OPINIÃO

Chegará a vez do Homem-Aranha negro e latino nos cinemas?

Miles Morales é um retorno à essência do sucesso do personagem: o garoto meio desencontrado, marginalizado, dos subúrbios pobres de Nova York.

01/08/2017 16:56 -03 | Atualizado 01/08/2017 16:56 -03
Reprodução/Marvel
Miles Morales, negro e descendente de latinos, vai deixar de ser o Homem-Aranha em uma realidade alternativa para ser o super-herói na realidade definitiva dos quadrinhos da Marvel.

O último filme do Homem-Aranha nos cinemas, De Volta ao Lar, é excelente. Divertido, cheio de uma energia adolescente gostosa, com um bom vilão e uma nova cara para o herói. Enfim, uma ótima promessa para a franquia, que precisava de revitalização.

Esta versão cinematográfica também é uma das mais ousadas, em termos de o quanto ela se diferencia dos quadrinhos. Não vou listar filigranas que só interessariam aos fãs mais hardcore do aracnídeo, mas fica claro que este Homem-Aranha inserido no universo cinemático Marvel é um amálgama de referências de diversas versões dos quadrinhos e, até, de desenhos animados.

Uma coisa que salta aos olhos é que o perfil étnico dos personagens foi bastante atualizado. Os colegas de escola de Peter em De Volta ao Lar são bem mais coloridos que os tradicionais dos quadrinhos, praticamente todos brancos.

Destaque para seu melhor amigo, que no filme é apenas Ned, mas o fãs imaginam que seja a versão de Ned Leeds dos quadrinhos. Originalmente, Leeds era um repórter branco e loiro. Mas ele já havia sido transformado em Ned Lee, de ascendência coreana, em uma versão animada.

Neste filme, Ned parece ter ascendência filipina. O ator, Jacob Batalon, é americano, nascido no Havaí e de pais filipinos. Mas a relação dele com Peter, sua aparência física e muitos elementos da história (como seu interesse por Legos e o fato de saber a identidade secreta do herói) foram tirados diretamente de Ganke Lee, personagem que não faz parte da história de Peter nos quadrinhos.

Ganke Lee é o melhor amigo de Miles Morales, o novo garoto por trás da máscara de Homem-Aranha. Miles é um menino de quatorze anos negro e latino (pai afro-americano e mãe porto-riquenha). E muitos outros elementos do novo filme remetem às suas histórias. Ele até é mencionado indiretamente. O tio de Miles, Aaron Davis, é o bandido que Peter Parker interroga em uma cena hilária em De Volta ao Lar, e ele cita seu sobrinho.

O ator Donald Glover, que interpreta Davis, foi a inspiração para a criação Miles Morales. Ele comentou em uma entrevista que gostaria de interpretar o Homem-Aranha. E foi isso que levou Brian Michael Bendis, o criador de Miles, a desenvolver o personagem - além da eleição de Obama.

A diversidade dos heróis

É sabido que, apesar do sucesso de seus filmes no cinema, a Marvel vem enfrentando o constante declínio das vendas de quadrinhos. Nos últimos anos, a editora tem tentado se manter relevante através da aposta na diversidade. E vem fazendo uma lambança geral em seus principais títulos.

Thor virou mulher; a Miss Marvel, uma adolescente muçulmana; o Homem de Ferro, uma geniazinha negra; Hulk, um coreano-americano; e o Capitão América, um agente nazista infiltrado.

De modo geral, no entanto, a recepção a esses novos títulos tem sido fria, incapaz de reverter a queda de vendas. À exceção de Miles Morales.

O novo Homem-Aranha goza de enorme popularidade, e não à toa. Enquanto as outras transformações parecem tentativas desesperadas de virar notícia, Miles Morales é um retorno à essência do sucesso do personagem. O arco de histórias que substitui o Peter Parker do universo Ultimate por Miles como o Homem-Aranha é uma das melhores coisas produzidas no gênero na última década.

Miles é hoje exatamente o que Peter foi nos anos 60: o garoto meio desencontrado, marginalizado, dos subúrbios pobres de Nova York, que ganha poderes extraordinários mas não tem nem permissão para ir a Manhattan sozinho.

Esse é o toque de Midas que fez do Homem-Aranha um ícone da cultura pop. E, hoje, o herói dessa história só poderia ser um latino do Queens. Isso faz sentido, é natural, não uma mudança aleatória feita para alavancar vendas. Miles is the real deal.

Esse toque está no novo filme. Então, por que Miles não está lá?

Afinal, por que um filme tão progressista que pode transformar a Mary Jane em uma Michelle Jones negra precisou roubar tantos elementos da história de Miles e entregá-los a um Peter Parker branco?

Parece que o Homem-Aranha sem Peter Parker nos cinemas ainda é uma aposta que os executivos de Sony e Marvel não estão querendo encarar. O progressismo só vai até onde não atrapalhe os lucros, é claro.

Enquanto isso, a DC, editora concorrente da Marvel, vem tendo mais sucesso com sua linha Rebirth, que volta a apresentar os personagens em suas versões clássicas. Afinal, eles não se tornaram icônicos à toa.

Outra observação muito interessante para apimentar essa discussão foi feita por Paul Tassi, prolífico jornalista de games e nerdices afins da Forbes: o tema que une todos os quatro grandes blockbusters de heróis nos cinemas deste ano é a relação entre pais e filhos.

Logan mostrou Wolverine encontrando a redenção através de sua filha-clone. Guardiões da Galáxia 2 foi todo sobre Peter Quill e seu pai. De Volta ao Lar trouxe o Homem de Ferro para ser a figura paterna do Peter mais moleque que já vimos nos cinemas.

E Mulher Maravilha, o único no qual uma história de amor teve alguma relevância, trata de uma heroína que desafia a mãe superprotetora para honrar os valores que aprendeu com ela. Como observou Tassi, Diana não precisou de uma tragédia (a explosão de Krypton, a morte do tio Ben) para se tornar uma heroína. Foi só por ter sido bem criada.

O primeiro filme do Homem-Aranha, de 2002, começava com uma narração que dizia: "esta, como toda história que vale ser contada, é sobre uma garota". Parece que as coisas mudaram.

Conservadores podem dormir tranquilos. O que ainda vende muito, pelo jeito, são os bons e velhos valores familiares.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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