ryuk é perfeita.

Fico curioso para saber qual a impressão de quem nunca viu o anime. Porque, mesmo corrido e aguado em relação ao original, ainda se encontram ali ideias e situações muito originais e provocantes. É uma pena a oportunidade perdida de apresentar essas ideias a uma maior audiência, de forma mais competente.

Agora, muito mais interessante que a polêmica do embranquecimento, é pensar sobre algumas decisões tomadas nessa adaptação e o que elas podem indicar sobre estereótipos e preconceitos culturais,

Eis a trama básica do Death Note original: um espírito da morte entediado resolve jogar seu caderno mágico na terra, só para ver o que acontece. O caderno é encontrado por um adolescente chamado Light, que logo descobre seus poderes. Se ele escrever o nome de alguém naquele caderno, a pessoa morre.

O caderno tem um conjunto de regras, que são um dos aspectos mais interessantes do anime. Remete ao tipo de jogo proposto por Asimov em suas obras sobre robôs: dadas algumas regras básicas, como é possível encontrar jeitos de forçá-las, fazê-las agir de forma inesperada, abusar de brechas imprevistas?

Além disso, Light é um curioso vilão bem intencionado. Um protagonista improvável e provocador, super inteligente, lógico e emocionalmente distanciado. Megalomaníaco, mas com um forte e torto senso de justiça.

Enquanto isso, Ryuk, o demônio entediado, é a constante presença do horror indiferente, interessado apenas em comer maçãs, dar risadas maníacas e divertir-se com os esforços inúteis dos humanos.

O antagonista, L., é uma espécie de Sherlock Holmes adolescente. Um garoto criado para ser um super detetive, cheio de estereotipias e maneirismos, devorando doces sem parar para manter seu cérebro hiperativo maniacamente rodando, maquinando, decifrando enigmas.

A trama se desenrola como um estudo de teoria dos jogos, uma batalha entre os intelectos dos dois rivais, perfeitamente ilustrada na cena do jogo de tênis, em que ambos se cansam física e intelectualmente tentando prever os diversos níveis de ação e reação que possam estar sendo considerados pelo outro ("se eu ganhar, ele vai saber que tal, mas se eu perder ele vai saber que estou perdendo para que ele não pense que tal", e por aí vai).

Já na versão americana, Light é um menino comum, bonzinho, motivado por uma história meio Batman, de vingar a morte de sua mãe e salvar o mundo dos bandidos. É como se a produção americana não pudesse acreditar que o público poderia se identificar com um garoto fora do comum, como se não fosse possível criar um protagonista detestável. Para uma produtora que tem Frank Underwood como carro chefe de seu sucesso, isso é uma super bola fora.

Além disso, a produção americana sentiu-se obrigada a enfiar na história a narrativa básica e constituinte da América: a superação, o romance de formação, a lição aprendida, o conflito como mola propulsora do progresso. No Death Note original, a imaginação pop e a satisfação intelectual prevalecem. Nos Estados Unidos, virou lição de moral.

Chama atenção, também, a transformação da garota, a namorada de Light. Na versão original, Misa é uma personagem completamente caricata, um sonho adolescente. Uma celebridade pop que é completamente apaixonada e submissa.

Na versão americana, obviamente, esse clichê dos animes não ia colar. A menina, rebatizada Mia, acaba por representar o lado mais maléfico, ambicioso e pragmático, que foi tirado de Light. Tudo para que o protagonista possa aprender alguma coisa, para que haja alguma possibilidade de redenção.

O que me lembra da famosa discussão sobre Marty McFly em De Volta para o Futuro. Há um bom argumento em afirmar que ele é o protagonista perfeito, justamente porque não aprende absolutamente nada.

Enfim, entre o protagonista que tem de ficar bonzinho, a narrativa que tem de ser edificante, e a personagem feminina que tem de servir apenas para dar suporte, temos alguns exemplos do pior e do melhor dos estereótipos dessas duas culturas. E algumas explicações para que o filme seja apenas uma adaptação genérica de uma das obras mais emblemáticas e bem acabadas de seu gênero.

Death Note merecia mais, mas ainda vale a pena ser visto.

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