OPINIÃO

A ciência é um desejo. A ciência é um tesão

02/12/2016 13:25 BRST | Atualizado 02/12/2016 13:25 BRST
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Um dos livros mais decepcionantes que li nos últimos tempos foi Sapiens - Uma breve história da humanidade.

Não achei um livro ruim, mas decepcionante. Talvez porque eu tenha demorado tanto para ler - e, nos cinco anos desde seu lançamento, ele tenha se tornado tão popular e influente - que já não achei nenhuma ideia original.

Uma das coisas que me incomodou foi a forma como o autor - o historiador israelense Yuval Noah Harari - reduz o pensamento político ao religioso.

Harari apresenta, de forma muito clara e instigante, a ideia de que nós, humanos, nos distinguimos de outros animais por criarmos ficções, nas quais acreditamos tanto a ponto de podermos cooperar e evoluir para além dos limites da natureza. Por exemplo, dinheiro, Deus, capitalismo, etc.

É verdade que religiões e sistemas políticos são ficções. Mas é simplista afirmar que, apenas por serem ficções, são exatamente a mesma coisa. Há importantes diferenças na origem, no intuito, na função e nos resultados obtidos por diferentes ficções.

Ainda pior, Harari chega a afirmar que também a ciência - apenas mais uma ficção - seria, portanto, apenas mais um credo.

Ele levanta alguns bons argumentos:

A ciência é uma ficção, como o dinheiro e a religião. É uma criação da cultura humana.

É inseparável de outras produções culturais, como ideologias e economia. Ela muda de acordo com o momento histórico, se desenvolve ao longo do tempo, e, portanto, não é correta e imutável, não é "resolvida".

A ciência não faz sentido sem considerações extra-científicas. São essas que determinam o que vale a pena ser pesquisado, como alocar recursos, quais campos de pesquisa ganham ou perdem prestígio, e o que fazer com os resultados obtidos. Nada disso é científico.

Além disso, a ciência não pode definir seus próprios métodos. Claro. Qual método científico usar para decidir qual deve ser o método cientifico? As transformações que o método sofreu ao longo dos séculos, da especulação filosófica, ao empirismo, à revolução científica, ao positivismo lógico e, até, ao realismo ingênuo que define a ciência contemporânea, todas foram determinadas extra-cientificamente. E é assim que deve ser.

Mas, é muito ingênuo concluir que, por causa disso tudo, a ciência seja apenas mais uma produção cultural, um credo.

Esta é a conclusão a que todo tolo chega, quando quer desacreditar a ciência:

"A-há," - dizem - "como Popper pode afirmar o princípio da refutabilidade sem que este princípio seja refutável?".

"A-há, Ayers diz que não há sentido no que não pode ser verificado pela experiência, mas então essa afirmação não tem sentido!".

"Se a ciência que você faz hoje não é a mesma de Aristóteles, então não há uma só ciência, nem uma só verdade, e toda essa empreitada é fútil e arrogante". (...) "Ah é: A-há!"

Assim como religião e ideologia políticas são ilusões, mas não são a mesma coisa, a ciência é uma ilusão, ao mesmo tempo em que é diferente de todas as outras coisas.

Essa é a graça da especificidade, que parece que Harari esqueceu de considerar ao escrever seu livro. Não seria necessário dar nomes diferentes às coisas se elas fosse todas iguais.

Afirmar que tudo é político, por exemplo, é afirmar que nada é. Se tudo for político, afirmar que algo é político seria, exatamente, a mesma coisa que afirmar que algo é, ponto. Ser político perde qualquer especificidade.

Se tudo, absolutamente tudo, o que o homem cria e usa para apreender o mundo é uma ilusão (afirmação que me parece muito correta), então isso não significa muito. Ou seja, dizer que algo é uma ilusão é o mesmo que não dizer nada de interessante sobre esse algo.

Estabelecido isso, o que interessa, então, é considerar o que é que as coisas realmente são, além de "uma ilusão".

