OPINIÃO

Como explicar o fenômeno Star Wars?

23/10/2015 11:48 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Divulgação

Aproxima-se a data de estreia do novo Star Wars. O lançamento do trailer final ganhou tratamento de mega evento no intervalo de um jogo da NFL, transmitido ao vivo para diversas partes do mundo e quebrando a internet em segundos. A pré-venda de ingressos, com quase dois meses de antecedência, já tem salas lotadas e bateu o recorde histórico. Não só vendeu mais que o segundo lugar, mas vendeu impressionantes oito vezes mais que o segundo lugar.

Star Wars é um dos maiores sucessos da história do cinema. Mais do que uma marca, é uma referência cultural elevada a status quase mítico. Jedi, sabres de luz, Darth Vader e a "Força" são figuras icônicas que dispensam apresentação, incorporadas ao vocabulário. Como explicar tamanho sucesso?

É possível ser cínico e propor que tudo se resume a marketing, à força do consumismo, à falta de profundidade cultural do mundo moderno. Mas, fosse só isso, com toda a competência da indústria multimilionária que vive desses fenômenos, deveríamos ter uma franquia de sucesso a cada ano. Não que Hollywood não tente, com Senhor dos Anéis, Harry Potter, Jogos Vorazes, ou o surpreendente universo cinemático Marvel. Todos grandes sucessos. Mas, poucos capazes de levar marmanjos às lágrimas a cada novo teaser, como Star Wars.

Levando em conta um viés mais psicológico, há algumas coisas que Star Wars faz muito bem. Os filmes começam com: "Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante...". A frase ajuda a criar uma sensação de estranheza. Ela remete ao "era uma vez..." dos contos de fada, e coloca a narrativa no passado, o que parece estranho para um filme de ficção científica. Na sequência, descobre-se que a história já vai pelo meio (o primeiro filme é o episódio IV). Vemos uma espaçonave enorme sendo perseguida por outra que, logo se vê, é maior que a primeira. Ela é descomunalmente maior que a primeira. Todo esse começo cria no espectador uma espécie de confusão mental, próximo ao que os psicólogos descrevem como "dissonância cognitiva".

O filme segue com uma estética que mistura faroeste com o oriente; alta tecnologia em um mundo em que tudo parece velho e datado; droids humanizados vendidos como escravos, e a sugestão de uma ordem de guerreiros/monges místicos.

Todos esses elementos, e muitos outros detalhes, contribuem para causar dissonância cognitiva. A partir daí a plateia passa a precisar de sentido como quem tem sede precisa de água. O mundo fantástico que se descortina na ficção passa a satisfazer uma necessidade básica, e é assimilado com facilidade.

E isso, interessantemente, acontece com todos nós conforme vivemos nossas vidas.

Nós também começamos nossa história pelo meio. Como ninguém tem lembranças dos primeiros anos de vida - não o suficiente para que contemos uma história deles que faça sentido - todos nós nos descobrimos em meio a uma narrativa, da qual somos protagonistas antes mesmo de sabermos quem somos. Haja dissonância cognitiva.

Mais ainda, vivemos um mundo caótico. Observamos a natureza, as pessoas, os eventos históricos e sociais, como se todos os acontecimentos fossem parte de uma grande história cujo sentido nós podemos compreender. Só que não. Na verdade, tudo o que percebemos são só efeitos fugazes de uma cadeia de causas incompreensíveis. Cada evento que experimentamos é apenas um epifenômeno, que raramente nos diz respeito. Mas, como parte de nossa natureza humana, infundimos tudo de sentido. Transformamos tudo em narrativa. É uma necessidade básica que temos de saciar, para nos livrar de dissonâncias cognitivas.

Há diversos estudos sobre essa necessidade narrativa do ser humano. Os mais famosos, talvez, sejam os do mitólogo americano Joseph Campbell, autor de O Herói de Mil Faces, livro que George Lucas admitiu ter usado para escrever o roteiro de Star Wars. Campbell propôs que as histórias míticas seguem uma estrutura universal, reconhecível nas narrativas épicas das mais variadas culturas, e ressurgindo através dos tempos. Essa estrutura básica, chamada "A Jornada do Herói", é seguida à risca em Star Wars.

O herói, Luke, começa a jornada recebendo um "chamado", no caso, a mensagem da princesa Leia. Ele recusa o chamado, mas recebe uma ajuda sobrenatural (o encontro com o velho bruxo Ben Kenobi), e acaba saindo para a aventura após uma grande perda (seus tios assassinados pelo Império). Durante a jornada, seu caráter lhe garante a ajuda de amigos imprescindíveis. Mas, no final, restará sozinho para enfrentar sua nêmesis. Ao longo da saga há o treinamento; a profecia; o caminho de adversidades; o guia espiritual; o confronto com o pai levando à reconciliação, e o retorno como um mestre dos dois mundos. Em Star Wars, os dois mundos podem ser entendidos como o mundano e familiar, que começa na fazenda em Tatooine, e o épico conflito político interplanetário. Luke resolve ambos. Mas, também, pode ser entendido como os dois lados da força, que Luke equilibra ao redimir o pai.

Além de Campbell, há muitos outros teóricos sobre a psicologia narrativa do ser humano. Os filólogos como Max Muller e Nietzsche, linguistas como os irmãos Grimm, antropólogos como James George Frazer, autor de O Ramo de Ouro, e Claude Lévi-Strauss, de Mythologiques. Todos estudaram, fascinados, esse fenômeno de contar histórias, e as formas recorrentes como elas se estruturam por toda a humanidade.

Na Psicologia, Jung foi a maior referência na área. A psicologia analítica, forma de terapia desenvolvida por Jung, trabalha exatamente com as histórias, os mitos pessoais, que contamos enquanto construímos nossa própria identidade. Atualmente, um dos expoentes dos estudos da personalidade, Dan McAdams, trabalha com o conceito de psicologia narrativa. Ele estuda como mitos modernos, como o do Sonho Americano, por exemplo, influenciam as experiências psicológicas dos indivíduos daquela cultura.

Talvez essa seja uma das várias explicações para o fenômeno Star Wars. O filme encanta as crianças com seus heróis épicos, aliens estranhos e espadas brilhantes, mas, enquanto faz isso, apresenta a elas uma narrativa universal. Aquelas que os pajés contavam aos curumins em volta da fogueira. Que as crianças da idade média ouviam dos mercadores quando passavam por suas vilas. Que eram entoadas em cantigas de roda há muito esquecidas, ou contadas em tom cautelar pelos velhos loucos da vizinhança.

Star Wars atualiza o mito do herói para os tempos modernos. E ainda permite que você compre uma caneca do seu herói, entre na pele dele em um jogo de videogame, ou o dê para seus filhos na versão plástica e articulada.

Seja o seu mito pessoal o do herói clássico, ou o da antropofagia pop moderna, não se preocupe. Star Wars tem tudo o que você precisa.

LEIA MAIS:

- Assista ao novo trailer de 'Star Wars - O Despertar da Força'

- R2-D2, de 'Star Wars', vive uma épica história de amor em vídeo

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:



VEJA MAIS SOBRE NO BRASIL POST:

Star Wars VII: versões alternativas do trailer