E o que é a ciência? Por que eu afirmei que ela é diferente de todas as outras coisas?

Bem, todas as coisas são diferentes de todas as outras, naquilo que lhes é específico. No caso da ciência, sua especificidade é a de ser o esforço de revelar a verdade da natureza.

Mas, já não estabelecemos que não existe uma verdade absoluta? Que tudo o que podemos apreender do mundo se dá através de nossas ilusões?

Pois é, e é justamente esse o caráter sui generis da ciência. Ela é a ilusão que se esforça por revelar a realidade.

Por mais ilusões que possamos criar, por mais construções sociais que nós produzimos e, ao mesmo tempo, produzem nossa consciência, todos temos a experiência do mundo físico, e compartilhamos da natureza.

Todos sentimos a ação da gravidade, somos banhados pela luz do Sol, vemos a água se tornar gelo e vapor, as plantas crescerem a partir de sementes e todos os seres vivos, inexoravelmente, morrerem. Nossa ciência, imperfeita como é, conseguiu prever partículas subatômicas e colocar o homem na Lua.

Como disse Richard Dawkins, "It works, bitches".

Mas, de fato, falar em verdade incomoda. Parece ingênuo afirmar que qualquer coisa se defina por "buscar a verdade". A objeção de que não existem verdades absolutas sempre vem, imediatamente, à tona.

Sem problemas, esqueça a verdade. Eu não acho suficiente que a ciência se defina por buscar a verdade. Até porque, os primeiros esforços científicos não tinham essa intenção, ou, pelo menos, não como a compreendemos hoje. Na antiguidade clássica não havia uma distinção clara entre buscar a verdade, a beleza, a justiça, ou o bem. A empreitada era uma só.

Da mesma forma, a ciência não é, como querem alguns, a aplicação de um método. Não há só um método científico. Ele mudou muito, historicamente, e seria irracional imaginar que chegamos ao ápice do seu desenvolvimento. Talvez fosse até possível prescindir de métodos para fazer ciência, como sugeriu, provocativamente, Feyerabend.

Nem seria justo ter de concluir, a cada nova era, e novo método, que tudo o que veio antes não foi ciência. Ou teríamos de afirmar que Newton e Aristóteles nunca foram cientistas. Eles não faziam ciência como fazemos hoje, mas fizeram em suas épocas.

Na verdade, o homem primitivo, animista e panteísta, fazia ciência a seu modo. Ele via a água escorrer por seus dedos e queira algumas coisas: imaginar, compreender, dominar, se assegurar. Criou explicações, atribuiu sentidos, produziu ilusões e cultura, transcendência e poder e, no início, era tudo uma coisa só. Aos poucos, ao longo de milênios, cada um desses ímpetos encontrou melhores formas de se expressar e se diferenciou.

Nesta diferenciação, ciência é o nome que passamos a dar a esse desejo de compreender, em resposta ao ímpeto de questionar. Ele já estava lá, desde os primórdios, inexperiente e indiferenciado, mas já inquieto e irresistível.

A ciência é também moral. Ela quer compreender, mas com integridade, sem se deixar enganar. Porque, por mais que o homem voe em suas ilusões, ele sente os limites da natureza, e quer decifrá-los. É uma coceira, um incômodo, e um deslumbramento. Um desafio, e um prazer.

Não à toa, a ciência se tornou uma das mais duradouras e universais empreitadas do ser humano. Enquanto vivemos em meio a cisões políticas, ideológicas e religiosas, o mundo inteiro hoje, o ocidente e o oriente, os capitalistas e os socialistas, os desenvolvidos e os em desenvolvimento, todos, fazemos ciência do mesmo jeito. É a segunda ilusão mais pervasiva da humanidade (a primeira é o dinheiro).

Isso porque a ciência não é um método, nem um credo, nem uma produção cultural. A forma como realizamos ciência é, mas não é isso o que é a ciência.

A ciência é um desejo. A ciência é um tesão.

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